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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ARI VICENTINI

ARI VICENTINI - Aurora - Acrílica sobre tela - 100 x 100

ARI VICENTINI - Noite - Acrílica sobre tela - 100 x 100

O ecletismo é uma virtude que permeia a vida de muitos artistas e que já esteve presente na vida de tantos outros mestres que cunharam a história da arte até aqui. Que não me deixem mentir Picasso, Klint, Michelangelo e Dali (gênios incontestáveis), que souberam usar das mais diversas linguagens para colocar em prática aquilo que seus desejos ordenavam. É essa a característica mais marcante na arte de Ari Vicentini, esse paranaense que nasceu em Maringá, em 1967, e que ainda cedo se transferiu para Curitiba. Fez muito bem o ar dessa cidade que está a quase mil metros do nível do mar, trouxe poesia e audácia para quem deseja estar nas alturas.


ARI VICENTINI - Sem título - Acrílica sobre tela - 120 x 120

ARI VICENTINI - Sem título - Óleo sobre tela - 100 x 150

A convivência com uma inspiração de todas as escalas, que é marca dessa cidade-modelo, tornou-se uma referência inevitável aos trabalhos de Vicentini. Na sua variada produção há coragem, audácia, determinação e um desejo constante de não se prender a velhas fórmulas. Definitivamente é um artista que está no endereço certo.


ARI VICENTINI - Itapoã
Acrílica sobre tela - 105 x 75

ARI VICENTINI - Pedras e Espumas no Entardecer
Acrílica sobre tela -  105 x 75

Deixo abaixo um pouco da fala do próprio artista:
Minha formação é de autodidata. Aprendi através de livros e copiando grandes mestres da pintura, como Rubens, Hals, Bouguereau, entre outros. Possuo atelier próprio desde 1989, onde pinto, ministro aulas de desenho e pintura, além de trabalhar também como ilustrador e caricaturista. Participo de salões de arte desde 1983. Em 1985 ganhei meu primeiro prêmio. Desde então tenho participado de mais de 60 exposições, dentre elas, cerca de 11 individuais. A grande maioria destas exposições foi realizada em Curitiba, poucas fora do estado, dentre elas a SABBART deste ano, na qual entrei com um autorretrato. Atualmente estou cursando filosofia, faltando cerca de um ano para completar o curso”.


ARI VICENTINI - Retrato de Vanessa em Fogo e Gelo
Óleo sobre tela - Acervo particular

ARI VICENTINI - Retrato Mistico de Amanda
Óleo sobre tela -  105 x 75

Ilustração e caricatura fazem parte do lado mais comercial de minhas atividades. Assim, tendo um trabalho mais comercial à parte do artístico, reservo à pintura o lado exclusivamente artístico do que faço. Isto me dá liberdade para arriscar e experimentar à vontade, desenvolvendo pesquisas formais que ampliam as possibilidades de criação. Sempre percebi o quanto a preocupação excessiva com o lado comercial faz com que artistas talentosos “construam” uma linguagem que satisfaça antes comercialmente do que artisticamente, muitas vezes prejudicando seu desenvolvimento como artista. Encaro a pintura como um “espaço” de liberdade absoluta, por isso nunca senti necessidade de me ater a apenas uma temática, a um único estilo, às mesmas cores, ao mesmo ritmo de pinceladas. É claro que esta opção oferece um risco, que é o de se cair em um experimentalismo vazio e quantitativo, num trabalho sem personalidade e sem a profundidade que a perseverança num só estilo aparentemente pode oferecer. Aparentemente, sim, já que esta fixação somente num estilo e a procura por “uma” linguagem pessoal corre, por outro lado, o risco de ser apenas a expressão de uma comodidade criativa e preocupação excessiva com valores comerciais”.


ARI VICENTINI - Elvis
Óleo sobre tela 30 x 40

ARI VICENTINI - Juliana - Óleo sobre tela -  60 x 60

Como resultado deste modo de encarar a produção artística,  a linguagem de meu trabalho varia. Na pintura abstrata, desde uma geometrização total até a ausência total de formas definidas. Na pintura de paisagem, desde um realismo quase hiper-realista até um estilo mais impressionista. Do retrato realista até uma mistura inusitada de figuras humanas interpenetradas com formas puramente abstratas. Ou ainda pinturas figurativas num estilo mais contemporâneo, onde há uma espécie de “subversão” de características tradicionais ou acadêmicas”.


ARI VICENTINI - Limiar urbano - Óleo sobre tela -  105 x 225

ARI VICENTINI - MOB - Óleo sobre tela -  75 x 315


Assim como Curitiba, uma cidade com uma dualidade latente, que não nega as origens de cidade de interior e ao mesmo tempo se lança como modelo de uma melhor possibilidade futura, os trabalhos de Vicentini também seguem em dupla via: uma que fala de um artista que não nega raízes e respeita métodos e técnicas, e outra que fala de um artista no sentindo mais ideal da palavra, que está sempre aberto a novas possibilidades para criação.


ARI VICENTINI - Autorretrato
Acrílica sobre tela - 30 x 40

PARA SABER MAIS:

domingo, 20 de novembro de 2011

ARTHUR NÍSIO

ARTHUR NÍSIO - A travessia
Óleo sobre tela - 86 x 116

As histórias de alguns artistas estão bastante ligadas às suas terras de origens, que ficamos sem saber ao certo o que é mais importante, o lugar que deu origem à obra, ou a obra que eternizou o lugar. Parece que por uma questão ética, ou de ideal mesmo, é impossível desvencilhar algumas associações artistas/lugares. Arthur Nísio e o Paraná são uma dessas agradáveis simbioses. Quando se aprofunda na história de um, acaba-se inexoravelmente desvendando a história do outro.

ARTHUR NÍSIO - Arranjo - Óleo sobre tela - 76 x 100

Independente da veia latente de regionalidade que emana da obra de Arthur Nísio, somos meio que apanhados pelo conjunto de sua obra. Ela é tão sincera e real, que parece dividirmos aqueles lugares em algum canto escondido de nossa memória. Um canto de quintal que guarda um cheiro de infância, a lida rotineira de seus personagens, que parecem a nossa própria lida... Tudo, tudo ali representado com tanta energia e vigor, que fica impossível não se envolver por sua obra.

ARTHUR NÍSIO - Animais no bebedouro - Óleo sobre tela - 40 x 50

Arthur José Nísio nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 15 de maio de 1906. Essa interrelação que foi mencionada acima, do artista e sua terra, já tinha antecedentes que impediriam que as coisas se formassem de outra maneira. Não só a sua história, mas a de toda a sua família, tem uma ligação estreita com a história do Paraná. Seu avô paterno, um mecânico italiano, e seu avô materno, um ferreiro alemão, chegaram ao Brasil contratados pela empresa francesa encarregada da construção da estrada férrea Curitiba-Paranaguá. No alvoroço dessa que foi uma das obras de engenharia mais importantes da história do estado, estreitaram-se os laços das famílias Nísio e Reimann. Jélio Reginato Nísio e Reimann Nísio, pais de Arthur, tiveram seis filhos. Nos tempos difíceis das duas primeiras décadas do século XX, mudaram-se para Porto Alegre, em 1918, mas já em 1923, regressaram à Curitiba.

ARTHUR NÍSIO - Paisagem com animais e barco - Óleo sobre tela - 68 x 94

A aptidão nata ao desenho concedeu ao jovem artista, uma bolsa de estudos. Já aos 17 anos, encaminha-se para o Instituto de Belas Artes, em Porto Alegre. Era apenas o começo da trajetória de um dos maiores artistas do estado do Paraná. Em 1924, retornando a Curitiba, Nísio torna-se aluno do ateliê de Lange de Morretes, artista temperamental, mas muito inteligente e tecnicamente preparado. Entre 1925 e 1927, também freqüenta o ateliê de João Turin, para se especializar em escultura e modelagem.

ARTHUR NÍSIO - Vila de Nossa Senhora dos Pinhais - Óleo sobre tela
Povoado que deu origem à Curitiba

Sua primeira exposição se deu entre os dias 1 e 16 de maio de 1928, onde apresentou desenhos, xilogravuras e paisagens. Apesar de bem recebidos, os trabalhos não vendiam. Nísio se desestimulava, e quando tudo parecia perdido, recebeu a visita de um casal que logo comprou duas telas. Ao olhar no livro de assinaturas, constatou que se tratava de Dr. Afonso Camargos, governador do estado, e sua esposa. Um belo incentivo, que lhe trouxe bons frutos futuros.

ARTHUR NÍSIO - A grande família - Óleo sobre tela - 91 x 110

Aos 22 anos, procurando evoluir em seus estudos, parte para a Alemanha. Muitas visitas a museus e galerias faziam parte constante de sua rotina. Mas, foi com Max Bergmann, da Academia de Belas Artes de Munique, que herdou um traço inconfundível na pintura de animais, tanto que Arthur Nísio é conhecido mundialmente como um dos mais preciosos talentos da pintura animalista. Também estudou nesse período: figuras, nus, paisagens e naturezas mortas. Em 1934, na Renânia Palatinada, freqüentou conferências sobre “A figura na paisagem”, proferidas por Homeisen e Eugen Osvald.

ARTHUR NÍSIO - Rebanho de ovelhas
Óleo sobre tela - 95 x 122 - Coleção Tribunal da Justiça

Arthur Nísio se encontrava na Alemanha em pleno auge da Segunda Guerra Mundial. Não foram momentos fáceis. Teve que enviar 5 obras para análise da Gestapo e recebeu autorização para que pudesse continuar seu trabalho. Diferentemente da crise social e política que reinava no continente europeu, começou a obter sucesso com seus trabalhos. Participou de diversas exposições em várias cidades alemãs e em 1938, recebeu o convite para participar de uma exposição organizada pela nova prefeitura de Landau Rhein-Pfalz, onde recebeu inclusive uma sala especial. Com apenas 1 hora de exposição, já havia vendido todas as suas 5 telas. Um grande êxito, afinal estavam expostos mais de 2 mil trabalhos. Mesmo em um aparente estado de tensão social, pela guerra que se intensificava cada vez mais, viveu um período muito produtivo, vendendo tanto quanto executava e nunca conseguindo atender a tantos pedidos. Casa-se em 1940 com Katharina Nísio. Os horrores começaram mais severamente em 1942. Bombardeios forçaram suas saídas de Munique. Em meio a todo esse caos, nasce Gudrun, a filha do casal. Em 1943 se viu obrigado a abandonar a arte e trabalhar nas lavouras, afinal toda mão de obra era necessária, para alimentar os fronts da guerra. Após 1944, fugiu para próximo à Munique, numa localidade de nome Haimhausen. Perdera tudo que havia acumulado nos seus 18 anos de Europa. Da Alemanha foram enviados para um campo de refugiados na França, de onde seriam transferidos para a América do Sul. A vontade de continuar com a arte era tanta, que chegou a vender o sobretudo em Paris, para comprar tintas e pincéis. Desenhou e pintou de tudo, até trabalhos para joalherias. Mas queria imensamente voltar ao Brasil.

ARTHUR NÍSIO - Jardim - Óleo sobre tela - 60 x 80 - Coleção particular

De volta ao Brasil em 1946, recomeça dificilmente em Curitiba. A família foi a âncora no momento que mais precisava. Perdeu tudo de material que havia conquistado, mas voltou com uma bagagem de conhecimentos que jamais teria conseguido, sem as experiências em terreno europeu. Não lhe faltavam admiradores. Seu trabalho já se consolidava com uma força insuperável. Voltou para, definitivamente, marcar a história das Artes Plásticas no Paraná. Participou da Fundação da Escola de Música e Belas Artes do Paraná e ocupou várias cadeiras de ensino daquela instituição. Sempre sonhou com uma arte paranaense própria e coesa para todos os artistas de sua geração. Faleceu no dia 26 de abril de 1974, depois de vários meses de internação. Seus pincéis só foram abandonados duas semanas antes de sua morte.

ARTHUR NÍSIO - Bois e boiadeiro - Óleo sobre tela - Acervo FIEP

Dono de uma pincelada inconfundível e de um bom gosto extremo para as colorações, Nísio aliou técnica com expressão. É certamente um dos maiores nomes da arte desse país.

ARTHUR NÍSIO - Animais no rio - Óleo sobre tela - 94 x 130

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PARA SABER MAIS:
Excelente livro sobre biografia e obra do artista.
Lançado pela Posigraf Editora Ltda, em 2003,
com textos de Angela Wank.