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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

UMA DUPLA DE PESO


 
Esquerda:  Gonzalo Cárcamo
Direita: Ronaldo Boner

A exposição REALISMO HOJE, realizada em Brasília, no final do ano passado, trouxe oportunidades únicas para mim. Primeiramente por mostrar meu trabalho numa região até então pouco explorada, segundo por possibilitar estar próximo de diversos artistas com os quais sempre me identifiquei. Dos nove artistas expositores, seis já me eram mais familiares de contatos anteriores, sejam pessoalmente ou por aqui, na internet. Restavam Marcus Claúdio, Boner e Cárcamo. Ainda não pude conhecer pessoalmente o Marcus Cláudio, mas pude admirar seu trabalho mais de perto e em breve estarei também falando sobre ele. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente uma dupla de peso na atual arte realista brasileira: o Gonzalo Cárcamo e o Ronaldo Boner.

Boner observando o Cárcamo em atividade.

Cárcamo e Bonner são, além de artistas já renomados, ótimas pessoas para o convívio. Os dois sempre com um otimismo oportuno e observações acerca da arte que sempre acrescentam em qualquer roda de conversa. Ambos com uma extensa carreira artística, que tem um currículo de dar inveja (boa) a qualquer artista iniciante. Decidi fazer a matéria com os dois exatamente pelas diferenças técnica, estilística e temática com as quais abordam seus trabalhos. Essa identidade única de cada artista, ganha um ponto em comum em um dos requisitos mais evidentes na produção dos dois: o uso da referência ao vivo para elaboração e composição de suas obras. Fazem questão de frisar que não abrem mão dessa valiosa ferramenta para desenvolver os seus trabalhos.

GONZALO CÁRCAMO - Pequenos pescadores puxando a rede - Óleo sobre tela - 40 x 50

                       

GONZALO CÁRCMO - O menino e a pipa - Aquarela

Nascido na cidade chilena de Los Angeles, em 1954, Gonzalo Cárcamo veio para o Brasil na década de 70. Entre as muitas atividades artísticas, destaca-se a execução de cenários para desenhos animados, chegando a participar de alguns curtas para os estúdios Walt Disney. O trabalho com caricaturas deu início em 1986, no Rio de Janeiro, quando executa os primeiros desenhos para o semanário Pasquim. Desde então, conquistou uma carreira de sucesso e respeito em publicações importantes na Espanha, no Chile e aqui no Brasil, com destaque para o Jornal El País (Espanha), Apsi (Chile) e as revistas Isto É, Veja, Carta Capital e Época (Brasil).

GONZALO CÁRCAMO - Cavalo e carroça, Parati - Aquarela

GONZALO CÁRCAMO - Mercado de Paraty
Guache - 13,94 x 19,66

GONZALO CÁRCAMO - Rua em Paraty - Aquarela

Um dos mais respeitados aquarelistas da atualidade, não só no Brasil, mas a nível mundial, Cárcamo tem também diversas participações em ilustrações de vários segmentos da literatura, seja para obras de grandes escritores, ou publicando pessoalmente obras suas. Ganhei do próprio artista, um belo exemplar publicado em 2005, com obras que fez de Paraty, um dos mais belos documentários iconográficos daquela cidade. Também executou uma caricatura minha, na nossa passagem por Brasília. Atualmente é colaborador da Folha de São Paulo e da Revista Época.

RONALDO BONER - Composição com girassóis - Óleo sobre tela - 90 x 70

             

Ronaldo Boner Júnior é daqueles artistas que já nasceu com a mão calibrada com os pincéis. Artista de uma técnica invejável e com uma habilidade de composição rara nos tempos atuais, é uma unanimidade, tanto a nível crítico como ao grande público. Suas obras são facilmente identificadas e muito bem assimiladas.

RONALDO BONER - Arranjo - Óleo sobre tela - 40 x 50

RONALDO BONER - Samovar e uvas
Óleo sobre tela - 70 x 90

RONALDO BONER - Arranjo - Óleo sobre tela

Dois períodos na Itália, estudando com o artista Luciano Regoli, trazem ainda mais maturidade ao trabalho que já era imexível. Essa estada em terras européias também amplia sua temática, abordando agora a paisagem e a figura humana, com a mesma desenvoltura que o consagrara nas naturezas mortas. Nascido em 1974, carrega desde muito tempo um refinamento que identifica logo os seus trabalhos. Vários prêmios e uma infinidade de exposições podem ser conferidos em sua página pessoal.

Foi uma satisfação muito grande poder encontrar com essa dupla e dividir ótimos dias em suas companhias. Bons aprendizados em tão pouco tempo.


PARA SABER MAIS:




quarta-feira, 21 de novembro de 2012

UM ÚLTIMO ESTUDO EM BRASÍLIA


Um estudo com modelo ao vivo, no ateliê da Juliana Limeira, foi a nossa última atividade na passagem por Brasília. Aliás, foi um final de semana intenso, daqueles que só quem convive com a Juliana sabe experimentar. Ela programou uma série de atividades para a nossa passagem por lá, que incluiu desde exercícios em plein air e no estúdio, bem como um rápido passeio turístico pelo centro da cidade.




Júlia foi a nossa modelo. Um bela jovem que está sempre presente nas aulas e composições da Juliana.
Douglas Okada, Ronaldo Boner e Juliana fizeram um estudo em óleo. Vinícius e eu executamos exercícios em lápis e carvão. Gonzalo Cárcamo não esteve presente nessa atividade, pois seu vôo se deu antes dela.
Concluímos os trabalhos na manhã de domingo, dia 11 de novembro, pois todas as outras partidas já estavam marcadas em horários diferentes da tarde.

RONALDO BONER - Júlia - Óleo sobre tela

JULIANA LIMEIRA - Júlia
Óleo sobre tela

DOUGLAS OKADA - Júlia
Óleo sobre tela

VINÍCIUS SILVA - Júlia
Carvão sobre canson

JOSÉ ROSÁRIO - Júlia 
Lápis sobre canson

Gostaria de agradecer, mais uma vez, a hospitalidade que recebemos por parte da Juliana. Foram dias de muito aprendizado para todos nós e de convívio com pessoas que sempre nos acrescentam algo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

REALISMO HOJE: UMA PROPOSTA


Da esquerda para a direita: Douglas Okada, José Rosário, Gonzalo Cárcamo, Luiz Fernando (Instituto Seraphis), Luís Carlos Marques Fonseca (Nova Acrópole), Juliana Limeira, Ronaldo Boner e Vinícius Silva.

Todas as vezes que há um confronto entre Arte Contemporânea e Arte Clássica, cria-se um embate e ao mesmo tempo uma possibilidade ao entendimento, ainda que esse último pareça distante e que muitos setores da própria arte insistam para que ele nunca aconteça. A inauguração da Exposição “Realismo Hoje” traz à tona uma temática necessária, muitas vezes evitada e grande parte das vezes abafada: a beleza na Arte é possível? Pela minha vivência com o tema, diria que não somente é possível, como se torna urgente. Os nove artistas que participam da mostra não tem a pretensão de se declararem representantes únicos de uma nova corrente que luta pela busca de uma nova arte, aquela que reinstaure a procura da beleza como ideal de expressão. São, como muitos artistas, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, sobreviventes contra um meio hostil, que cada vez mais oprime e direciona a grande massa.

GONZALO CÁRCARMO - Meninos puxando a rede de pesca, detalhe

JULIANA LIMEIRA -  Em busca, detalhe

ALEXANDRE REIDER - Florada das paineiras, detalhe

Sei que estarei comprando uma briga com todas as correntes que insistem em fazer crer que a Arte se tornou um jardim de liberdade irrestrita, que tudo nela se pode e que temos que assistir ao desfile de tantas sandices, que muitas vezes nos afastam com força do maior e mais nobre ideal procurado na arte: o da beleza e do diálogo constante com ela, e com os bens que esse diálogo proporciona às nossas vidas. Como nas ágoras da Antiga Grécia, onde os problemas se exauriam e se resolviam pelo maior conhecimento de si mesmos, a internet me parece a ágora mais democrática do momento. Aqui, estamos pelo menos mais isentos (se quisermos) da simplificação violenta da Arte. Em nenhum outro lugar, como aqui, a monopolização da Arte por uma pequena minoria parece sofrer tanta ameaça. Concordo com a máxima de Arnold Hauser, quando afirma que “o problema não consiste em confinar a Arte ao horizonte das grandes massas, mas ampliar o horizonte das massas tanto quanto possível”. Como artista, principalmente defensor de um estilo realista, que ainda comunga dos ideais clássicos, vejo o quanto a democracia entrou em desuso. As grandes galerias atuais, bem como bienais e espaços públicos, não estão dispostos a expor uma Arte que resgate antigos valores e que proporcione ao público o direito sagrado do livre arbítrio e da escolha, estão mais preocupados em “vender” o produto da moda, ainda que ao público consumidor seja servida apenas uma viseira, que cega e direciona para os trilhos daqueles que tem poder. Não estamos lutando para que um estilo prevaleça sobre outro, é exatamente essa guerra de "ismos" que devemos evitar, se quisermos evoluir como artistas que caminham pela construção de um mundo melhor. Mas, sou consciente que esse diálogo se faz necessário. Todos nós crescemos quando abrimos ao diálogo. E, mesmo que não cheguemos a alguma conclusão nesse momento, caminhamos em direção a ela. Se andamos dois passamos e recuamos um, pelo menos saímos do lugar.

RONALDO BONER - Arranjo com girassóis, detalhe

JOSÉ ROSÁRIO - Congados em dia de festa, detalhe

DOUGLAS OKADA - Raquel, detalhe

O fim do Impressionismo marcou o final de um período de cerca de 400 anos em que a Arte tinha como meta produzir algo belo, que encantasse sem precisar de um discurso paralelo. Cada obra desse período não precisava de uma cartilha de tiracolo, que a interpretasse para todos que se colocassem diante dela. Dentro desse mesmo período, que se iniciou lá no Renascimento, movimentos renovaram a linguagem artística, adaptaram-se ao seu tempo, mas nunca perderam como meta a procura do encantamento, esse mesmo encantamento que nos faz sentir a vida mais leve e confirmar que o “supérfluo” do produto artístico é o essencial para a melhora de nossos dias. Tudo que se produziu de novo, depois do Impressionismo, foi uma recusa constante ao encantamento, da perda da natureza como fonte inspiradora e quase sempre uma violação a ela. À partir de então, o culto àquilo que agride, que deprime, que causa melancolia, passa a ser a regra. Todas as manifestações artísticas sofreram graves consequências, os valores pictóricos são destruídos, não importa mais o cuidado na elaboração da imagem. A poesia perde a sistematização da estrutura e se expressa em frases soltas, desconexas, muitas vezes ditas nas entrelinhas e numa subjetividade que nada afirma. Também a música perde a melodia e a tonalidade, nos afastando cada vez mais dos caminhos que nos conduzem à paz de nossas almas. A Arquitetura se tornou quase estéril, preocupando demasiadamente em nos colocar num ambiente que apenas nos contém, mas que não nos abriga com tudo aquilo que somos. O século XX foi o palco onde aconteceu tudo isso. No afã de ridicularizar tudo que foi produzido pelos nossos antepassados, a Arte dita moderna começou a agredir diretamente alguns mestres do passado. Exemplo clássico é o da Mona Lisa executada por Marcel Duchamp, onde ela aparece com uma barbicha e bigode. Fazer piada com algo que sempre foi uma referência e símbolo, parece fortalecer adversários que não tem nada mais a oferecer além disso: ironia. Mas, tudo isso é muito engraçado apenas por um breve intervalo de tempo. Continuaremos apenas rindo de nossas desgraças, sem buscar uma saída para elas? Muito do que se produz na Arte Contemporânea foge do sentido de revitalização proposto pelo verdadeiro espírito da Arte. A Arte que não tenha um compromisso com a melhoria da nossa condição humana estará confinada a uma simples replicação do caos, e seus artistas são nada mais que desnecessários profetas do agouro. É muito fácil montar uma instalação com centenas de vestes ensanguentadas, nos dizendo que somos cúmplices das “chacinas” que matam o mundo, o difícil é mostrar algo que seja a solução para isso. Repetir a tragédia da nossa realidade humana não é tão complicado quanto apontar o caminho para sairmos dela. Queria que os artistas de hoje se preocupassem menos em chocar e muito mais em extasiar. Se um escultor de hoje produz uma bela imagem, com proporções bem elaboradas e bem acabada, não tem muito valor. Mas, se pegar a mesma escultura, serrar ao meio e pendurar de cabeça pra baixo, é um gênio. Que valores estamos conquistando com isso? Até que ponto destruir o nosso gênio inventivo será mais importante que edificá-lo? Precisamos de uma Arte para amaciar o coração da humanidade, porque de pedra já nos tornamos eficientes.

CHARLES OAK - Tribo Himba, detalhe

VINÍCIUS SILVA - Inverno na corredeira da Trindade, detalhe

MARCUS CLÁUDIO - Costureira, detalhe

Quando recebi o convite da Juliana Limeira, para estar compondo, juntamente com outros artistas, uma exposição que fosse um pouco do resgate da Arte que nos faz reencontrar valores perdidos, logo vi que não estava só. Ainda é possível acreditar em resgatar um pouco da nossa dignidade humana e contagiar outras pessoas com isso. A Nova Acrópole me fez confirmar ainda mais que estou no caminho certo. Somente com o aprofundamento do conhecimento daquilo que somos, baseados na herança cultural que nos deixaram os ricos ensinamentos orientais e ocidentais, podemos caminhar na direção de um mundo onde Justiça, Beleza e Bondade sejam imperativos e não uma utopia. Um lema da organização e que muito me marcou é que “se você acredita que esse mundo ideal é possível, não espere que ele apareça para você, faça parte dessa construção, seja arquiteto de seu próprio tempo”.

Não poderia terminar esse texto, sem citar Jorge Angel Livraga: “Limpemos o mundo começando por nós mesmos. A limpeza, a verdadeira higiene espiritual, é a melhor forma de Arte. E o ato de fazê-lo é o melhor artesanato. Deus abençoe o trabalho, Deus abençoe o esforço. Deus abençoe os humildes que talham a madeira e modelam o barro. Deus abençoe aqueles outros, os escolhidos dos deuses, que podem plasmar em letras, em música, em cores, aquelas cores tão bonitas que escapam ao resto dos homens. Artistas e artesãos vão unidos para um mundo melhor. Eles devem marcar, no meio da noite, a luz do horizonte que indica que começou amanhecer”.