JOSÉ ROSÁRIO - Passos largos do destino
Óleo sobre tela - 80 x 120 - 1999
(Num período de fase surrealista)
Que essas linhas suportem o
meu desabafo! Entalado, oculto, solidário a muitos outros gritos mudos por aí.
É que às vezes, ver e ouvir faz transbordar a cota do sentir. E não tem sido
fácil nos últimos dias...
Há pelo mundo uma maldade
que não dorme e uma ganância que não se sacia. O valor à vida se perdeu em
enxurradas, em tiroteios, em manobras políticas, em estratégias de marketing...
Os homens fazendo do nada o esteio mais forte e, cada vez mais, crentes que estão
no caminho correto.
E não há onde se esconder! Hoje,
a cidade que moro, de apenas 9 mil habitantes, teve sua agência bancária
explodida pela segunda vez. Os lugares que pareciam paz e sossego tornaram-se o
alvo perfeito. É que aqui, a maldade ainda engatinhava. Mas, dizem que agora as
coisas estão globalizadas. E será que existe algo mais global que a maldade?
A tragédia ambiental com o
Rio Doce nos mostra que a maldade e a ganância estavam sempre ali,
sorrateiras. No período de maior crise hídrica do país, bilhões de metros
cúbicos de água doce são usados para lavar minério, acumulados em gigantescos
reservatórios de lama, enquanto a vida em volta míngua e padece. E o que dizer
da fauna e flora? As vítimas mais inocentes de toda essa tragédia. Cidades onde
a fartura de água era o orgulho, agora são abastecidas com carros-pipas. Há
coerência nisso? Então me explique qual é, pois acho que já não sei mais o
sentido dessa palavra.
No Quênia, Síria, Nigéria,
França, vidas são tiradas sem o mínimo de ressentimento. E o que é pior, em
nome de Deus.
Sobreviver, de todas as
formas, virou algo imperativo. Liberdade não é mais uma questão de desejo, mas
de oportunidade. Podemos até querer ser livres, mas há tanto poder que decide
isso antes de nós...
As pessoas de bem vão
ficando encurraladas. Há que se ter mente firme e propósitos sólidos. Fé, acima
de tudo. Só para se ter uma ideia, a taxa de suicídio no Brasil aumentou em
mais de 40% nos últimos 5 anos.
É preciso ter esperança de
novos tempos. Arregaçar as mangas e “esperançar”, não apenas “esperar”, como já
salientou muito bem um filósofo. Construir um mundo melhor é árduo e a tarefa
não será fácil. Mas é a melhor herança que qualquer um de nós pode deixar.
Começa com gestos simples: fechar a torneira, dizer bom dia, sorrir e estender
a mão sem segundas intenções. Antes de tudo, guarde o seu coração, vai precisar
dele para tempos ainda mais severos.
Dentro de cada um de nós há um bem que anda
precisando de exercício!
