terça-feira, 3 de maio de 2011

AS ETAPAS DE UMA OBRA (José Rosário)

JOSÉ ROSÁRIO - Estrada com cargueiros - Detalhe

Tenho recebido um número de e-mails solicitando detalhar como executo meu trabalho. Considero meu método de execução da pintura bem básico, simples até. Uso a alla-prima como referência, pois atende no momento, os efeitos que desejo. Tenho sempre experimentado outros métodos e procurado incorporar algo novo na minha maneira de fazer. Penso que o mais importante seja realmente isso, encontrar a sua maneira pessoal de fazer, e não perder sua característica particular, mesmo incorporando métodos novos aprendidos das experiências de outros artistas.
Um desejo comum a todos nós, quando começamos a enveredar pelo mundo das artes, principalmente a pintura, é querer encontrar respostas rápidas para alguns dilemas que parecem ser só nossos. Alguns exercícios, que de início parecem ser complexos, encontram suas respostas naturalmente. Elas nos chegam pela insistência da procura e pela dedicação incondicional.
Bom realçar que as respostas de hoje são melhores que as de ontem e serão melhores ainda num tempo futuro. “Impossível é tudo aquilo que vemos quando tiramos os olhos de nossos objetivos”. Não sei quem escreveu essa frase, mas a li em algum lugar, e ela se veste de realidade para todas as pessoas em qualquer situação.

Pintando ao ar livre em Dionísio.

Não há uma regra exata a seguir, mas, certas atividades, todos hão de concordar, devem estar na pauta de todos os planos para qualquer artista. Já mencionei sobre elas em matéria anteriormente, mas, não custa recordar.

1 . Observar.
O exercício da observação nos treina o olhar. Muitas vezes vemos sem realmente enxergar. Há que se ter um olhar curioso, indagador, que questione a razão daquilo que se vê, para que ele possa sempre nos acrescentar algo novo. Como reagem certas cores próximas umas das outras? As sombras são realmente tão escuras quanto imaginamos? O que, numa paisagem diante de mim, aumenta ou diminui a sensação de profundidade? Que trecho da composição é o melhor parâmetro para guiar a proporção em minha obra? Estas são algumas perguntas que se abrem a todos aqueles que, com coragem e disciplina, se propõe evoluir dentro do caminho da arte. Costumo dizer que uma obra é feita com 50% de observação e outros 50% de execução.

2 . Praticar o desenho.
Qualquer que seja o segmento escolhido dentro das artes plásticas, de uma forma geral, terá êxito apenas com a prática constante do desenho. Um jogador de basquete treina exaustivamente a melhor trajetória para a cesta, um músico repete até à exaustão a harmonia ideal de suas notas, um chef de cozinha apura o melhor sabor de seus pratos, com experimentos que os tornem a receita perfeita... Não há evolução sem treino. Desenhe o máximo que puder e quando cansar, desenhe ainda mais.

3 . Orientar-se pelo passado.
Não se pode desprezar, nunca, tudo que fizeram aqueles que vieram antes de nós. Referenciar pelo que de melhor existe no passado é garantia de longa jornada para o futuro.


JOSÉ ROSÁRIO - Estudo em plein air para Estrada com cargueiros
Óleo sobre tela - 22 x 35 - 2011

Com base nesses três parâmetros, separei uma obra para explicar um pouco o meu método de execução. Costumo utiliza-lo em quase todas os meus trabalhos. Ela é: “Estrada com cargueiros”, um óleo sobre tela com medida de 70 x 100 cm.
A idéia da tela nasceu de uma das nossas saídas para pintar ao ar livre. José Ricardo e eu pintamos ao ar livre de vez em quando. Minas tem uma variedade muita rica de ambientes. Essas saídas já criaram situações hilárias, como em uma vez que fomos para a beira do Rio Piracicaba, em João Monlevade. Era inverno e o tempo seco deixa a estação perfeita para os pastos ficarem infestados de carrapatos. Só quem já esbarrou em um “cacho de carrapatos”, entende a agonia que passamos naquele dia.

JOSÉ ROSÁRIO - Primeiro estudo em ateliê para
Estrada com cargueiros
Óleo sobre tela - 30 x 40 - 2011
A obra final, mais abaixo, teve a estrutura da paisagem
modificada, ganhando mais profundidade.

A pintura ao ar livre (plein air painting) é uma prática que os primeiros impressionistas levavam à sério. Orientar pelo passado é isso, trazer para nossa realidade, algo bom que já foi experimentado. E quanto nos ensina!... Nesses exercícios, a prática da observação nos torna mais seletivos.

JOSÉ ROSÁRIO - Um dos muitos estudos para
Estrada com cargueiros
Lápis sobre papel - 30 x 20 - 2011

Fiz vários estudos para a obra idealizada e depois pratiquei alguns exercícios com as figuras que iriam compor a cena. Há uma riqueza muito grande de modelos vivos por aqui. Uma simples mudança de ângulo em cavalos, vacas e cavaleiros podem oferecer um número sem fim de situações. Tenho condicionado o tempo para que a prática desses exercícios os torne cada vez mais expressivos. Tenho gostado de alguns resultados, mas, sempre há o que se melhorar.

Detalhe 

Caso não seja muito fácil o acesso a modelos vivos, recorra ao uso de fotos. Elas congelam um momento e, quando bem utilizadas, são sempre uma referência alternativa.
A obra foi concluída em ateliê.

JOSÉ ROSÁRIO - Estrada com cargueiros
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2011

Essas são algumas dicas que orientam o que fazer, farei uma outra matéria para orientar como fazer. Algo como o passo a passo de uma obra. Vale a pena lembrar que a minha maneira de como fazer não é uma regra fixa universal. O mais legal é que possamos sempre acrescentar algo novo ao nosso trabalho, mas que ele não perca a nossa cara. Há quem chame isso de originalidade, prefiro apelidar de particularidade.