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domingo, 10 de novembro de 2013

O ENIGMA VAZIO



Quero salientar, de antemão, que o título dessa matéria não pertence a mim. Peguei emprestado de um ensaio literário escrito por Affonso Romano de Sant’anna, e é justamente sobre esse ensaio, o desenvolvimento do texto que se desenrolará a seguir.

 MARCEL DUCHAMP - O grande vidro

Marcel Duchamp, artista francês, afirmou no auge de sua carreira, que qualquer um pode ser artista e que qualquer coisa pode ser uma obra de arte. Para ele, o que importava não era a obra em si, mas o conceito que ela representava. Infelizmente, afirmativas como essa, que inicialmente podem parecer bastante democráticas, são mentiras que acabaram se transformando em dogmas, e foram se impondo pelo século XX como verdades inquestionáveis. Duchamp inaugurou o movimento que se intitulou de Arte Conceitual, que é o pilar de tudo que há de contemporâneo hoje em dia.
Bom, precisei de começar assim o texto, pois é aqui que entra o ensaio de Affonso Romano, que diga-se de passagem, é um dos ensaios mais lúcidos e corajosos que já vi nos últimos tempos. É preciso ter, acima de tudo, um embasamento teórico e técnico bem sedimentado para debater de frente com os teóricos e críticos promotores da arte atual. Pois bem, como diz Affonso Romano, “já que arte do século XX pretende ser uma questão conceitual, então vamos analisar tecnicamente essa questão do conceito”. É onde percebemos claramente que grande parte do que está por aí, se afirmando como os mais dignos representantes da arte do momento, não passam de pura especulação. De pessoas oportunistas, que se armaram eficientemente com o dom da retórica e do discurso, e que alienam e manipulam aqueles que infelizmente não podem ou não tem o direito de argumentação. Como diz o próprio Affonso Romano, “não se pode estudar a questão da arte, sem estudar filosofia e retórica, sobretudo à partir do século XX”.
Por essas e outras, que os amantes da verdadeira arte, sobretudo com referências da arte clássica e acadêmica, se isolam e se calam. É que, afirmar hoje, ser solidário ao que é clássico e tradicional é um grande risco, pois pode parecer algo conservador e fora de moda. Todos sabemos que isso é uma artimanha do sistema que se implantou, um artifício usado por aqueles que querem monopolizar e manipular o cenário da arte. Ficou-se a sensação de que tudo que tem referência ao antigo é ultrapassado e tudo que é moderno e contemporâneo precisa ser amado incondicionalmente. Já vi pessoas extasiadas diante de um tijolo quebrado, exposto em um desses megaeventos de bienais. Não extraem nenhuma informação concreta dali, mas por medo de parecerem fora de moda, fingem entender e se extasiar com o que não podem decifrar.

 WILLIAM BOUGUEREAU - As laranjas - Óleo sobre tela - 117 x 90 - 1865
Bouguereau foi um dos grandes defensores da arte clássica, quando essa
começou a sofrer as ameaças dos primeiros movimentos dito "modernistas".

Analisar a arte desse tempo é essencial para desenvolvermos um raciocínio lógico para onde pretendemos chegar. Também é bom frisar, que a liberdade foi e sempre será o objetivo maior, perseguido por todo artista. Mas, liberdade pode ser uma arma perigosa, com ela construímos ou destruímos algo. Antes de mais nada, é necessário que nos livremos dos conceitos errôneos que foram implantados no século XX, se é que almejamos entrar em uma nova era da arte.
Deixo, a seguir, uma palestra ministrada por Affonso Romano de Sant’anna, no período de lançamento do livro “O Enigma Vazio”. A palestra pertenceu ao programa “Sempre um papo”, e foi gravada no dia 30 de outubro de 2008, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte. Aviso com antecedência, que é um pouco longa, cerca de 1h e 12 min. Mesmo que não consiga vê-la na íntegra, de uma única vez, esforce-se para que o faça pelos menos em 3 ou 4 partes. É uma palestra perfeita para educadores de diversas áreas, desde a Filosofia até a Literatura, e também para todos os leigos (assim como eu) que se esforçam para não seguirem apenas como massa de manobra. É muito bom saber que não se está sozinho nessa caminhada, e que o horizonte acena com uma luz em seu final.

*Agradecimento especial a Nil Roque, pela indicação da matéria.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ÉMILE MUNIER

ÉMILE MUNIER - Seu melhor amigo - Óleo sobre tela - 68,6 x 50,8 - 1882

É provável que um dos primeiros grandes embates da história da pintura tenha acontecido na segunda metade do século XIX. Havia uma grande quantidade de movimentos artísticos se manifestando de uma só vez, em diversas regiões da Europa, que era a referência para toda escola artística daquela época. O Naturalismo e o Realismo se mostravam como movimentos já bem consolidados desde o início do século e o Impressionismo já se firmava como a alternativa mais certa para a grande reviravolta modernista que começaria no fim daquele século e entraria consolidado por todo o século XX. Mas, havia ainda um grande grupo resistente, apoiado principalmente pelas monarquias que governavam vários países. Na França, em especial, era o Grande Salão de Artes, financiado pelo governo, que ditava as regras acadêmicas. O Academicismo acabou se consolidando como um estilo oficial do salão e muitos artistas se moldavam a ele, preparando suas obras e se firmando nos conceitos das academias que ensinavam obrigatoriamente esse estilo. Mesclando elementos do Neoclassicismo e Romantismo, o Academicismo tinha como princípio básico uma abordagem realista, mas com uma dose bem generosa de idealismo. Era uma corrente que visava agradar o grande público consumidor que se formava, mas que também não abria mão dos conceitos clássicos da arte. As obras acadêmicas precisavam possuir, além de um caráter estético, um fundo ético e que servisse como um princípio pedagógico, educando o público que tivesse acesso a ela e transformasse a sociedade para melhor. Isso agradava, evidentemente, os governos locais, tendo um apoio irrestrito nos diversos departamentos culturais de cada país.

ÉMILE MUNIER - Um momento especial A lição de tricô
Óleo sobre tela - 114,3 x 83,8 - 1874

Émile Munier se consagrou principalmente nesse período de embates e de reviravoltas. Grande defensor dos ideais acadêmicos e fiel seguidor de William Bouguereau (sua principal inspiração), soube tirar proveito de sua melhor fase de produção e desenvolveu uma temática sólida e um estilo que o traria bons frutos, tanto na Europa, como nos Estados Unidos.

ÉMILE MUNIER - Brincando
Óleo sobre tela

ÉMILE MUNIER - Uma família feliz
 Óleo sobre tela - 67,3 x 55,9 - 1879

Émile Munier nasceu em Paris, a 2 de junho de 1840. Era filho de operários. O pai era estofador e a mãe funcionária de uma fábrica de tecidos. Seus outros dois irmãos, François e Florimond, também se tornaram respeitáveis artistas da cena parisiense. Sob os ensinamentos de Abel Lucas, Munier aprendeu praticamente tudo que viria a formar sua carreira: desenho, pintura, anatomia, perspectiva e também química, pois tinha a intenção de se tornar um ilustrador de estamparias, na área de estofados. Foi também nessa época que conheceria Henriette Lucas, filha de Abel, com quem se casaria logo em seguida.


ÉMILE MUNIER - De castigo - Óleo sobre tela - 94 x 64 - 1879

A década de 1860 foi muito marcante em sua vida. Ao mesmo tempo que se firmava como um reconhecido artista, tendo recebido inclusive três medalhas em participações do Salão de Paris, sua vida pessoal também lhe traria fortes provações. Ele se tornaria pai em 1867, mas perderia sua esposa dez semanas depois, vítima de um reumatismo grave.


ÉMILE MUNIER - Gatinhos - Óleo sobre tela - 45 x 30

A década de 1870 traria novos ânimos para ele, pois é nela que decide viver exclusivamente da produção artística, abandonando o cargo de estofador que o mantinha até então. Também lecionava desenho e pintura e isso parece ter colaborado muito para que sua carreira lhe inspirasse novos rumos. Inspirou mesmo, tanto que em 1872 casa-se novamente, agora com outra artista, Sargines Angrand-Campeon.


ÉMILE MUNIER - Recuperando - Óleo sobre tela - 101,6 x 187,3 - 1894 - Coleção particular

O convívio com William Bouguereau, a partir de 1872, seria fundamental para sua carreira. Não eram só grandes amigos, mas dividiam também as mesmas propostas, e um certamente tenha influenciado o outro, em diversos momentos. Munier já era então um artista de respeito, requisitado por colecionadores e com os trabalhos já alcançando boas cotações. Sua consagração se deu em 1885, quando expõe Três amigos, uma cena muito bem equilibrada mostrando uma garota brincando com seus gatinhos. Ele firma-se então como um dos mais procurados artistas para pinturas de crianças e animais. Esse trabalho foi reproduzido inúmeras vezes, por toda a década, em diversas escolas e por vários artistas.

ÉMILE MUNIER - Três amigos - Óleo sobre tela - 81,3 x 99,7 - 1885


Ele continuou sua carreira produzindo aquilo que mais gostava: cenas de crianças felizes, cenas mitológicas, camponeses em suas rotinas diárias e interiores. Não chegou a ver a virada do século, falecendo em 29 de junho de 1895, aos 55 anos de idade. Também não chegou a ver as mudanças que trariam os tempos futuros, talvez isso tenha sido até um prêmio para quem dedicou sua vida em torno de ideais moldados na arte acadêmica e de toda uma proposta. As mudanças que a arte teria certamente não seria algo com o que gostaria de conviver. Alguns de seus trabalhos ainda são disputados em raras ocasiões de leilões das melhores casas do ramo.


ÈMILE MUNIER - Mensagens de amor - Óleo sobre tela - 81,2 x 60 - 1891