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domingo, 1 de janeiro de 2012

A FIGURA HUMANA NA ARTE

CARAVAGGIO - Narciso
Óleo sobre tela - 122 x 92 - 1599
Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma

Essa obra do Caravaggio é mais que apropriada para iniciar essa matéria. Narciso é um personagem da Mitologia Grega, um rapaz com beleza sobrenatural, que apaixonava a todas as pessoas que o olhavam, por isso foi obrigado a viver isolado em uma ilha, para que ninguém corresse o risco de cair em tal tragédia. Um dia, ao se encaminhar para um canto de rio, para beber água, viu seu reflexo e não conseguiu sair mais dali, morreu apaixonado pela própria imagem. É uma narrativa interessante sobre a atração que o homem tem sobre si mesmo, imagem um tanto quanto exagerada nesse caso, é claro, mas uma pequena demonstração de como a sua própria figura o atrai.

Vênus - Pré-história

Desde quando começou a se manifestar artisticamente, representar a si próprio nas obras que produz tem sido uma prática milenar e constante. Nas cavernas, o homem já se incluía nos primeiros desenhos, e a escultura de uma “Vênus” paleolítica, é uma das mais antigas expressões artísticas retratando uma mulher. Tem as formas exageradas, o que deve ser uma alusão direta à fertilidade, e carrega uma beleza plástica com leitura quase contemporânea. Assim, “apaixonado” pela própria imagem, o homem vem se expressando nas mais diversas formas e nos mais diversos efeitos e técnicas. Chegou a patamares de perfeccionismo inimagináveis e produziu deformações que exibiram uma auto imagem nunca antes pensada. Faremos uma breve viagem pelo tempo, quando essa auto admiração começou a ganhar proporções relevantes.

Arte egípcia

Com exceção de algumas antigas civilizações e de alguns pouquíssimos povos da atualidade, todos os grupos humanos sempre produziram imagens de si mesmos. Seja apenas para ornamentar ou para narrar suas trajetórias. Os egípcios criaram uma imagem relativamente avançada para seu tempo. A arte nessa época era restringida aos palácios e templos, pois os únicos empregadores de artistas, se não eram governantes, eram sacerdotes. Conseqüência disso, é que grande parte da produção artística egípcia daquele período, consistia na representação de oferendas a deuses ou em monumentos comemorativos das façanhas de seus governantes. Convivendo em uma sociedade rica, os artistas egípcios eram, contudo, quase anônimos. Subordinados aos trabalhos a que eram designados, viam suas personalidades se desaparecerem atrás de suas obras. É praticamente impossível identificar os artistas que compunham tais obras. Um fato interessante na arte pictórica egípcia, em todas as suas fases, é a maneira racionalista como abordam sua técnica. A forma completamente singular de suas imagens é realçada pela falta de perspectiva, à inexistência de escorços e uma abordagem quase sempre primitiva. Estão sempre representadas em posição lateral, o que confirma que em todo instante, não estavam intencionados em ludibriar a informação desejada, criando efeitos naturalistas em suas produções.

Vênus de Milo
Mármore Parian - 202 cm de altura - entre 130 e 120 a.C.
Museu do Louvre, Paris

A Grécia inaugura a grande fase da arte naturalista na história da humanidade. Acompanhado do desejo de reproduzir cada vez mais fielmente a figura humana, surgiu a valorização dos artistas, numa esfera mais individual e mais parecida com a que conhecemos hoje. Prova disso é que já em 700 a.C. as obras comecem a ganhar assinaturas. Mas é no século V a.C. que o Classicismo ganhou ares de sofisticação. Não bastava apenas representar realisticamente a figura humana, os escultores se embrenhavam na procura de uma beleza que fosse o cume da proporção e da ordem. O ideal de beleza grego é valorizado até hoje em todas as principais academias de desenho. O fim da arte helênica dá início ao predomínio da Arte Romana, que inicia com uma excessiva valorização da escultura e vai acrescentando, paulatinamente, a pintura em suas representações. A figura humana conquista a era dos retratos. Já não era mais desejada apenas uma representação de escultura ou pintura quaisquer. Quem as encomendava queria agora ver a sua própria imagem.

RAFAEL - Transfiguração
Óleo sobre tela - 405 x 279,5  - 1520
Museu do Vaticano

MICHELANGELO - A criação de Adão
Afresco - 280 x 570
Capela Sistina, Vaticano - 1510

Há um certo conflito, e até diria uma desnecessária tendência, em posicionar o momento verdadeiro de surgimento do período Renascentista. Muitos o iniciam à partir do Iluminismo, mas é mais coerente acreditar que as coisas não surgiram todas no século XV, mas que começaram a sofrer sérias transformações no século XII. Porém, é no Quattrocento italiano que a arte, principalmente a pintura, assina uma linha divisória nitidamente perceptível da arte medieval, assumindo uma extraordinária liberdade na composição e ganhando graça, elegância, perdendo o peso estatuesco e se impregnando de linhas cada vez mais harmoniosas em sua forma. Enquanto a característica básica da arte gótica é a justaposição; como se a obra possuísse várias mini-obras inseridas dentro dela; no Renascimento todos os conceitos de composição são revistos. É à partir daí que nasce a idéia de conjunto, de um quadro sendo visto pelo todo, e até mesmo de uma construção abrigando vários elementos representarem um motivo coeso e interrelacionado. A figura humana é tratada com respeito, mas não é absolutamente mais importante que o ambiente que a integra. O Alto Renascimento culmina nas mãos mágicas de Rafael, Da Vinci e Michelangelo. Todos comprometidos em representar a figura humana no mais alto ideal que essa já pode receber. Serão necessárias muitas outras matérias para descrever essa importante fase da história da arte.

FRANÇOIS BOUCHER - Nu em um sofá
Óleo sobre tela - 59 x 73

No Barroco, o que havia de frio, intelectual e calculista do final da Renascença, deu lugar a uma arte sensual, emocional e facilmente assimilável. A figura aqui, ganha mais movimento e assume ar mais teatral. Também assume ares mais naturalistas, e tende cada vez mais, a agradar o gosto de uma grande massa de novos consumidores. A arte começa a deixar o ambiente palaciano e a se integrar na vida provinciana, até ser suplantada definitivamente pelo subjetivismo burguês, nascendo assim o Rococó, que traz a representação artística para uma qualidade mais delicada e mais íntima. É a era que se instaura a representação de imagens com “carnes fartas”, bem contraditórias do ideal de beleza atual.

JACQUES-LOUIS DAVID - Mulheres sabinas
Óleo sobre tela - 385 x 522 - 1799
Museu do Louvre, Paris

A Arte, assim como qualquer outro segmento, é cíclica. Comportamentos vão e voltam por motivos variados. Aos excessos de liberdade que o Rococó parecia sucumbir, surgiu uma nova corrente, alimentada pelos grandes governantes, e que visava restabelecer o ideal das artes clássicas. O Neoclassicismo perdurou por um bom tempo e deu origem ao Romantismo, que avançou influenciando até a metade do século XIX. Nesse período, a figura humana é revisitada em ideais que lembram os gregos e romanos, mas foi perdendo força, assim que o século XIX avançava.

EDOUARD MANET - Almoço na relva
Óleo sobre tela - 208 x 265,5 - 1863
Museu d'Orsay, Paris

VAN GOGH - Autorretrato com orelha enfaixada
Óleo sobre lona - 51 x 45

Considero o século XIX o divisor de água na História da Arte. É nele, que de uma forma abrupta, se fazem todas as rupturas com os estilos e tendências. Da liberdade assumindo seu significado mais completo da palavra, prenunciando todas as grandes revoluções vivenciadas no século XX. A representação da figura humana, à partir daí, é a interpretação pura e pessoal de cada artista. Começa com o Naturalismo e Realismo, liberta-se definitivamente com o Impressionismo e vai avançando os anos em visões Expressionistas, Surrealistas, Modernistas e Concretas. Já não nos mostram como somos visualmente, mas como nos comportamos a nível emocional. Chegamos ao presente e continuamos a nos procurar.

AMADEO MODIGLIANI
Retrato de Jeanne Hebuterne em um grande chapéu
Óleo sobre tela - 54 x 37,5 - 1918

ALBERTO GIACOMETTI - Homem caminhando

ANDY WARHOL - Marilyn - Técnica mista - 1967

DAMIEN HIRST - Ressurreição
Instalação

Viemos até aqui tentando entender um pouco do passado. Dizem que essa é a melhor maneira de melhorar o presente, e parece ser mesmo uma verdade imutável. Continuamos a nos representar, fascinados pela nossa própria imagem, assim como Narcisos apaixonados por si mesmos. A figura humana será sempre a mais alta busca na representação artística que produzimos. Jamais findará para o homem, a eterna busca de se encontrar.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

GIORGIO VASARI

GIORGIO VASARI - Autorretrato
Óleo sobre tela

Nos tempos de hoje, não é muito difícil a um artista mostrar o seu trabalho. Com recursos materiais relativamente simples e um pouco de paciência, sua obra pode correr o mundo numa velocidade incrível. Além da divulgação, os contatos com outros artistas e eventos diversos, o colocam em sintonia com o meio produtor de arte e com o grande público consumidor. Ainda tem a assinatura, um símbolo que representa tal artista. A associação da assinatura do artista com o seu produto, que ganhou ênfase no século XIX, deixou mais fácil a identificação e a comercialização dos trabalhos, mesmo que o artista não venha a se empenhar muito em ser reconhecido.
Mas não foi sempre assim! Houve um tempo em que produzir algo e sair do anonimato envolvia grandes esforços: um bom mecenas, estar no local certo e na hora certa; e claro; uma regra que não muda muito, ter uma boa proposta. Antes do advento do Capitalismo, em que arte e negócio não tinham o peso que tem hoje, a assinatura era um detalhe que passava despercebido por muitos artistas. Muitas são as obras sem identificação, que dão um nó na cabeça dos especialistas para suas identificações, e poucos eram os artistas que se preocupavam em fazer seus próprios registros, isso mesmo, quando era possível fazê-lo. Por isso, tão importante quanto terem existido bons artistas e suas imortais obras, foi existirem pessoas com a intenção e preocupação de revelá-los para a posteridade. Historiadores que se preocuparam em narrar como era a vida de tais artistas, como era o meio em que viviam e principalmente, como eram suas obras e a aceitação delas em seus períodos. Um dos maiores colaboradores nesse sentido, na História da Arte, chamava-se Giorgio Vasari.

GIORGIO VASARI - A deposição da cruz
1540

GIORGIO VASARI - A natividade
Óleo sobre tela

Vasari foi um arquiteto e artista italiano de respeito, deixando grandes obras em pinturas e grandes projetos arquitetônicos. Era preocupado com o que via acontecendo à sua volta, mais até do que com seu próprio trabalho. Grandes artistas em suas melhores fases produtivas, realizando o que talvez sejam as obras mais significativas da História da Arte, ou pelo menos, de um importante período dela. Vasari começou a anotar e descrever com detalhes, as particularidades de artistas e suas obras, as influências de tais trabalhos sobre os novos artistas que se formavam, e os movimentos e escolas que já se organizavam em determinadas cidades e determinadas regiões. Extasiado com as novidades que via, acontecendo com tanta profusão e com tanta qualidade, criou o conceito de “Rinascita”, ou “Renascimento”, como conhecemos hoje. Ele viu que nos três séculos anteriores ao seu e inclusive no qual ele vivia, a Europa saía de uma fase de apatia e “treva” artísticas, caracterizada por quase toda a Idade Média, num período de quase mil anos, desde a queda do Império Romano.

GIORGIO VASARI - Anunciação
Entre 170 e 1571

No ano de 1568, portanto quase 500 anos atrás, ele publicou a sua obra-prima: “Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos”. Foi com esse estudo, feito sobre pesquisas dos artistas de três séculos, que ele criou o que hoje conhecemos como “Renascimento”. Ele iniciou a catalogação dessa fase com Giotto e atinge o ápice de sua pesquisa em Michelangelo. Elisa Byington, historiadora de arte, não hesita nem um pouco ao afirmar: “Devemos a Vasari todos os conceitos que explicam o que foi o Renascimento. A História da Arte não passa de notas de rodapé de sua obra”. Como o primeiro historiador da arte, registrou a biografia dos principais artistas do Renascimento. “Gótico” era uma expressão que ainda não existia e foi impressa, pela primeira vez, em seu livro. Em 1550, ele já publicara tal trabalho, não só com biografias dos artistas, mas já com valioso e elaborado tratado de técnicas utilizadas por eles. Apenas 18 anos mais tarde, é que a edição foi completamente concluída, sendo acrescida com retratos de todos os biografados.

GIOGIO VASARI - O profeta Eleazar
Óleo sobre madeira - 40 x 29 - 1566
Galleria degli Uffizi

GIORGIO VASARI - Hefeistos
Óleo sobre tela - entre 1540 e 1560
Galleria degli Uffizi, Florença

Giorgio Vasari nasceu em Arezzo, a 30 de julho de 1511 e faleceu em Florença, a 27 de junho de 1574. Ainda bem jovem, torna-se discípulo de Guglielmo de Marsiglia. Foi Luca Signorelli, artista e também seu parente, quem o indicou. Com ainda 16 anos, é enviado a Florença pelo cardeal Sílvio Passerini, onde estuda no círculo do estúdio de Andrea Del Sarto e de seus ajudantes, Rosso e Jacoppo Pontormo. Também estudou Humanismo nesse período, sendo o curso de muita utilidade para a condução de suas pesquisas. Num desses estudos, ficou conhecendo Michelangelo, cuja obra influenciou bastante o estilo de Vasari. Visitando Roma, em 1529, estudou os trabalhos de todos os artistas do que ele próprio denominou “Alto Renascimento”.


GIORGIO VASARI - Perseu e Andrômeda
Entre 1570 e 1572

GIORGIO VASARI - O estúdio do pintor
Afresco - Museu da Casa Vasari, Arezzo, Itália

Tanto em Florença quanto em Roma, trabalhou regularmente para os Médici. Também realizou várias obras em Arezzo e Nápoles. Como artista, seus mais importantes trabalhos são a parede e o teto do Palazzo Vecchio, em Florença, e os afrescos incompletos no Domo de Santa Maria Del Fiore, a famosa catedral de Florença. Mas, profissionalmente falando, seu maior êxito foi como arquiteto. São grandes obras nessa área: a “loggia” do Palazzo degli Uffizi, ao lado do Arno, o planejamento urbanístico do longo e estreito jardim que funciona como praça pública, e também a longa passagem que conecta essa construção com o Palazzo Pitti, através da “Ponte Vecchio”.

GIORGIO VASARI - Galeria degli Uffizi
Florença - entre 1560 e 1581
Projeto arquitetônico

Cometeu alguns equívocos também. As igrejas medievais de Santa Maria Novela e a Basílica de Santa Croce foram prejudicadas com suas atividades, pois delas retirou várias partes que viriam a integrar seus trabalhos, além de tê-las modificado a estética conforme o estilo maneirista, que era típico de seu tempo.
Caso não muito comum na arte, Vasari teve em vida, alta reputação e fez fortuna. Em 1547, construiu uma mansão para si, em Arezzo e dedicou uma boa parte de seus dias a decorá-la com obras de arte. Hoje, a casa abriga um museu, que tem como proposta preservar a sua memória. Mas viveu nela por apenas três anos, quando novos compromissos de trabalho o obrigaram a mudar para Roma e Florença. Foi eleito para o Conselho Municipal de sua cidade e também ocupou ali, o cargo supremo de “gonfalonier”.

GIORGIO VASARI - Salão do Velho Palácio, Florença
Afresco

Entre 1563 e 1565, realizou vários afrescos nas paredes do Salão dos 500, em Florença, e estes narravam sobre “A Batalha de Anghiari Vinci”, a célebre pintura de Leonardo da Vinci, que não chegou ao nosso tempo. Há ainda uma busca ativa para que se encontre a exata localização dessa obra de Leonardo. Há quem diga que ela esteja debaixo dos próprios afrescos de Vasari. Foi também em 1563, que fundou a Accademia del Disegno, em Florença. O grão-duque local e Michelangelo tornaram-se líderes da instituição, e cerca de 36 artistas se tornaram membros dela.


Edição de Vidas dos mais excelentes pintores,
escultores e arquitetos.


A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que possui em seu acervo a primeira edição de “Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos”, iniciou, no último 26 de agosto, uma exposição abrangente sobre a vida e obra desse grande personagem das artes, que criou o “artista moderno” e que nos possibilita hoje, o esplendor narrado com todos os grandes artistas de seu tempo.