Alguns livros nos encontram.
Se permitirmos, ajudam a mudarmos conceitos e a modificar nossas vidas.
Mestres silenciosos, estão sempre disponíveis e às vezes pouco lembrados. Ensaios de Pintura e de Psicanálise é um
desses livros diferenciados, obrigatório para aqueles que fazem, vivem ou
simplesmente curtem Arte. Escrito pelo mineiro Carlos Perktold, é um alento de
que as coisas ainda tem jeito, um bom sinal de que a Arte já mostra vontade de
reencontrar seu verdadeiro caminho. É com muita honra que leio um crítico de
arte contemporâneo, tendo a coragem de afirmar com orgulho o seguinte trecho:
“Para onde vai a pintura nesse século XXI? Respondo declarando que o novo
caminho é privilégio de quem sabe desenhar e pintar. E muito! Quem sabe,
desenha e pinta, quem não sabe, apresenta cacarecos e ideias idiotas”. Carlos
Perktold assume assim, bravamente, o lado daqueles que há muito tempo já
perceberam que a Arte se embrenhou por um caminho perigoso e que lentamente
precisa de guerreiros para defenderem seu verdadeiro reino.
Integrante do Círculo
Psicanalítico de Minas Gerais e da Associação Brasileira de Críticos de Arte,
Carlos é colaborador do Caderno Pensar do Estado de Minas e do Caderno Domingo,
do Hoje em Dia. Essas credenciais são importantes, pois atestam a presença de
alguém atuante, que possui conhecimento de causa para falar e expressar sobre
assuntos delicados, ligados diretamente à Arte. Seu livro reúne uma coletânea
de ensaios, alguns inéditos inclusive, e é dividido em duas partes: na primeira,
um passeio delicioso pela pequena biografia de vários nomes importantes da arte
nacional e mundial. Emocionante a narrativa sobre Guignard, sua trajetória
triste e solitária. Há também uma homenagem digna a Manet, o pai da grande
reviravolta no ver e fazer Arte, e nos surpreende com relatos sobre Herculano
Campos (tão pouco conhecido), Chanina, Bracher, Gauguin, Ianelli e outros. Para
a segunda parte, vários aspectos na natureza humana são apresentados de uma
forma acessível e bem precisa. O mais interessante é que todos os argumentos
usados para explicar os comportamentos humanos são feitos em paralelo com obras
artísticas, extraídas do cinema, da literatura e da pintura.
MANET - Olympia - Óleo sobre tela - 130,5 x 190 - 1863 - Museu d'Orsay, Paris
"Olympia, tão abominada, execrada, vilipendiada e ocasionalmente,
vista como prostituta, nunca foi vendida. Manet a manteve para sempre
por pura falta de comprador. O quadro sumiu e reapareceu,
glorioso, somente depois da II Guerra Mundial...
Olympia hoje nos pergunta por que tanta valorização se sempre
foi o que é. A resposta a esta pergunta está em nós: porque mudamos."
Perktold é consciente de que
a Arte é um terreno cíclico. Não há mais espaço nela para os desvarios que
vemos na atualidade, mas também não vê o artista como alguém estacionário, que
não evolui. Gosto bastante quando ele afirma que “temos dificuldade de aceitar
ou negar novas ideias. Não aprendendo com o passado, arrastamos o presente, sem
modificar o futuro. Paralisados, repetimos. Lidamos mal com pessoas criadoras
porque elas contrariam a regra geral”. É por essa lógica, que ele nos esclarece
como um artista se torna abstrato por convicção, depois de galgar todos os
degraus penosamente pela arte acadêmica e de fundamentos técnicos e teóricos.
Abstrair uma forma com consciência é uma dádiva alcançada por poucos.
Simplificar pinceladas e tornar-se espontâneo não é algo apenas para quem
deseja, é algo que precisa ser conquistado.
É com muita felicidade que
saúdo o livro e seu autor. Perktold, que sempre foi um admirador e colecionador
de artes apurado, revela agora as experiências de suas observações, filtradas
pelo conhecimento que a Psicanálise lhe proporcionou. Ganha a Arte, ganhamos
nós, ganha principalmente a humanidade.
INIMÁ DE PAULA - Retrato de Carlos Perktold
Óleo sobre tela

