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domingo, 27 de maio de 2012

ARTE E HISTÓRIA


O Grito, em leilão na Sotheby's

Essa matéria foi uma sugestão de Márcio Domingues Soares; leitor e agora colaborador do blog; e veio num momento muito pertinente, mesmo apesar de os fatos estarem se tornando algo comum. Algumas notícias sobre arte sempre acabam ganhando as manchetes e provocando algumas polêmicas. Parece que sempre foi assim, toda vez que uma obra atinge valores astronômicos ou alguma farsa é desmascarada. Para continuar com o assunto, melhor assistir aos vídeos anexados logo a seguir, para que algumas conclusões possam ser tiradas.



Leilão da obra "O Grito"


Falsário de pinturas consagradas


Depois de ver essas matérias, é bom lembrar de uma frase de Picasso: “Pinto da mesma forma como algumas pessoas escrevem uma biografia. As telas, concluídas ou não, são como páginas de meu diário e, como tais, válidas ou não. O futuro escolherá as de sua preferência. Não cabe a mim, fazer as escolhas”. Estaria Picasso prevendo os “exageros” dos tempos atuais? Certos trabalhos valem tudo aquilo pelos quais são vendidos? Quando um artista produz uma obra, tem exata noção da mudança que pode provocar no mundo? Uma infinidade de outras perguntas poderia se seguir a essas e provavelmente teria respostas bem variadas. Não quero chegar ao mérito da obra como objeto, pois entender um trabalho isolado é algo injusto e produziria conclusões desastrosas. A intenção principal dessa matéria é exatamente levantar um questionamento acerca dos rumos da obra de arte e o mercado no qual está inserida. Falar pelo menos de uma obra, logo adiante, tornar-se-á inevitável.
Muitos foram os artistas que amargaram uma dura jornada em suas carreiras. Passando dificuldades financeiras extremas, rejeitados por críticos e público e vivendo em um dilema interior constante. Muitos deles pesarosos em abandonar uma linguagem estilística estável e rentável. Quase sempre tentados a inovar e produzir aquilo que seus desejos sempre lhes sondavam. Essa busca constante se tornou para muitos uma tortura e alívio ao mesmo tempo. Afinal, é da transgressão que nascem os grandes nomes. Da vontade infinita de querer mudar, surge sempre a possibilidade de uma nova vida. Em alguns casos muito isolados, o reconhecimento e prestígio chegam a tempo para que o artista usufrua em vida de sua criação. Mas quase sempre, os lucros irão enriquecer oportunistas do mercado a posteriori. E por que uma obra chega a valer tanto? A resposta mais plausível para essa pergunta é que o que está à venda não é apenas um pano com tinta, espichado em um chassi de madeira. O que está à venda é um pedaço da história, da ousadia de alguém que um dia produziu algo novo para seu tempo; porque o mercado de arte é assim, vive de novidades. Não só novidade do que é contemporâneo, feito hoje, mas também e principalmente do que já foi novidade um dia. Como disse Picasso, o artista produz, “mas não cabe a ele fazer as escolhas”. A história é sempre montada nas gerações posteriores e feita de acordo com suas conveniências.
Não queria me estender a nível individualizado, mas vamos pegar como exemplo a obra “O Grito”, de Edvard Munch. Famosa nos últimos tempos, por se tornar um dos trabalhos mais valorizados produzido por um artista. Por que se tornou tão valorizada? A tela vendida é uma das quatro versões produzidas para o mesmo tema. Tem a cor mais intensa que as outras três, é a única que tem a moldura original com um poema do artista (que deu origem à elaboração do tema) e também a única que possui uma figura em segundo plano olhando para baixo. O que valoriza o quadro é audácia de alguém que soube pintar aquilo que sentia, sem as aparas da crítica e nem a cobiça de querer produzir algo para ser vendido. Munch escreveu sobre seu trabalho: Passeava com dois amigos ao pôr-do-sol. O céu ficou de súbito vermelho-sangue. Eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a mureta. Havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fjord e sobre a cidade. Os meus amigos continuaram, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade, e senti o grito infinito da Natureza”.
A obra de Munch foi criticada quando exposta pela primeira vez e até aconselharam que sua exposição não fosse visitada por mulheres grávidas, tamanhas eram as agressões contidas em suas imagens. Mas o público acolheu a obra com uma emoção completamente oposta, aclamando-a como a linguagem de um novo tempo. Não havia mais retorno, “O Grito” inaugurava uma das mais fortes manifestações expressionistas e isso fez história. E é sobre histórias assim, que o mercado de arte constrói sua trajetória.
No segundo vídeo, um artista que não teve a mesma audácia de um Munch, mas que sabe como poucos reproduzir aquilo que fizeram um dia. Dois universos completamente distintos. De duas obras que são praticamente idênticas do ponto de vista técnico, mas que se distanciam imensamente de suas propostas artísticas. A original feita por alguém que transgredia e buscava novos horizontes, a cópia feita unicamente com a intenção de ganhar dinheiro.
Felizmente o tempo sabe selecionar aquilo que merece virar história.