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sábado, 24 de dezembro de 2011

JOSÉ RICARDO

JOSÉ RICARDO - Estrada
Óleo sobre tela - 60 x 80


Conheci o artista José Ricardo no ano de 1995, mais precisamente quando eu estava montando uma exposição na cidade de São Domingos do Prata. Era um local público e ele veio até meu encontro, pois se havia identificado com o estilo que eu pintava. Encontramo-nos mais algumas vezes nos próximos meses e fizemos uma primeira coletiva, em 1996, na cidade de João Monlevade, terra natal dele. Desde aquele período comungamos um estilo parecido, quase sempre realista e com uma temática voltada para cenas de nossas regiões. A paisagem mineira e a vida do homem no campo sempre foram as temáticas principais de nossos trabalhos.


JOSÉ RICARDO - Carreando
Óleo sobre tela - 70 x 100

JOSÉ RICARDO - Amanhecer no vale
Óleo sobre tela - 60 x 80

JOSÉ RICARDO - Estrada do interior
Óleo sobre tela - 70 x 110

José Ricardo de Souza nasceu a 9 de junho de 1960 em João Monlevade, Minas Gerais, e por lá ainda continua. É um sujeito pacato, de hábitos simples e fala mansa, sempre baixa. Curiosamente entrou para a pintura como um contraponto para uma atividade esportiva que praticava. Já desenhava, mas a pintura lhe começou um pouco mais tarde. E tomou gosto pelo que fazia. O que era contraponto virou a atividade principal, e os caminhos ainda seguem no polimento da técnica, na procura incessante pelo melhor efeito e acima de tudo, na busca constante por uma realização pessoal e profissional.


JOSÉ RICARDO - Bebendo no riacho
Óleo sobre tela - 60 x 80

JOSÉ RICARDO - Amanhecer
Óleo sobre tela - 70 x 90

JOSÉ RICARDO - Carro de boi
Óleo sobre tela - 70 x 50

Estão presentes em sua obras, quase sempre, o Rio Piracicaba com suas margens tranqüilas e as montanhas do entorno da cidade onde mora. Seguidor fervoroso da Escola de Edgar Walter; que considera a maior referência para ele; também espelha os seus trabalhos em Wilson Vicente, além de Cláudio Vinícius e Túlio Dias, artistas que há muito admira e que conheceu pessoalmente, recentemente. Ciente de que Minas é uma escola paisagística de respeito, está sempre à procura de uma evolução, que como para qualquer artista, parece sempre desafiadora.


JOSÉ RICARDO - Paisagem do Piracicaba
Óleo sobre tela - 70 x 110 - Acervo de José Rosário

JOSÉ RICARDO - Pescando
Óleo sobre tela - 60 x 80

JOSÉ RICARDO - Estrada
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2011

Já participamos de muitas exposições coletivas e o nosso maior trabalho em conjunto, foi a restauração da via sacra da Igreja São José Operário, em João Monlevade, obra realizada no ano de 2007. José Ricardo também está presente em várias publicações de revistas e catálogos, a ressaltar os volumes do Art Gallery in Brazil e Domani.


JOSÉ RICARDO - Beira de rio
Óleo sobre tela - 60 x 80

Quer pela tranqüilidade natural que emana de seus trabalhos e pela preocupação em retratar a região onde mora, o trabalho de José Ricardo tem um apelo, acima de tudo, ecológico. O desejo que se preservem e multipliquem ambientes tão necessários, e cada vez mais raros. Por isso, um trabalho de fácil entendimento e aceitação. Suas obras tem uma cor característica, peculiar a cada artista, que lhe torna automaticamente uma marca registrada.


JOSÉ RICARDO - Fazenda em Minas
Óleo sobre tela - 60 x 90

JOSÉ RICARDO - Paisagem com cavalo
Óleo sobre tela - 70 x 90

JOSÉ RICARDO - Pastando
Óleo sobre tela - 60 x 80 - 2011

Carrega o desejo de uma comunidade artística mais unida, que divida mais conhecimentos e some esforços na formação de novas gerações. Também leciona na cidade onde mora, onde divide aprendizados conquistados e técnicas adquiridas.

Mais do que o artista mais próximo que conheço, é uma amizade que preservo, daquelas bem raras de se achar. Vida longa ao José, e que divida sempre conosco um pouco do mundo onde vive.


José Ricardo no ateliê em João Monlevade


CONTATOS:
josericardo.desouza@yahoo.com.br
(31) 3852-4328

quinta-feira, 30 de junho de 2011

FOTOGRAFIA E PINTURA

        
JOSÉ ROSÁRIO - Pequeno congado
Óleo sobre tela - 35 x 22 - 2009
Ao lado, fotografia utilizada como referência.

Desde que a fotografia foi aperfeiçoada, em 1841, e nos apresentada na forma como a conhecemos hoje, muita coisa mudou no mundo das artes. É bem provável que o advento da fotografia decretasse o final da arte acadêmica propriamente dita, uma vez que para retratar algo tal qual é, muitos instrumentos desenvolvidos ao longo de todos esses anos, prestassem para isso com mais precisão. A arte acadêmica não morreu, a fotografia ganhou movimento e o nascer do cinema trouxe ainda infinitas possibilidades para fazer e expressar arte. Com esses dois fortes aliados, a liberdade teve que ampliar seu significado.

 Fotografia de referência

CLÁUDIO VINÍCIUS - Volta de estrada
Óleo sobre tela - 70 x 100 - Coleção particular

Os conceitos mudaram bastante, e isso não há como negar. A representação de algo extraído do natural (paisagens, retratos, arranjos e construções) passou a adotar a expressão e as sensações como requisitos muito mais importantes do que a representação fiel daquilo que se vê. Interpretando aquilo que está diante de si, dentro da sua maneira de ver, o artista reproduz sensações exclusivamente suas, e por isso mesmo incomparáveis por qualquer efeito fotográfico.

Fotografia do fuzilamento de Maximiliano, Imperador do México.

EDOUARD MANET - A Guerra Civil
Aguada e aquarela - 46 x 32,5 - 1871
Museu de Belas Artes, Budapeste

EDOUARD MANET - Execução do Imperador Maximiliano
Óleo sobre tela - 252 x 305 - 1867
Mannheim, Stadtische Kunsthalle

Na obra acima, executada por Edouard Manet, nota-se
claramente a influência da fotografia feita durante o
fuzilamento do Imperador Maximiliano. 
 Uma referência fotográfica não precisa ser
necessariamente a reprodução fiel da mesma. 
Um estudo em aguada mostra também
o quanto o artista explora o mesmo tema,
em ocasiões diferentes.

Embora seja um tema em vários pontos polêmico, a fotografia como referência para a produção artística tem seus defensores, mas também seus fortes adversários. Esses últimos alegam que a cópia fiel de uma foto, nada mais é que uma transposição de imagens, ação isenta da menor criação artística. Seus defensores, em contrapartida, dizem que a fotografia é apenas um grande aliado tecnológico, que veio incrementar recursos no processo produtivo de uma obra. Alegam ainda que grandes nomes como Picasso, Dégas, Manet, Courbet, Dali, Delacroix e muitos outros, incorporaram tais “auxílios” em suas obras, e que elas não diminuíram em nada, o respeito e o valor que são dados aos seus trabalhos.

 Beira do Piracicaba - fotografia.

JOSÉ RICARDO - Beira do Piracicaba
Óleo sobre tela - 70 x 110
Acervo José Rosário

Somente os artistas conscientes sabem usar das vantagens desse recurso, seja para a complementação de esboços ou no arquivamento de várias informações que venham a enriquecer o processo criativo na produção de uma obra. Eles também são sabedores que a comodidade de uma informação fotográfica tende sempre a gerar inseguranças no ato do desenho, e que muitos venham a criar laços de dependência muito grandes com essas referências. A pintura em plein air, ou mesmo a prática de esboços feitos do natural, são bons desafios para saber em que grau de dependência o artista está, com relação ao uso de fotos em seu trabalho. Nesse momento não há recurso intermediário entre o artista e o ambiente que lhe serve de referência.

 Lavadeira - fotografia

EDGAR WALTER - Lavadeira
Óleo sobre tela

Observe como a fotografia de referência foi
alterada em função da composição.
Elementos foram subtraídos e outros
adicionados para que a obra ganhasse o
ponto de interesse na figura da lavadeira.

A fotografia capta momentos de raras luzes, que se perdem rapidamente numa abordagem ao ar livre. Também é muito útil para congelar movimentos, impossíveis de se fixar num outro método. Mas a maior vantagem na referência com fotos, é que se torna possível reunir várias delas para formar uma única cena, atividade aliás, das mais usadas pela maioria dos artistas, e que obriga o processo criativo em um grau diferenciado dele.

          
À esquerda: Estrada do velho jacarandá, Dionísio - fotografia de referência
À direita: VINÍCIUS SILVA - Estrada do velho jacarandá (estudo)
Óleo sobre tela, 18 x 24 - 2011

VINÍCIUS SILVA - Estrada do velho jacarandá
Óleo sobre tela - 50 x 70 - 2011
Acervo de José Rosário

A tecnologia tem sido muito generosa para a captação cada vez mais fiel da cena retratada, deixando as câmeras cada vez mais eficientes e muito mais fáceis de serem utilizadas. Mas, essa é uma tentação que deve ser vista com reservas. Não se esqueça que uma câmera, por mais evoluída que seja, é apenas uma máquina. É você, como artista, que decide qual efeito realçar em sua cena, que imagem acrescentar ou excluir para que a obra caminhe o máximo possível dentro da sua intenção. Câmeras, por mais reguladas que estejam, ainda tendem a simplificar as tonalidades, muitas vezes deixando as áreas de sombras muito escuras, ou também realçam mais algumas cores que outras. Quando você comparar a foto com a cena ao vivo, verá quantas sutis e preciosas diferenças se encontram nas duas.

Fotografia de referência

THEODORE ROBINSON - Duas em um barco
Óleo sobre cartão - 23,5 x 34,8
The Phillips Collection, Washington

Mesmo artistas tão experientes, aplicam recursos para
melhor utilizar sua referência fotográfica. Caso de
Theodore Robinson, quadriculando imagem de
referência, logo acima.


Há também muitos outros recursos que facilitam a vida do artista, no que diz respeito a ampliação da fotografia usada como referência para pintura. Alguns fazem uso de quadriculados, outros usam antigos instrumentos como o pantógrafo e ainda há pessoas que projetam tais fotos nas telas, por meio de projetores, para copiarem seus contornos. São processos que agilizam o fazer, mas que distanciam bastante da real intenção de produzir arte, ou seja, representar aquilo que é a sua visão única e intransponível de um tema.

SCOTT PRIOR - Fotografia de referência

SCOTT PRIOR - Estudo à lápis - 1991

SCOTT PRIOR - Toalhas e luz do sol
Óleo sobre tela - 61 x 61

De posse da escolha de uma fotografia para servir como referência para seu trabalho, é preciso que você faça uma análise criteriosa para decidir sobre o que deve ser acrescentado, excluído ou modificado, para que esta referência produza bons resultados. Por isso, reproduzir uma foto que você mesmo tenha feito, seja bem mais fácil para compor seu trabalho, do que se orientar por uma foto realizada por outra pessoa. Quando você mesmo fotografa, aquele tema já havia lhe despertado algum interesse, tal cena já formava em sua mente, um esboço de uma obra.

 Fotografia de referência

TÚLIO DIAS - Estrada do interior
Óleo sobre tela - 100 x 150

Toda composição passa por criteriosos processos para se transformar numa obra tecnicamente correta e artisticamente agradável de se ver. Os conceitos iniciais para qualquer composição, também devem ser levados em consideração na hora de utilizar a foto como referência. Profundidade, proporção, localização do ponto de interesse principal, distribuição de cores, correta representação de fontes de luz e volumes. Todos esses itens podem não estar em conformidade na foto que você dispõe a desenhar ou pintar, portanto não hesite nenhum momento em fazer as correções que sejam necessárias.

         

As duas referências acima serviram para a
conclusão da obra abaixo.
A paisagem foi idealizada em função da composição.

JOSÉ ROSÁRIO - Matando a sede
Óleo sobre tela - 60 x 100 - 2011

Combinar fotos para compor uma cena possui alguns segredos que não podem ser desprezados. Verifique se as fotos que irá combinar tenham a mesma fonte de luz, proporções adequadas e se também apresentam riquezas de detalhes compatíveis entre si. No item perspectiva, fique atento se o ângulo de visão nas duas referências é o mesmo, do contrário, poderá gerar grotescos erros de profundidade. A proporção é outro item de extrema importância, e quando incluem figuras humanas o cuidado deve ser ainda maior. Compare a proporção das figuras humanas com construções à sua volta, bem como a arbustos e animais, caso existam.

PAULO DE CARVALHO - Foto-montagem

       

O artista carioca Paulo de Carvalho lançou
mão de vários recursos até concluir sua obra.
Na foto superior, foto-montagem feita por
ele mesmo no local escolhido. Nas duas imagens
acima, um quadro de Antonin Fanart (esquerda)
serviu como referência para as figuras que ele
também representou. De Thomas Hill (direita),
o efeito dramático causado pelas gradações de
luz e sombra também foram sua influência.
O resultado é uma tela panorâmica que
ambienta bem uma cena do século XIX.

PAULO DE CARVALHO - Vista do alto da serra, Petrópolis
Óleo sobre tela - 10 x 40
Coleção particular

Grandes visões panorâmicas, que não são conseguidas, mesmo pelas máquinas mais avançadas, podem ser compostas pela união de duas ou mais fotos. Mais uma vez, deve-se ficar atento à diferenças exageradas com relação à mudança de luz e perspectiva. Quando já tiver em mente fotografar para unir cenas numa mesma panorâmica, coloque a máquina num ponto fixo, de preferência um tripé, para que não ocorram eventuais problemas na montagem. Não custa relembrar que selecionar apenas os elementos mais atraentes de suas “fotos-esboços” ainda é uma das regras mais sensatas a seguir.

 Fotografia de referência

FERDINAND PETRIE - Pôr de sol
Aquarela

De posse de todas essas informações, use a fotografia como uma referência a seu favor. Mesmo diante de tantos recursos, a emoção que você consegue imprimir em seu trabalho é muito mais importante que uma eficiente reprodução que nada transmita.


PETER HENRY EMERSON - Preparando a armadilha
Fotografia

THOMAS FREDERICK GOODALL - A armadilha
Óleo sobre tela - 83,8 X 127
Walker Art Gallery, Liverpool

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

VIA-SACRA: JOÃO MONLEVADE (José Rosário)

Igreja São José Operário, João Monlevade, Minas Gerais.

Cheguei em João Monlevade numa manhã fria de abril. Era o ano de 2007 e confesso que mesmo estando já nessa área que trabalho; a arte; há 18 anos, senti uma empolgação de iniciante e uma emoção boa, muito boa, dessas que embalam a alma e revigoram o corpo.
Fomos recebidos, José Ricardo e eu, por Antônio, um senhor de conversa calma e atenção sincera. Ele, uma espécie de zelador da igreja, nos mostrou o que seria para nós, a companhia nos nossos próximos nove meses.
A Igreja de São José Operário é uma bela construção em estilo neo-gótico da cidade. Foi inaugurada no ano de 1948, projetada pelo arquiteto Iaro Burian, que a concebeu com uma configuração em forma de “V”, uma provável alusão à vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Esse fato é bem provável de ser verídico, porque a construção foi financiada por uma empresa belga que operou na cidade por muitas décadas e que agora faz parte da rede de empresas do Grupo Arcelor/Mittal.
A nossa visita naquela manhã fria era a primeira apresentação aos painéis da Via-sacra, moldados por um artista holandês não identificado e que se encontravam em acelerado estado de degradação. Mais uma vez, graças a um patrocínio da Acerlor/Mittal e empenho do Pe Marcos, pároco daquela comunidade naquela época, os painéis seriam restaurados e pela primeira vez, pintados.

Da esquerda para a direita: Fernando Santos, José Ricardo e José Rosário

Ainda me lembro nitidamente das portas em madeira nobre e maciças se abrindo, e do primeiro impacto que as imagens me causaram. Ocupando quatro paredes laterais e duas ao centro, as catorze cenas da Via-sacra se impõe por sua expressividade e pela força do conjunto. Mesmo localizadas na base de grandes janelas verticais e numa parede com pé direito bem alto, elas ainda se destacam e se mostram como o cartão-postal da igreja. A configuração da igreja, vista interiormente, é outro fator, por si só, surpreendente. Ao contrário de quase todas as construções religiosas, as entradas principais se fazem pelo fundo e pelas laterais. O altar ocupa o que, visto de fora, seria a frente da igreja. Um engenho arquitetônico muito bem elaborado e agradável de se ver.
Ainda meio surpreso, percorri todo o interior da igreja na companhia dos dois, que praticamente nasceram naquele bairro e freqüentavam ali desde infância.
José Ricardo e eu avaliamos os trabalhos prováveis e fizemos uma extensa lista de materiais, que encontramos em uma loja especializada da capital.
O início do serviço no primeiro painel, uma limpeza e remoção completa da camada de verniz que se encontrava na superfície da obra, já nos deu uma prévia de que não seria uma atividade muito fácil, cumprir nossa meta do cronograma antes estabelecido. Na segunda semana de trabalho convidamos Fernando Santos, um antigo aluno de desenhos que tive em Dionísio e que prontamente se integrou ao serviço.

Abaixo: estado no qual se encontrava uma das cenas da
via-sacra, etapas de sua restauração e a
cena concluída.
JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ






Formávamos realmente uma equipe no sentido mais completo da palavra. Dividíamos todas as atividades com uma cumplicidade rara de se ver.
Como é uma construção isolada do centro da cidade, rodeada por uma densa mata atlântica nativa, tínhamos a sensação de estar numa grande concha de silêncio, só quebrado pelo passar programado do trem próximo à usina siderúrgica, que se ergue numa montanha em frente à igreja. Muitas aves cantavam em sintonia e alguns macacos-prego desciam bem próximos à procura de um alimento mais fácil. 




Devo consentir que a restauração dos painéis foi um retiro que mudou muitos conceitos e fez ver novos outros, a respeito de religião e religiosidade. Mesmo não praticante de nenhuma religião, vejo a essência do Cristianismo; aquela esquecida pela velocidade dos dias atuais; uma meta nobre a se seguir e cada vez mais distante de se alcançar.
O interior de um templo; aliás em todos que já pude estar; nos impõe um respeito natural e a sensação de que ali, somente conosco e com aquilo que cremos, algo em nós se completa e dispensa a procura insana de se encontrar, na turbulência dos dias que insistem em acelerar cada vez mais. Lá e apenas lá, no silêncio sepulcral que nos envolve e preenche, não há como fugir do espelho que vez em quando nos visita e que muitas vezes não temos coragem de encarar.

Iniciando mais uma cena.

João Vítor e suas muitas perguntas curiosas.

No primeiro plano, Fernando. Ao fundo, José Ricardo.

Os dias se passavam com uma cadência e suavidade, que me fazem perguntar às vezes, se fora realmente eu quem os vivi. Começava cedo. Fernando e eu ocupávamos um alojamento não usado há tempos, era lá que nos alimentávamos e dormíamos. Uns três meses após o início das obras, passamos a ocupar a Casa Paroquial, localizada atrás da igreja. Mais confortável, evidentemente, e com uma vista bem contrastante da cidade: a usina e suas densas colunas de fumaça, cara a cara com uma enorme reserva florestal.
José Ricardo se encarregou espontaneamente pela parte burocrática do contrato, afinal, foi com ele os primeiros contatos feitos pela concorrência do serviço. Alguns imprevistos, comuns a qualquer atividade onde estejam seres humanos, aconteceram sem muitos transtornos.
Andréia era a funcionária da igreja, que vinha todas as manhãs para a limpeza e sempre nos contava alguma curiosidade a respeito da história daquele templo e da paróquia. Ainda havia João Vítor, um garotinho de olhar curioso e perguntas complexas, que vez ou outra aparecia para uma rápida visita e matar a curiosidade.







Cada cena terminada era um encorajador alento e alimentava as expectativas para a próxima. De início, achei a idéia colocada pelos responsáveis da igreja um pouco audaciosa. Pintar cenas que nunca haviam sido pintadas, vai meio de desencontro ao princípio de que talvez não seja essa a intenção inicial de quem as compôs. Mas, como não se sabe ao certo quem as fez, a decisão logo me pareceu convidativa, pois os resultados começaram a me surpreender. E estávamos tão envolvidos com tal atividade, que se sucedia, dia após dia, uma tempestade de novas idéias e diferentes composições cromáticas. Como o fundo de cada cena não existia, tivemos total liberdade em criar aquilo que fosse mais de encontro ao que pudéssemos sentir.
Últimos retoques

Cuidando da parte burocrática.

Fernando em momento de descanso.

Ao final de nove meses, estavam todas as obras completas. Uma sensação de dever cumprido somada a algo que me permitiu uma oportunidade rara nos tempos atuais: um encontro comigo mesmo!




Abaixo, algumas cenas da via-sacra
depois de concluídas:

SIMÃO CIRENEU AJUDA A CARREGAR A CRUZ.

JESUS É DESPOJADO DE SUAS VESTES.

JESUS MORRE NA CRUZ.

JESUS É DESCIDO DA CRUZ.