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sábado, 12 de maio de 2018

O NASCER DE UMA IDEIA


KENNETH SOTHWORTH DAVIES - Tinteiro - Óleo sobre tela - 30,5 x 36,8 - 2004

O título é pretencioso e é assim de propósito. Na verdade, todas as ideias já “são”, estão lá apenas à espera de alguém que as traga para o mundo das consciências. Ninguém cria nada. Toda palavra já existe, toda frase preexiste no mundo das ideias. Quando concebemos e escrevemos um pensamento, estamos apenas nos colocando à disposição de uma consciência muito maior que a nossa, onde tudo já é.
Com esse texto foi assim, escrito mentalmente enquanto fazia a omelete com tapioca da manhã. Era preciso organizar as inúmeras palavras e frases que me visitaram no meio da noite, originadas numa consciência bem superior, pedindo licença para nascerem no mundo das consciências normais e cotidianas.

HENRIK NORDENBERG - O estúdio do artista
Óleo sobre tela - 56 x 39,5 - 1891

Tudo que nasce tem uma intenção de ser, até mesmo esse texto. Ele não viria à tona se não fosse para despertar algo. Seja apenas na mente de quem se dispôs a escrevê-lo, seja nas muitas possíveis mentes que venham ter acesso à sua leitura. Em quem o trouxe para o mundo das consciências normais, ele já fez mudanças. Experimento um grau maior de lucidez quando entendo e sinto tudo isso que vai surgindo a cada frase escrita. A mesma lucidez fica acessível a todos aqueles que sintonizarem e sentirem todo o teor dessa informação.
O acesso a tais informações, esses insights de lucidez, são respostas oferecidas a quem se coloca despido no campo das dúvidas. São elas, as dúvidas, o combustível para desejar evoluir na caminhada. Uma dúvida sem resposta é como uma gestação sem parto. Já o entendimento, o esclarecimento ao que era procura e escuridão, jaz como uma luz resplandecente, que ilumina o caminho de quem a acessou inicialmente e irradia para o caminho de todos os outros que se deixarem iluminar por ela. É assim que uma ideia nasce da consciência maior e habita o mundo das consciências normais cotidianas.

GEROLAMO INDUNO - A leitura - Óleo sobre tela - 70 x 87 - 1865

Dividir conhecimento é como repartir o pão. Quem alimenta a alma, nutre a vida eterna. Uma vez alimentados da luz de uma informação superior, ficamos fortes na alma, elevamos a nossa consciência e experimentamos uma parcela a mais do divino. Que a nossa fome de conhecimento nunca seja saciada! Que nossas dúvidas e disponibilidades de aprender nos levem a caminhos inimagináveis e que, todos nós, tenhamos o prazer e a paz de compartilhar do grande banquete que a todos espera.

RUDOLPH ERNST - Um mestre pensativo
Lápis e aquarela sobre papel - 57,8 x 41,3

sexta-feira, 7 de julho de 2017

COMEMORAÇÃO E AGRADECIMENTO

Em algum canto do ateliê, onde nascem todas as matérias.

Recentemente, o blog ultrapassou 2 milhões de visitas. Uma conquista considerável, em se tratando de uma página autônoma, sem patrocínios e que atua na área cultural. Uma conquista de todos! Minha, que vejo meu trabalho sendo compartilhado e usufruído por muitos; do público que por aqui passa, que acaba se inteirando de novos assuntos e conhecendo novos artistas; e da arte de uma forma geral, que ganha novos seguidores e artistas também.
Ainda me recordo saudosamente da primeira matéria, em outubro de 2010, quando tudo se iniciou. De uma maneira bem discreta e modesta, a página foi ganhando corpo, os assuntos fluindo com mais naturalidade e o objetivo maior disso tudo sendo alcançado: conectar artistas e não-artistas em torno de um mesmo ponto, a arte.
Fazer o blog, resgatou em mim a disciplina da pesquisa, da interação e do gosto divertido pela história da arte. Intencionalmente, sinto que uno artistas, converso e interajo com eles, promovo, nem que por uma fração milésima, com a divulgação daquilo que tem sido o norte de toda minha vida, a arte. É um trajeto sem nenhum esforço, tudo foi feito com o maior prazer. Nada me completa mais do que tirar algumas horas de toda semana para escrever e publicar algo. Que satisfação imensa em conversar com novos artistas! Muitos deles foram e são minhas referências. Satisfação também em poder mostrar sobre os trabalhos de velhos mestres, que tanto me inspiraram nessa minha escolha.



Há momentos inesquecíveis! Alguns deles são motivadores e me permitem não desistir da caminhada. Poderia citar inúmeras belas situações propiciadas pelo blog, mas serei breve com algumas pequenas lembranças:
Alguns amigos que fui fazendo ao logo dessa caminhada sempre me encorajaram. Certa vez, recebi uma ligação do João Bosco Campos (saudoso João Bosco), dizendo que seu computador já abria em minha página, e que seus domingos eram cercados de expectativa para saber sobre que novo artista ou novo tema eu traria. Foi também graças ao blog, que recebia emocionado várias ligações de Gilberto Geraldo, bem no meio da noite, ainda quando ele estava em São Petersburgo. Era muito motivador saber que minhas linhas eram lidas tão longe. Também pelo blog, tive contato com os artistas que foram minhas primeiras referências, Wilson Vicente, Cláudio Vinícius e Túlio Dias. Por eles, estendeu uma lista de vários mineiros que aprendi a admirar tanto. Luiz Pinto, que tirava sempre um momento para ligar de vez em quando. Jésus Ramos, Hilton Costa, Rui de Paula, Jorge Maciel, Alfredo Vieira, Helvécio Morais, Kolley Nardi e Atacir Costa vieram em sequencia. O blog também foi o local de avivar os laços de amizade com os amigos artistas que conheço mais pessoalmente: José Ricardo, Rogério Ramos, Tereza Guedes, Isaque Alves, Fabiano Rocha, Bruno Valentim, Fátima Santos, Izabel Paris, Paulo de Fariah, Ícaro Reis, Fernando Lod, Du Ramos, Marcos Anthony, Afonso Marcelino, Romeu Célio, Dodô, Vyrus, Ângela Ataíde e o também saudoso Marcelino Ribeiro. Novas gerações que chegam também passaram por aqui. Marcelo Coelho, Agnaldo Silva, Reginaldo Modesto, Reginaldo Sousa, Jonas Matos... Amigos distantes foram ficando cativos por aqui. Os artistas paulistas chegaram quase que todos de uma só vez: Alexandre Reider, Gonzalo Cárcamo, Ernandes Silva, Vinícius Silva, Morgilli, Douglas Okada, Rodrigo Zaniboni, Jesser Valzacchi, Clodoaldo Martins, Paulo Tosta, Boner, Carmelo Gentil, Rogério Contreras, Washington Maguetas, Osmar Dallabona, Eduardo Borges, Marcelo Borges, Evandro Schiavone, Quimas Silveira, Gianni Faria, Marcos Sabbadin, Sílvia Lúcia, Reinaldo Mendes, JB Oliveira, Álvaro Jara, Reinaldo Jeron, João Ovídio Caravita, Marcus Cláudio, Leonardo Clímaco, Matheus Cruz (in memorian)... Há ainda os mais distantes: Juliana Limeira, Adalcino Tavares, Vasco Machado, Sérgio Helle, Vilma Nöel, Márcio Andrade, Walmir Teixeira, Gilson Ferreira, Ari Vicentini, Bezerra da Cruz, Paulo de Carvalho, Sansão Pereira (In memorian), Marciano Schmitz, Valdonês Ribeiro, Arimatéia, Natan Heber, Luiz Vilela... Há estrangeiros que são quase de casa, como o português Antonio Delfim e o americano Adair Payne, e não poderiam ficar de fora dessa lembrança. Alguns foram ficando pelo caminho, outros são adicionados dia após dia.



Há ainda os não-artistas, marchands e admiradores que tanto impulso me dão e me deram: Waiderson Liberato, Célio de Souza, Laércio Maciel, William Araújo Jacques, Rafael Pertusier, José Amarilio, Macário Campos, Sallim Habib, Darcy Gasparetto, Wanderly Oliveira, Cristina Vasconcelos, Abrão Lacerda, José Maria Honorato, Francisco Damico, Nil Roque, Carlos Barbosa, Carlos Sérgio Oliveira, Antonio Neto, Frei Thiago (In memorian), Edmundo Machado, Tair Laluce, Samuel Cherubin... Como esquecer da visita constante e tantas palavras de incentivo de Raimundo Vidal e Yure Nicolau?... Evidentemente que esta lista é longa e muitas citações seriam necessárias. Todos sabem a importância que sempre tiveram em minha escolha pela divulgação da arte.
Há também que ressaltar a importância de grandes nomes do passado. Todos eles têm um lugar especial em minha vida, mas quero ressaltar pelo menos um deles: Peder Mork Monsted. Como aprendi a admirar esse artista! Há cerca de dois anos, criei uma página sobre ele no Facebook, que já consta com mais de 11 mil seguidores. É o mínimo que posso fazer para divulgar um conjunto de obras tão rico e tão vasto.
A arte é esse palco fantástico. Infindável e sempre aberto a renovações. E o blog, o espaço para expressá-la em todas as suas possibilidades. Estarei por aqui até que o tempo permita, divulgando e caminhando com ela. O número de visitações é apenas um detalhe, o mais importante é que a página continue trazendo sempre algo novo a todos nós. Que continue a ser o nosso ponto de encontro por muitos e muitos anos! Obrigado pela companhia!



domingo, 14 de maio de 2017

A POESIA QUE VEM DO INFINITO

VINCENT VAN GOGH - Noite estrelada
Óleo sobre tela - 73,7 x 92,1 - 1889 - Museu de Arte Moderna, Nova York

Uma das recordações da infância que não me sai da cabeça é, nas noites de verão, deitar num gramado que havia lateral à antiga casa, e ficar observando as estrelas. O brilho delas ainda não tinha a concorrência ferrenha das luzes da cidade e vez ou outra, vaga-lumes davam a ideia de que as mesmas haviam vindo dançar na terra. O olhar curioso do que o adolescente via, acabou encontrando muitas respostas nos livros que eu lia. Descobrir, por exemplo, porque as estrelas parecem se agrupar numa longa faixa que atravessava todo o céu visível e saber que isso era nada mais que o perfil de nossa galáxia. Como ela tem a forma espiral achatada, foi fantástico entender o que os antigos denominavam como Via-láctea, ou um longo caminho de estrelas, que nas noites mais limpas, lembram mesmo um caminho de leite. Ficava também à espera de que algo riscasse o céu, seja uma estrela cadente ou algo parecido. Mas, nada mais marcante foi entender que quando olhamos para o céu, olhamos para o passado. Olhar para as estrelas talvez seja a única atividade que une o presente e o passado. Na fala poética de um amigo meu, “as estrelas são mentiras de luz”. É que muitas estrelas estão a bilhões e bilhões de quilômetros e algumas até já se extinguiram, mas a sua luz ainda continua viajando pelo espaço, até que cesse o seu encontro conosco, porque a luz é a única matéria que não se perde com o tempo. Isso deu um nó na cabeça dos homens mais estudiosos que já existiram sobre a face da terra e continua a alimentar a dúvida de tantos outros curiosos ainda hoje.

JEAN-BAPTISTE-CAMILLE COROT - A estrela da noite - Óleo sobre tela - 76,5 x 97

NOAH FLORES - Luar do passado - Óleo sobre tela - 20 x 16 pol - 2010

Quer sejamos religiosos ou não, nos momentos de maior introspecção, é para os céus que erguemos os olhos. E é lá que procuramos encontrar todas nossas respostas. Entendendo um pouco da imensa vastidão do espaço, passamos a compreender a imensa vastidão que há em nós, porque tudo que existe é infinito, em todas as direções. Já falei sobre esse tema na matéria A DANÇA DAS ESFERAS. Quando se entende e aceita isso, as dúvidas se tornam desnecessárias. Não há necessidade de sondar o infinito, ele nunca mostrará suas fronteiras. Muitos, antes de mim, já lançaram seu olhar contemplativo para o universo. Para aguçar suas dúvidas ou apenas para se deleitar com a beleza incomparável de uma noite estrelada ou de um belo entardecer. É sobre alguns desses, que venho falar nessa matéria, quer sejam cientistas que nos trouxeram a luz para novos olhares, ou artistas que emprestaram seu gênio imaginativo e poético. Que possamos aprender e sentir um pouco do que eles nos ensinaram e sentiram.

FELIX PARRA
Galileu demonstrando novas teorias astronômicas na Universidade de Pádua
Óleo sobre tela - 1873

JOHANNES WEERMEER - O astrônomo - Óleo sobre tela - 50 x 45 - 1668

Principalmente durante e depois do Renascimento, a ciência se mostrou como uma forte opositora aos ensinamentos puramente religiosos, não que apenas quisesse ser uma adversária, mas porque muitas das experiências que se mostravam evidentes à partir da observação de vários estudiosos, lançaram por terra muitos dogmas e trouxeram novas explicações para o mundo visível e palpável. E nada mais respeitado naqueles tempos, e ao mesmo tempo criticado e perseguido, do que o astrônomo. Aquele ser enigmático, que mirava o céu com suas lunetas e telescópios e achava explicações para o que as mentes comuns ainda não entendiam, é o símbolo do momento revolucionário que começou no Renascimento e foi até a Revolução Industrial. Foram muitos os astrônomos que contribuíram com suas parcelas de saber ao que hoje conhecemos sobre o universo que nos cerca. Também foram muitos os artistas que se encantaram com toda essa narrativa e as eternizaram em suas obras. Essa fascinante viagem da observação do infinito começou com Eratóstenes, mais de 200 anos antes de Cristo, quando o mesmo conseguiu afirmar e provar que a Terra erra redonda e não plana. Mas, foi somente à partir dos anos 1400, que as coisas começaram mesmo a esquentar nessa área. Nicolau Copérnico, o pai da astronomia moderna, quem teve a ousadia de afirmar e provar que a Terra girava em torno do Sol. Pela audácia de tirar o homem do centro do universo, ele foi considerado um herege e excomungado pela Igreja. Astrônomos como Kepler, foram de fundamental importância na continuação de estudos anteriores a ele. Foi ele quem descobriu que os planetas giram em torno do Sol em elipses e não círculos. Seus cálculos foram tão precisos, que mesmo até hoje são empregados seus métodos no estudo do sistema solar. Galileu talvez seja uma das figuras mais carismáticas entre eles. Foi ele quem aperfeiçoou os telescópios existentes e permitiu olhar mais longe, onde os olhares ainda não haviam alcançado. Descobridor dos satélites de Júpiter e dos anéis de Saturno, também foi mantido em prisão domiciliar, ao final de sua vida, por defender as ideias de Kepler.
Quando a observação visível já não era mais suficiente para explicar as maravilhas do universo, eis que surgem outros estudiosos, os físicos. Usando a matemática como a ferramenta principal de suas teorias, gênios como Newton, Huygens, Einstein, Hubble e mais atualmente, Hawking, trouxeram inúmeras contribuições para a ciência atual e continuam desafiando os estudiosos desses tempos com suas propostas e leis, muitas delas ainda não comprovadas.

IGNAZ RAFFALT - Por de sol - Óleo sobre painel - 42 x 52,5

ROBERT JAMES RACUNDA - Raccoon saloon noturne - Óleo sobre tela - 48 x 60 pol

Sinto tentado em explicar somente um pouquinho, a beleza de perceber o tamanho de nossa pequenez. A luz tem a velocidade de 300 mil metros por segundo. Isso é de fundamental importância no campo da astronomia, porque os espaços são tão grandes, que é impossível medir as distâncias em quilômetros ou metros. O Sol, por exemplo, está a 150 milhões de quilômetros da Terra. É uma distância que não conseguimos conceber, um espaço gigantesco. Mas, quando dizemos que ele está a apenas 8 minutos/luz de nosso planeta, começamos a entender o quanto a luz e sua velocidade se tornam fundamentais para entender essa imensa vastidão do universo. Explicando isso melhor, caso o Sol fosse aceso nesse instante, sua luz demoraria 8 minutos para atingir nosso planeta. Por isso também, quando olhamos para o Sol, olhamos 8 minutos atrasados para sua existência. Agora, imagine 1 hora/luz, o quanto longe isso significaria... Não conseguiu imaginar não é? 1 dia/luz ficaria ainda mais impossível, assim como 1 mês/luz... 1 ano/luz... Inimaginável mesmo é saber que muitas estrelas e galáxias estão a milhões, bilhões de anos/luz de nós. Olhando para elas estamos literalmente observando o passado, pois muitas delas já até extinguiram, mas sua luz ainda continua caminhando pelo espaço. O desafio da ciência moderna é provar que é possível observar a luz que deu origem ao universo, na primeira grande explosão, que intitulam big bang. Mas, isso é especulação e combustível para outras matérias.

MAURITZ FREDERICK HENDRICK DE HAAS - Por de sol na costa da Nova Inglaterra
Óleo sobre tela - 102 x 170,5

O universo infinito continua a nos extasiar com suas belezas. Se tirarmos um tempo para observá-lo, estará sempre lá, com seus mistérios e desafios. Seja numa noite estrelada, ou no final de uma tarde. Um dia desses, a energia elétrica faltou em minha cidade. Era uma noite estrelada e me senti tentado mais uma vez, a fazer aquilo que fazia na infância. Não tenho mais o gramado lateral a minha casa, mas me vi ali, mais uma vez observando as mesmas estrelas de tantos anos antes. Uma estrela cadente cortou o céu e me senti na sua velocidade. Depois de muitos anos, também pude observar aquilo que já nem me lembrava mais, vaga-lumes. Por um breve momento, as estrelas novamente dançavam próximas a mim.

TOM BROWN - A lua e as estrelas - Óleo sobre tela - 8 x 10 pol


PARA SABER MAIS:


sábado, 9 de julho de 2016

A DANÇA DAS ESFERAS

JOSÉ ROSÁRIO - A dança das esferas - Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2008 - Coleção particular

Sigo o curso das estrelas?
Eu me proponho a ordem dos mundos ou abraço ao caos?

Por um instante, saio da minha restrita pequenez e me permito passear pelo universo. De início, a lucidez do infinito me assusta. Aqui e ali, galáxias se expandem e seguem seus cursos. Serenas! Diante dos meus olhos, um turbilhão de energia que se organiza constantemente. Não há rebeldia, nenhum corpo celeste vai em direção contrária aos seus propósitos. Gravidade atrai e repele, com a precisão cirúrgica que miseravelmente não sabemos conceber. Dentro de cada estrela, uma pequena fração da misteriosa energia que gera a vida.
Mas, o universo é superlativo demais. Em uma proporção infinitamente menor, volto ao meu planeta. A mesma ordem se revela aos meus olhos. Minerais se organizam e edificam todas as estruturas, numa sinfonia que até então me era estranha. No compasso das estações, tudo se recolhe ou desabrocha. A água tem o seu ciclo e está novamente em tudo que é vivo, como a misteriosa energia das estrelas. Um reino servindo ao outro, numa cadeia de sobrevivência sob o respeito de uma batuta invisível. Novamente, a ordem natural das coisas se estabelece sob meus olhos. E me encontro em mim.
Em meu corpo, o infinito se manifesta na mesma ordem. Minerais se agrupam em células e moléculas, e lá estão todos os fluidos, órgãos e membros. Não há rebeldia! Cada célula desempenhando o seu papel, nascendo e morrendo dentro de mim. No infinito maior ou no infinito menor, percebo, nem que por um instante, a maravilhosa dança das esferas. A isso, chamamos de imanência. A força maior no mundo e em mim. Silencio! A paz me estende as mãos e eu me permito bailar com ela.

JACQUES-LOUIS DAVID - A morte de Sócrates
Óleo sobre tela - 129,5 x 196,2 - 1787 - Museu Metropolitano de Nova York
Ao ter sua morte decretada como punição por influenciar aos seus
seguidores, Sócrates percebeu que era a verdadeira vida que estava sendo
oferecida. Morria seu corpo. Nascia ali, mais do que nunca, as suas ideias.

A ignorância gosta de lançar suas âncoras no mar da comodidade. É no canteiro da dúvida que brota viçosa toda sabedoria. Despertar é romper a casca da inconsciência! Nunca ter medo das perguntas, nem tão pouco das respostas. E a pergunta maior se fez: o que está por trás de toda ordem cósmica, a mesma que rege as galáxias e até a minha menor partícula? Quer você queira ou não, essa ordem cósmica existe, desde o sempre até o eterno, bagunçando a cabeça de físicos ou simplesmente curiosos. Dentro de sua crença, ou à luz de suas especulações, chame-a do que quiser: Deus, Lei Mística, força cósmica, energia universal... Simplesmente a aceite e jogue fora todos os conflitos que carrega. Você vai ver que seguir mais leve tem suas vantagens. Para o caminho ascendente, tudo que é supérfluo impede o caminhar.
Aceitar é um movimento de acolhida. A exemplo das galáxias ou mesmo da minha menor partícula, preciso apenas seguir meu curso. E seguir conforme ele, pede apenas que eu não vá no sentido contrário de sua ordem. Nós humanos somos os únicos seres que rebelam contra a ordem. Não a acolhemos como ela espera que o façamos. Todos os sofrimentos nascem daí. Fico imaginando que apenas esse planeta já seja mais que suficiente para nos suportar. Mesmo confinados aqui, ainda não percebemos os limites da nossa pequenez. A ganância nos faz destruir matas e extinguir rios, dizimar espécies e ferir ao próximo. Não aprendemos a ver no outro e em todas as coisas que nos cercam, os companheiros de viagem na breve existência da forma que ocupo hoje. Porque a vida é cíclica, todo o eu físico que sou hoje continuará por aí, agrupando em outras formas, seguindo o curso da ordem que não para, com ou sem a minha permissão. A eterna música da vida está no ar e o maestro invisível a oferece a todos nós. É nesse momento que nós, humanos, podemos fazer a diferença. Por uma série de atos, a minha caminhada pode ser maior do que apenas ser. Pensar no bem de tudo e de todos e dividir com os que virão o que melhor experimentei um dia. A isso chamamos de transcendência. Transcendência é a fração do desejo da ordem maior que habita em mim. Um sopro de Deus para os que creem ou a chama da ética para os que preferem assim. Muitos já se esforçaram para nos passar suas experiências: Jesus, Buda, Maomé, Confúcio... Até chegamos a ouvir suas falas, mas ainda não as colocamos em prática, no rigor de suas simplicidades. Continuamos como lamentáveis criaturas rebeldes, que fogem da ordem dos mundos e criam seus próprios conflitos.

Rompida a casca que antes me cegava, e desperto para uma consciência mais sincera, refaço as mesmas perguntas: Sigo o curso das estrelas? Eu me proponho a ordem dos mundos ou abraço ao caos?

JOSÉ ROSÁRIO - A dança das esferas 2 - Óleo sobre tela - 60 x 100 - 2008 - Acervo particular
Em 2008, fiz uma série de 8 telas, intitulada A Dança das Esferas.
Era a possibilidade de explorar uma arte metafísica, que durou cerca de 9 meses.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

VELHAS GAMELEIRAS

Fase de acabamento da tela "Velhas gameleiras".

Entre o centro da cidade de Dionísio e uma montanha chamada Morro do Tatu, começa uma extensa planície, cortada pelo Ribeirão Mumbaça. Um lugar de terras férteis, onde animais encontram um capim sempre verdinho e também um dos lugares que mais gosto de pintar e fotografar. Foi uma série de fotografias feitas por lá em 2014 e uma sessão de plein air, realizada lá em 2015, que me inspiraram a estar pintando a tela “Velhas gameleiras”.



JOSÉ ROSÁRIO - Velhas gameleiras - Óleo sobre painel - 20 x 30 - 2015
Esboço realizado em plein air.

Foto de referência de 2014.

Depois de outras voltas ao local e mais uma série de esboços e fotografias, comecei a trabalhar na grande tela, que mede 63 x 154 cm. O trabalho foi realizado entre fevereiro e março desse ano e foi enviado ao Salão de Belas Artes de Piracicaba, e foi com ele que recebi duas premiações por lá: Medalha de Ouro e Prêmio de Aquisição. O trabalho agora faz parte do acervo da Prefeitura Municipal de Piracicaba, em São Paulo.

Detalhe 1

Detalhe 2

JOSÉ ROSÁRIO - Velhas gameleiras - Óleo sobre tela - 63 x 154 - 2016


PALETA USADA NA EXECUÇÃO DA OBRA:

Branco de Titânio (Winsor & Newton)
Amarelo claro permanente (Corfix)
Amarelo ocre (corfix)
Amarelo indiano (Corfix)
Laranja (Corfix)
Terra de siena natural (Corfix)
Terra de siena queimada (Corfix)
Vermelho francês (Corfix)
Sombra natural (Corfix)
Marrom Van Dick (Corfix)
Azul cerúleo (Corfix)
Azul de cobalto (Corfix)
Alizarin crimson (Winsor & Newton)
Verde viridian (Lefranc)
Verde óxido de cromo (Corfix)
Violeta permanente (Corfix)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

ACHAMOS EM MINAS


Recentemente, recebi a visita do programa ACHAMOS EM MINAS, da Rede Record Minas, para a realização de uma matéria sobre meu trabalho. Muito atenciosa e prestativa, a jornalista Luciana Katahira passou uma parte de um dia aqui em Dionísio.
Entre um bate-papo no ateliê e várias saídas para captação de cenas externas, colhemos material que deu origem à matéria que foi ao ar no dia 5 de janeiro de 2016. O programa tem uma característica bem informal e descontraída, comum para todas as andanças feitas por Minas, e tem como principal objetivo, levar ao público o conhecimento de lugares, fatos e pessoas do estado. Foi uma honra muito grande receber o ACHAMOS EM MINAS em Dionísio.
Sou especialmente grato a Luciana Santiago, diretora da emissora, pela indicação da matéria e à repórter Luciana Katahira, pela atenção e paciência.

A matéria, você pode visualizar no link a seguir:




ALGUMAS IMAGENS EXIBIDAS NA REPORTAGEM:


JOSÉ ROSÁRIO - Sabará de Guinard - Acrílica sobre madeira - 15 x 20 - 1986
Meu primeiro trabalho.

JOSÉ ROSÁRIO - Paisagem na Localidade de Lage, Dionísio - Óleo sobre tela - 60 x 100 - 2015

JOSÉ ROSÁRIO - Proseando - Óleo sobre tela - 40 x 50 - 2014

JOSÉ ROSÁRIO - Tempo de colheita - Óleo sobre tela - 60 x 80 - 2015

JOSÉ ROSÁRIO - Ao trabalho - Óleo sobre tela - 50 x 80 - 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

ANDANÇAS

JOSÉ ROSÁRIO - Catu, antiga Vila de Santana - Óleo sobre tela - 30 x 50 - 2015


A ideia mais uma vez partiu do amigo baiano Naelson Almeida: Fazer uma caminhada ecológica nos arredores da cidade de Catu. E também mais uma vez me deram a honra de ser homenageado com o nome do trajeto. Com direito a mapa e tudo. Então, fizemos assim os planos: eu não só iria participar da caminhada ecológica desse dia 18, como também faria uma pequena exposição na cidade, no dia 20, e mais uma palestra e bate-papo com alunos de escolas da cidade e pessoas da comunidade, nos dias seguintes. A Secretaria de Cultura havia se envolvido e havia inclusive viabilizado minha ida e estadia. Tudo muito perfeito, as malas todas arrumadas, os quadros embalados e um acaso mudou os planos. Uma semana antes de minha ida, eu me intoxiquei com produtos de pintura. Para concluir alguns últimos trabalhos pendentes, usei solventes e secantes, dos quais já havia me afastado há anos, exatamente por causa de intoxicação. Minha ida não foi possível. Não pude estar presente no encontro com os amigos baianos, mas, os planos só foram adiados.





O encontro não se resume apenas a uma caminhada pelo mato, como pode parecer inicialmente. Há todo um preparativo, que é primeiramente o envolvimento em torno de uma causa. É uma caminhada ecológica com apelo cultural. Em momentos do percurso, há paradas para descanso e também momentos de ler e ouvir o que escrevem os escritores da cidade. Como se não  bastassem esses nobres ideais, há a oportunidade do encontro. Para mim, principalmente, seria o primeiro contato não-virtual com meus amigos da Bahia.




Andanças foi o nome escolhido para a exposição que aconteceria na cidade, no período que eu estivesse presente por lá. Uma mostra de 10 trabalhos em pequenos formatos, que havia preparado especialmente para a ocasião, onde levaria cenas de Minas, para o conhecimento dos amigos baianos, em Catu. A mostra também foi adiada, mas, isso é só uma questão de tempo. Ainda faremos nossa confraternização... Mando, por enquanto, algumas imagens de trabalhos que estariam na pequena mostra.

JOSÉ ROSÁRIO
Fim de tarde na Rua Joaquim Garcia, Dionísio
Óleo sobre tela - 30 x 40 - 2015

JOSÉ ROSÁRIO - Um dia de trabalho
Óleo sobre tela - 50 x 60 - 2015

JOSÉ ROSÁRIO - Um "dedim" de prosa
Óleo sobre tela - 25 x 35 - 2015

JOSÉ ROSÁRIO - Curva de rio
Óleo sobre tela - 40 x 50 - 2015


Mesmo com as mudanças nos planos, de última hora, a turma baiana manteve o programa da caminhada e essa ocorreu nessa manhã de sábado, dia 18. Queria estar por aí, andando pelas trilhas de meu nome (quanta honra), conversando pessoalmente com os novos amigos, que há anos venho conhecendo virtualmente, e aproveitando de mais um momento para fazer aquilo que mais gosto: estar em contato com a natureza. Deixo ao Naelson e toda sua turma, um grande abraço. Agradecer imensamente a todos os envolvidos e também aos órgãos públicos da cidade. Dizer que vão ter que esperar só mais um pouquinho, até que eu apareça por lá.