sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A ARTE E SEUS CAMINHOS

 
André Catelli (esquerda) e Freddy Monteiro Ovando (entre dois moradores de Bafatá, à direita).
Personagens de duas histórias completamente diferentes, mas que tem como fio condutor a arte.

Todos temos dificuldades em escrever porque não conhecemos suficientemente o mundo e nem a nós mesmos. Quando percebemos melhor onde estamos e quem somos, escrever é como contar um caso. Para tanto, não é preciso selecionar palavras, basta não selecionar sentimentos. Deixar a emoção como o leme e que o texto se faça. Sincero, acima de tudo! Comecei assim essa matéria para falar de dois artistas, André Catelli e Freddy Monteiro, anônimos para quase todos nós, mas que aprenderam bem cedo a não selecionar sentimentos e a compor os seus primeiros quadros como quem descobre a narrativa simples de um caso: com o que sentem, o que sabem e o que veem do mundo.
Sempre recebo e-mails de várias pessoas, ora pedindo alguma opinião sobre o trabalho que executam, ora socializando comigo o universo libertador que a arte as proporciona. Algumas, estudantes e conhecedoras de uma boa bagagem acadêmica, que já descobriram suas propostas e já trilham caminhos seguros; outras, autodidatas no ramo, que se entregam à arte pelo puro prazer de produzir algo ou porque descobriram nisso a energia que liberta e gera vida.
Apresento dois desses personagens. Ainda anônimos, com histórico de vida bem diferente, mas que a arte soprou neles o anseio de novos mundos. Autodidatas, mas com aquilo que é mais essencial a todos que se propõem entrar para esse caminho: sensibilidade. Percebem o mundo à sua volta e querem que outros vejam isso, ou criam mundos paralelos e ampliam seus horizontes. Dentro de seus mundos, mostram que é possível colaborar para que a arte seja sempre a expressão que nos torna seres diferenciados no reino animal.

ANDRÉ CATELLI
Primeiramente, recebi de André Catelli uma imagem sobre um de seus trabalhos, que é inclusive a imagem principal para a narrativa de sua matéria: JÚLIA ROMANA. Esse trabalho foi realizado à partir de um estudo feito tendo como modelo a sua filha Júlia. Criou para ela um ambiente clássico, inspirado nas construções romanas. Isso é facilmente explicado pela sua profissão: arquiteto. Uma forma de aliar aquilo que é o seu sustento como profissão e a arte que encontrou como importante hobbie.

ANDRÉ CATELLI - Júlia romana
Acrílica sobre tela - 80 x 40

Catelli nasceu em Caxias do Sul/RS, em 1970 e atualmente mora em Brasília, para onde foi em 1983. O gosto pela arte foi herdado do pai, que sempre teve muitos livros de arte em sua coleção. Assim, lendo sobre vários artistas enquanto crescia, Catelli motivou-se para pintar os primeiros trabalhos aos 14 anos. Inspirava em Rubens, Turner, Constable, Corot, Daubigny, além de pré-rafaelitas e simbolistas como Böcklin e Moreau. Segue em sua lista, muitas horas de leitura em cima de outros nomes famosos como Cabanel, Bouguereau e Church. Um gosto bem eclético, como também é eclético seu repertório artístico. Nos momentos de folga, também se entrega ao estudo da música clássica, com ênfase para o piano e a composição. O curso de Arquitetura, iniciado em Brasília em 1990, o levou para o Oriente Médio, onde executou vários trabalhos de arte, em paralelo com o que aprendia para sua principal profissão. Obra como Cena de vida em Muckawir, por exemplo, foi inclusive comprada pelo Ministério do Turismo da Jordânia.

Etapas da obra Júlia Romana.

Atualmente, seu escritório é um dos mais bem sucedidos de Brasília e o  gosto pela arte continua mais intenso do que nunca. Artista de horas vagas, mas que não perde o encanto por aquilo que o permite seguir de uma forma melhor.


FREDDY MONTEIRO OVANDO
O segundo artista mencionado nessa matéria tem uma trajetória interessante e uma história comovente. Diria que uma lição, para muitos que acreditam que a arte se restringe apenas a um banco de escola e holofotes. Freddy Monteiro faz arte porque gosta, porque é assim que se expressa e é assim que quer mostrar aos outros o mundo que aprendeu a ver.


Em cima e embaixo: moradores de Bafatá.

Atualmente morando em Bafatá, um pequeno povoado no interior da Guiné-Bissau, tivemos dificuldades até para concluir as trocas de informações. Fui procurado inicialmente por ele, para me mostrar animado e orgulhoso, as cenas que pintava de seu povoado. Falou primeiramente da opção de ir para aquele distante país africano com esposa e dois filhos num trabalho missionário e humanitário. Não podíamos deixar de comentar sobre a ameaça do Ebola, essa que é mais uma das grandes tragédias pela qual vem passando o povo africano, especialmente de países como Serra Leoa e Libéria. Felizmente, a doença ainda não havia chegado ao seu povoado, mas a ameaça é uma constância que os mantém sempre em alerta.


Trabalhadores de Bafatá.

A pintura é uma das atividades mais gratificantes em seus momentos de folga, pois é através dela que tem a oportunidade de mostrar aquilo que vê, de uma maneira singela, mas com muita expressão. Não há em seus trabalhos os rigores da técnica e acredito que seriam completamente desnecessários para isso. Sua arte tem a ver com o que foi dito no início dessa matéria, expressa sobre o mundo como quem conta um caso, com simplicidade, mas com muito orgulho. Cada ida sua à aldeia é um desafio novo. Retratar o povo simples, alegre e receptivo com que aprendeu a conviver se tornou um prazer a cada oportunidade. Fez questão de frisar da gratidão com que cada um sente quando chega o fim do dia, alimentados de esperança para o novo dia que virá.
Freddy nos manda imagens de seus filhos e do povo com o qual convive como se fossem um só. Ele próprio enviou a sua foto entre dois moradores da aldeia. Fala dos sonhos que a arte lhe sonda e da vontade de querer mostrar o que vem produzindo em uma exposição, quando regressar ao Brasil.

FREDDY MONTEIRO OVANDO - Os filhos do artista
Óleo sobre tela


Dois exemplos de que a arte é essa coisa mágica que nos abraça, pelos que se encantam por ela e nunca a deixarão morrer. Muitos sentem dificuldade em se manifestar pela escrita pela falta de conhecimentos do mundo e de si, e acredito que seja assim também para as artes plásticas. A falta de um melhor conhecimento do mundo a nossa volta e de nós mesmos talvez seja o único empecilho para muitos outros autodidatas por todo o mundo.