Ela voou porta adentro
Sorrindo de minha ânsia
Trouxe cores de minha infância com o orvalho
De saudades daquela rua descalça.
Atirei o pau no gato,
Mas o gato tocou meus ombros,
Minhas mãos arrombou
Gatunou meus passos,
Robou-me a fome,
Arrepiou meus pelos.
Revoou meus pensamentos.
Diante de mim dançou e pousou sobre o lençol
Fui ao Itororó beber água e não achei,
E colei bandeirolas no leilão de maio.
Minhas palavras engoliu, meus olhos irritou.
No pique esconde,
Escondeu-se no dobrado da banda,
Jogando amarelinha, não dissolveu em palavras,
Possuiu-me.
Deixou-me soluços,
Sou bandido, sou mocinho de vassouras,
Não me quis poeta.
Seu hálito ventou amoras roxas sobre bolinhas de gude,
Que teceram meu sangue.
Enganou minha mãe mergulhando no ribeiro doce,
De brincadeiras peladas e girinos.
Tropeçando sapatos, por detrás da porta,
Recostou-se a mim, abduziu-me.
Bebeu o ar, e sua trilha sonora tocou meu rosto,
Sem dizer seus nomes.
Caí no poço...
Apertou meu coração, não conversou comigo,
Não falou de amor, passou anel.
Sem tocar nas dores,
Com atiradeira revolveu minha biografia,
Estampou paredes com pedaços de retratos desbotados.
Voou sorrindo porta adentro de minha infância,
Levando nos olhos,
Gotas de orvalho de saudades,
Daquela rua descalça.
STEVE HANKS
Nas sombras do passado se faz o futuro
Aquarela
Coleção particular
