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sábado, 26 de novembro de 2011

SÉRGIO HELLE

SÉRGIO HELLE - Acqua
Mista sobre tela - 142 x 142 - 2009

Percebemos a consistência da obra de um artista pela coerência de sua trajetória. É a sua proposta, cuja própria imaginação alimenta com persistência, que nos diz a que veio e se faz isso com objetivo. Coerência e consistência não faltam na obra de Sérgio Helle, artista da cidade cearense de Fortaleza. As suas fases, exploradas durante sua trajetória, nos apontam que há um bom tempo, já possui uma arte focada e com bastante objetivo.

SÉRGIO HELLE - Paixão
Infogravura - 200 x 106 - 2001

SÉRGIO HELLE - Sonho desfeito
Mista sobre madeira - 100 x 100 - 2002

Sua primeira fase, Abraços, que lhe montou material para sua primeira individual, em 1988, já apontava os rumos de sua arte coesa. Inicialmente tradicional, em óleo sobre tela, foi absorvendo com o passar do tempo, novas técnicas e materiais. Reflexos de uma linguagem atual e de um artista que não se prende a conceitos e experimenta sempre novas linguagens. Os experimentos iam desde aplicações de cópias xerox até o advento da infogravura, que segundo ele próprio, avançou rápido, num espaço de tempo bem curto. Tirou bons frutos dessas experiências e fechou a fase com Abraços de Cinema, não que esgotasse o tema, mas porque já ensaiava novas propostas.

SÉRGIO HELLE - O diário de Annais Nin
Infogravura - 74 x 120 - 2001

SÉRGIO HELLE - Saudade
Infogravura - 53 x 170 - 2001

Tais propostas tomaram forma em Sonhos, numa Individual do Centro de Convenções, realizada no Festival Vida e Arte, em 2005. É ainda a utilização de várias técnicas, que faziam da computação a base central de todas elas. Colagens, plotagens e outros meios que exploravam o uso da figura feminina, todos tendo como base, a poesia de Florbela Espanca. Já era o indício de uma obra mais contemporânea, com a linguagem muito bem adaptada para os diálogos artísticos atuais e que comprovam um amadurecimento artístico visível.

SÉRGIO HELLE - Sonho
Mista sobre tela - 100 x 130 - 2003

SÉRGIO HELLE - Flores moles
Infogravura - 124 x 76 - 2005

Nas duas fases anteriores, o trabalho de Helle já dava indícios que a figura tinha sua importância, mas também já dividia a composição com seus muitos adereços, tanto que uma nova fase surgiu, Dobras Moles. Veio naturalmente da vontade de explorar o que antes era o fundo de suas composições, dobraduras e panejamentos muito bem compostos. Tendem a nos enganar o olhar, ora quase que hiperrealistas, ora quase abstratas, mais uma vez nos mostrando que a versatilidade é um atributo de poucos.

SÉRGIO HELLE - Acqua X - Mista sobre madeira - 72 x 160 - 2010

SÉRGIO HELLE - Acqua XI - Mista sobre madeira - 140 x 110 - 2010

SÉRGIO HELLE - Acqua XI - Mista sobre madeira - 140 x 110 - 2010

O coroamento de todas essas experiências veio com Acqua, sua mais nova fase. Lançada na Galeria Mariana Furlani, em 2010, e que deu origem a um livro impecável, lançado recentemente. A figura humana volta a habitar suas composições, mescladas mais uma vez com dobraduras e panejamentos. O diferencial está em fazer isso numa superfície que não é nada tradicional, a água. O resultado é quase surrealista, e com visões muitas vezes, quase abstratas. Como ele próprio afirma: “A água desvenda novos ângulos de visão, com seus reflexos e suas lentes, por onde as cores e formas são distorcidas, ampliadas e desfocadas, criando novas imagens, que por momento, o olho se perde da figura e encontra a abstração”. A inspiração de tais trabalhos, vieram de ensaios fotográficos realizados por Nicoline Patrícia.



Quando vemos a persistência de artistas como Helle, nos damos conta de como são fortes as propostas daqueles que tem a mente focada no que fazem. Felizmente, são artistas assim, que nos fazem confirmar o quanto Platão estava errado, em tentar expulsar os artistas da comunidade. Ele tinha uma visão política e prática para as relações sociais. Platão achava que os artistas tem o dom de iludir e enganar, fugindo da proposta maior do Estado, de viver para as necessidades básicas. Com os artistas começam a surgir desejos luxuosos, segundo ele, desnecessários e sem a menor utilidade. Mas foi um aluno seu, Aristóteles, quem defendeu que o uso da imaginação fazia criar um mundo paralelo, capaz de melhorar o mundo real. Afinal, somos seres diferentes apenas não porque sobrevivemos como outros animais, mas porque temos a opção de qualificar essa nossa sobrevivência. A arte, segundo Aristóteles, permite uma melhor qualidade de vida.
Sérgio Helle, e muitos outros artistas que surgiram desde então, em diversas partes do mundo, confirmam o quanto podem tornar a vida melhor, com a socialização de suas visões. E que elas sobrevivam em muitas fases, tantas quantas forem possíveis.

PARA SABER MAIS:


domingo, 13 de março de 2011

INHOTIM (José Rosário)

Em um banco feito com tronco de árvore. Uma
das muitas gratas surpresas do Jardim Botânico no
Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais.

Estreiteza de pensamento é condição natural a todas as pessoas que se deixam conduzir pelo preconceito. Por alguma falta de habilidade auto-imposta de ver a coisa tal qual ela é, o mundo diminui e a vida se torna tão pequena, que qualquer horizonte, o mais simples possível, se torna algo distante, uma miragem que desfoca e se perde.
Devo admitir que sempre tive uma resistência para certas “novidades” que a Arte Contemporânea nos “empurra”. Alguns exageros, todos convenhamos, não são estreiteza de pensamento de quem observa, mas estreiteza de criação mesmo, modismos financiados, que não passam disso, produtos de moda. E como todas as modas, temporários (graças a Deus).
Recebi um convite de amigos; Laércio e Ivone; para conhecer o Museu Inhotim, em Brumadinho, aqui mesmo em Minas Gerais. A cidade não está entre as mais populosas e muito menos entre as mais potencialmente econômicas do estado, mas se descobriu, pela iniciativa de mentes bem “abertas”, numa ótima maneira de se fazer perceber.


ALGUMAS VISTAS DO JARDIM BOTÂNICO






O Instituto Inhotim foi idealizado e criado pelo empresário Bernardo Paz, em meados da década de 80, e já não é apenas uma atração da cidade de Brumadinho, é essencial para ela. É certamente a maior referência da Arte Contemporânea, no Brasil. Oxalá não seja uma das melhores referências no mundo. Está pelo menos entre as dez, seguramente. Um local para deixar a resistência à expressões contemporâneas bem longe. Lugar certo para abrir horizontes. É que em qualquer setor da Arte, há pessoas que realmente se propõe fazer algo para acrescentar, e não apenas somar ou virar estatística.
Diversas galerias e um jardim botânico impecável estão espalhados numa área de 97 hectares, abrigando mais de 500 obras de artistas nacionais e internacionais. A concepção inicial do Jardim Botânico foi de Roberto Burle Marx, nome mais que respeitado no paisagismo brasileiro. Porém a concepção original já sofreu alterações, até porque plantas crescem e morrem, e isso em si, já é uma condição nata de mudança. Sem contar a inserção de diversas outras espécies, que aconteceu até o presente momento. Tudo lá é grandioso, no sentido mais original da palavra. Um ótimo lugar para medir seu nível de preconceito em relação a segmentos da Arte. Para os que insistem em manter “mentes estreitas”, aí vai um conselho, fiquem de fora. Ou então, estejam abertos a novidades e mudanças, quando por lá estiverem.
Uma das características da arte atual é a dimensão avantajada (quase exagerada) de grande parte das obras. É que as “instalações”, maneira mais comum de agrupar objetos, encontrada pelos artistas atuais, ocupa geralmente grandes áreas. O que se conclui que um museu que se proponha expor apenas Arte Contemporânea deva ter uma área bem generosa. O que não é problema no Museu Inhotim. Só para se ter uma ideia, algumas obras ocupam, sozinhas, galpões imensos. Alguns galpões, aliás, já são a obra de arte em si. Isso, quando a obra não fica literalmente a céu aberto.


MAIS ALGUMAS VISTAS DO JARDIM BOTÂNICO






Percebe-se nitidamente em Inhotim que a qualidade e organização de tudo são itens levados à risca. Uma aula na qual muitas instituições, ditas “tradicionais”, faltaram. Isso contribui, e muito, para que as obras ali expostas, organizadas numa condição especial, consigam se expressar e se fazerem entender com mais nitidez.
Um serviço de transporte interno pode levar o visitante a qualquer ponto do grande espaço que ocupa o instituto. Mas a melhor maneira de assimilar toda a proposta do lugar é caminhar. Chegamos bem cedo e percorremos todos os principais pontos até o fim da tarde. Preparo físico ajuda. Em vários pontos é possível encontrar lanchonetes e sanitários. Tudo muito bem estruturado, por sinal.
Há que se ressaltar também o projeto de inserção da população da cidade e região, constituindo uma sólida proposta de inclusão e cidadania, modelo para muitas outras instituições, que esquecem que o produto final de qualquer manifestação artística é o próprio homem, procurando-se melhorar e progredir.
Minas Gerais, com uma tradição reconhecida em preservar centros históricos, abre espaços também para divulgação e preservação de expoentes da Arte Contemporânea, de primeiro nível. Cabe a cada um de nós, avaliar e fazer suas escolhas, respeitando a existência de novos canais de expressão e convivendo com eles. Tudo que não combina com Arte são “mentes estreitas” e fechadas a novos horizontes.


ALGUMAS OBRAS QUE FAZEM PARTE DO
ACERVO DO MUSEU INHOTIM


DOUG AITKEN - Sonic Pavilion, 1968
Construção em forma circular, que possui ao centro uma
uma perfuração com mais de 200 metros de profundidade,
com microfones instalados em profundidades diversas. Os
sons emitidos desses microfones são os sons emitidos
pelo movimento e deslocamento de placas ou acomodações
de terra. A concepção e execução dessa construção, no alto
de uma colina, foi de uma felicidade muito grande. Lava vulcânica
circula toda a construção, dando a impressão que um vulcão
jogou o prédio para fora. Lá dentro, com os "urros" intensos
que soam do buraco, essa impressão intensifica ainda mais.

CILDO MEIRELES - Através
Instalação, 600 x 1500 x 1500, Década de 80
Objetos dos mais variados possíveis compõem essa
instalação inquietante. Tem uma formação labiríntica, que desperta
uma experiência sensorial de descoberta. A obra quer mostrar as
barreiras da vida, e como são difíceis superá-las, mesmo
que estejam à nossa vista.


HÉLIO OITICICA - Penetrável quadrado mágico
Escultura, 1977
O carioca Hélio Oiticica, que nasceu e morreu no Rio, brinca com
a cor e cria objetos que proporcionam curiosas descobertas.


CHRIS BURDEN - Beam Drop 
Escultura, 2008
A concepção e execução dessa obra é no mínimo, audaciosa.
Um guindaste lançou 71 vigas em aço, a uma altura de 45 metros
em uma vala de cimento fresco, durante um período de 12 horas.
Está pronta uma das esculturas de maior dimensão do museu.
Fica a céu aberto, no alto de uma montanha.

EDGARD DE SOUZA - Átomos
107 x 70 x 47, 2000
Vivendo ainda em São Paulo, Edgard cria esculturas
de refinado equilíbrio.

ERNESTO NETO - Nave Deusa
Instalação, 500 x 950 x 690, 1998
Nave Deusa é uma das primeiras esculturas de Ernesto Neto
que nasceu da pesquisa por materiais que fizessem uma ligação
entre as concepções mais formais do Modernismo e uma visão
orgânica da Geometria. Aqui, a tensão e a gravidade dão a diretriz
por onde caminhar na obra. Em seguida, soma-se a transparência
e os vários aromas de especiarias, que aguçam ainda o olfato.

PAUL Mc CARTHY - Boxhead  
2001
Esse americano de Salt Lake City, nascido em 1945,
reside atualmente em Los Angeles.
Suas esculturas tem um aspecto cômico.

WALTERCIO CALDAS - Escultura para todos os materiais não transparentes
1985
Meio que perdidas em meio ao jardim, essas esferas não
conseguem passar despercebidas. É contemporânea, mas com
uma leitura bem construtivista da década de 50.

JANET CARDIFF - Forty Part Motet
Instalação sonora de 40 canais, cantada pelo coro 
da catedral de Salisbury, 2001
Thomas Tallis, compositor inglês do século 16, compôs 
Spem in Alium nunquam habui para a comemoração do aniversário 
da Rainha Elizabeth 1ª, em 1575. 
O moteto (um tipo de composição polifônica medieval) para 
oito coros de cinco vozes trata de humildade e transcendência, 
dois temas importantes para o compositor católico numa época em que 
a fé católica era reprimida pelo Estado soberano da Inglaterra. 
A peça é conhecida como uma das mais complexas obras polifônicas 
para canto coral jamais compostas. Utilizando microfones individuais, 
Janet Cardiff gravou cada integrante do coral da Catedral de Salisbury,  
trabalhando com vozes masculinas – baixo, barítono e tenor – 
assim como com uma soprano infantil. Na instalação, 
a artista usa um alto-falante para cada voz, o que permite ao 
espectador ouvir as diferentes vozes e perceber as diferentes 
combinações e harmonias à medida que percorre a instalação. 
Janet Cardiff é uma das artistas mais prolíficas de uma arte 
que se vale da tecnologia de ponta. Seu trabalho emprega 
diversos meios expressivos, abrangendo vídeo, 
instalação e gravação de som.

TUNGA - True rouge
Instalação, 1315 x 750 x 450, 1997
Pernambucano de Palmares, nascido em 1952, Tunga cria em True rouge
uma obra que choca no primeiro momento. Usando de diversos
materiais (redes, madeira, vidro soprado, pérolas de vidro, tinta vermelha,
esponjas do mar, bolas de sinuca, escova limpa-garrafa, feltro e
bolas de cristal) e ocupando uma grande área numa das galerias
mais imponentes de Inhotim, é uma obra que permite a cada um,
interpretações individuais.


JOHN AHEAM E RIGOBERTO TORRES - Abre a porta 
Tinta automotiva sobre fibra de vidro, 530 x 1500 x 20cm
2006
O americano John Aheam e o portorriquenho Rigoberto Torres
assinam "Abre a porta". Acredito que seja a obra na qual os visitantes
mais se identificam logo de início.


YAYOI KUSAMA - Jardins de Narciso
500 esferas de aço inoxidável flutuando soltas, 1966
Nessa nova versão da escultura-chave de Yayoi Kusama, de 1966, 
500 esferas brilhantes de aço inoxidável flutuam nos espelhos d'água 
da cobertura do recém-inaugurado Centro Educativo Burle Marx, em Inhotim. 
Esta obra matricial da arte feminista é uma escultura em 
grande formato que, no entanto, se desmaterializa, 
movendo-se organicamente em reação ao vento 
e refletindo a natureza ao seu redor.
Muito legal essa relação homem e espelho. Todos temos
um lado Narciso. Muitos evitam confronta-lo.



PARA CONHECER MAIS: