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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

VENTO SUL - Abrão Lacerda



É com imenso prazer que faço o anúncio desse lançamento extraordinário da literatura brasileira. Conhecendo pessoalmente o artista, já antevia que seria mesmo uma obra daquelas que irá entrar para a história. Estou certo que será!
 Não apenas por ter sido muito bem escrita, mas principalmente por ser o início de uma carreira que ainda dará muito orgulho ao cenário literário brasileiro. Texto enxuto, direto, com um diálogo fácil com todos aqueles que emprestam um pouco de tempo para sua leitura. Abrão Lacerda é um dos nomes mais promissores para todos aqueles que apreciam uma boa obra literária. O trabalho contou com ilustrações do artista plástico Romeu Célio.
Além do livro, deixo a sugestão para que todos vocês visitem e adicionem o blog do escritor aos seus favoritos. Leitura essencial para esses nossos tempos.

Deixo abaixo, a apresentação do livro, feita pelo próprio escritor: 

VENTO SUL - A Infância das Histórias

Muitas histórias nascem na infância ou nela se inspiram, pois nada se assemelha mais ao ato de contar histórias do que a imaginação infantil. Tornar possível o impossível, inventar, subverter, mesclar, e assim ocupar a mente e sua fábrica de ideias em algo útil, pois sabe-se que mente ociosa é oficina do diabo.
Vento Sul, meu primeiro livro impresso, traz histórias inspiradas em minha infância, passada entre uma fazenda e uma vila no extremo-sul da Bahia.  Um mundo basicamente pequeno, onde as relações mais constantes envolviam a família numerosa, os empregados e os agregados da fazenda, e sua extensão, a vila, lugar de ir à escola, aprender jogos e entender o mundo. Algumas histórias apresentam o ponto de vista do menino, com a emoção e o frescor das primeiras experiências, outras têm a marca do adulto irônico, que olha para o passado para parodiá-lo.
São contos, talvez crônicas, um pouco de fábulas. Tentativas de recriar um gênero, pois escrever é contar, recontar, recriar. Um trabalho que passará agora pelo crivo do leitor, aquele que tem o dom da lembrança e do esquecimento.
As histórias são intencionalmente curtas, para serem lidas em dez, quinze ou vinte minutos, de uma só vez. Têm um ritmo particular, que identifico como traços do meu estilo, são fluidas e objetivas. Criadas pelo prazer da escrita para o prazer da leitura.
Publicado em edição do autor através da Editora Scortecci de São Paulo, Vento Sul conta com ilustrações do artista plástico Romeu Célio, de Timóteo, Minas Gerais. Romeu foi um importante parceiro neste projeto e contribuiu com suas estampas para o visual dinâmico e bonito do livro. Uma apresentação gráfica agradável ao olhar e ao manuseio foi uma das preocupações desta edição.
Vento Sul pode ser adquirido diretamente com o autor através do e-mail abraolacerda@yahoo.com.br ou no blog abraolacerda.blogspot.com.br e também junto às Livrarias Asabeça (www.asabeca.com.br/lista_produtos.php?nprod=vento+sul&kb=471&sid=26122012082427) e Cultura (www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=30741780&sid=181166246141226519862962932).

ROMEU CÉLIO - Ilustração para Conto do Sal e da Fervura

ROMEU CÉLIO - Ilustração para O Centauro

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

COTIDIANO

Inaugurando o seu primeiro conto no
blog, José Geraldo de Araújo Castro.
Aliás, o primeiro conto do blog.
Um texto denso, com melancolia na pitada certa.
A rotina e as suas armadilhas...


ALBERTO VASQUEZ - Recapitulação - Óleo sobre linho

COTIDIANO

A porta do prédio fecha e o rapaz sai para o trabalho. Lá, no escritório, enfrenta sua jornada diária, colabora com profissionalismo, e muita dedicação, a desenvolver a empresa. No fim do corredor, à direita, em seu gabinete, o patrão, sentado em sua prepotente cadeira, avalia, sobre a mesa, relatórios guiados pela sua extrema soberba, ostentando seu inegável poder, esbanjando vaidade e ignorando o esforço de quem o ajuda a enriquecer e crescer. Fim de serviço, volta para casa.
Chega ao prédio onde mora, atravessa a portaria, cumprimenta o velho porteiro, que, atrás do balcão, sentado, numa antiga poltrona, relê um jornal, para espantar o tédio. Chama o elevador, sobe. Para no oitavo andar. Apanha a chave no bolso, procura a fechadura, abre a porta e entra. Atravessa a sala, onde fica o sofá de tecido bege estampado, com um óleo muito bem pintado, atrás, na parede. Moldura bonita, quadro de artista competente. No meio, um tapete marrom, com a tv à frente. A direita, um aparelho de som, com seus inúmeros cds na prateleira. Deixa o quarto, vai a cozinha, toma água, abre a geladeira, pega uma maçã e come. Volta ao quarto, tira o velho tênis surrado, a calça jeans desbotada e a camiseta estampada, veste uma bermuda velha, volta a sala e abre a janela. Debruça e contempla a paisagem.
Lá embaixo a avenida pulsa vida e movimento. O ônibus passa seguindo seu itinerário costumeiro. O sinal fecha. O Carro para. Um garoto aproxima. Traz, nas mãos, uma caixa de balas sortidas e oferece ao motorista que, indiferente, levanta o vidro. A moto, do outro lado da avenida arranca corajosamente numa velocidade perigosa, buscando conquistar uma corrida sem troféu.
À frente do prédio, o pipoqueiro prepara o estoque, para a seção das oito, do cinema que fica ao fundo. O menino que vem da escola para diante do carrinho, abre a mochila, consulta a carteira, vê que deixou suas reservas no lanche da escola. Guarda a carteira, fecha a mochila e segue caminho imaginando devorar, em casa, a primeira guloseima que encontrar. Ao lado, o engraxate, com sua cadeira nova, aguarda, ansiosamente, os fregueses, entre infindáveis pés de tênis, que passam. O pedinte, com seu cabelo grudado, camisa suja, paletó puído e calça rota, pés descalços, imundos, estende a mão ao passante, buscando algum recurso para espantar a fome daquele fantasma permanente.   O velho alquebrado pelos anos, passa, sustentando em sua bengala, o peso da idade, cumprindo sua tarefa, sem vislumbrar futuro no seu horizonte incerto. Na loja do Turco, que fica na esquina, cheia de artigo popular, um jovem rapaz, com microfone na mão, caixa de som ao lado, perto da porta, voz esganiçada, anuncia a última promoção do dia.  Tentando atrair o consumidor, vai dizendo: “toda loja em promoção. Vamos entrar minha gente, vamos levar. Moça bonita não paga, mas também não leva". A madre superiora, com seu inconfundível hábito, de braços dados com uma freira, atravessa aquela  densa cortina humana, seguindo sua missão, certamente, gente de alguma fé e pouca convicção. Do lado esquerdo do cinema, em frente ao prédio da livraria, sobre um caixote, prega um pastor com seu terno escuro, camisa azul, gravata preta, sapato enfeitado com fivela cromada. Olhos esbugalhados, braço estendido, dedo em riste: prega o fim do mundo no futuro, para aquela turba apressada, preocupada só com o presente. O jovem empresário, com seu terno preto, camisa branca, gravata azul, listrada de preto, sapato social, bem barbeado, cabelo brilhando a gel, carrega sua pasta de legítimo couro, onde carrega relatórios e papéis de negócios, caneta e calculadora. Caminha altivo, somando e multiplicando mentalmente os lucros que ainda não obteve com seus negócios futuros. A moça bonita, rosto de modelo, corpo de miss, andar de mulher, desperta no homem maduro, encostado ao muro, desejos inconcebíveis de sua desgovernada imaginação.
À frente, no prédio ao lado, sob a luz do neon, a propaganda de uma garrafa de coca-cola esvazia-se num belo copo, despertando a imaginação de uma sede que não sacia. Na avenida, o frenesi de uma multidão à procura de seu destino, continua. Vem e vai.
Aqui, no oitavo andar, a brisa noturna sopra suave, as luzes da avenida intensificam seu brilho realçado pela escuridão da noite.
Lá embaixo, a frenética multidão cansada. Vai e vem.
De cima, ele sozinho, compartilha. Fecha a janela.

José Geraldo de Araújo Castro - Novembro de 2011