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terça-feira, 8 de maio de 2012

AQUELA MULHER...


Mais um conto enviado por José Geraldo de Araújo Castro, um colaborador do blog, quase que mensalmente.
Texto suave e bem provocativo.


VICENTE ROMERO REDONDO - Olesya - Pastel - 92 x 137

Na varanda a confortável rede me envolveu, entre suaves balanços, naquela ensolarada e quente tarde de verão.
Entre balanços, vi passar aquela mulher e admirei sua silhueta esguia.
Os seus fartos, delicados e finos cabelos, esvoaçantes na altura do ombro, permitiam que fossem acariciados suavemente pela brisa morna vinda do mar. Aquela mulher, de rara beleza, de rosto esculpido pelo deus da beleza, destaca caprichosamente, entre tantas, reduzindo as outras a coadjuvantes distantes. Será que seus olhos são turquesa, das cores paradisíacas dos mares helênicos? Ou será que são verdes, do brilho esfuziante das águas tropicais? Porém, podem ser também, de vistoso e mais fino ébano. E se eles são castanhos, da mais discreta folha-seca? Paralisado, seu brilho intenso não me deixou perceber.  Só sei que são lindos. São duas estrelas brilhantes, da mais pura vivacidade, fixados em uma constelação única e rara. Aquela mulher, que tem a boca delineada de um vermelho vivo, envolve e desperta meu pensamento libertino, repentinamente, mudando meu rosto pálido numa tonalidade rubra.  Quando seus lábios abrem, mostram um brilho inigualável de pérolas radiantes anunciando uma esfuziante e envolvente alegria. Aquela mulher, de braços longos e torneados, são ornados e completados com mãos delicadas, unhas longas e emolduradas em uma pintura discreta e de suave brilho. Aquela mulher, com um lindo vestido de  seda estampado, oferece aos meus olhos ávidos, através do decote insinuante e generoso, o contorno de seus seios exuberantes arfando suavemente no ritmo cadenciado de sua caminhada. Aquela mulher, de cintura delgada, quadril delineado, pernas longas e pés delicados, igualmente com unhas pintadas, ostentando a beleza de Vênus, não caminha, desfila. Anda suavemente com naturalidade consciente de sua elegância e graça. Aquela mulher, de corpo dourado sem a imposição natural do sol, inunda com sua sensualidade meus olhos pasmos de contemplação e êxtase. Ela, com seu jeito especial de ser, convida meus instintos mais primários para permanecerem atordoados, mas em pleno estado de prontidão.

VICENTE ROMERO REDONDO - Mirando
Pastel - 55 x 46

Curtindo o sol na praia, indo ao cinema, chegando ao restaurante ou simplesmente passeando  despreocupadamente na avenida, sempre desperta a atenção pela sua radiante beleza. Aquela mulher de voz calma, jeito suave de expressar, insinuante, amante ardorosa e principalmente inteligente, arrebata de forma definitiva o meu coração.  A sua estética perfeita me convence de que é uma mulher que resvala a perfeição. Aquela mulher cúmplice, que me entende quando não preciso dizer nada, é o oxigênio que respiro, meu álibi indispensável, minha necessidade constante.        
Aquela mulher, que chegando comigo ao hotel, gira a fechadura da porta, me faz deixar lá fora o burburinho de mais um agitado e corriqueiro dia. Leva-me com delicadeza para a cama de lençóis muito alvos e me envolve com carícias, abraços e beijos, conduzindo-me num levitar de êxtase transformando aquela noite com seu ilimitado e generoso amor num instante apenas perdido no tempo. Envolvido em seus braços, não percebo o tempo, fico convencido de que, a felicidade é plena no desfrutar daquele momento único. A alegria esfuziante de seu rosto, colado ao meu, num desejo incontido me conduz numa viagem alucinada de rostos suados e peitos ofegantes, entre infindáveis e insaciáveis carícias tirando os brancos lençóis e esquecidos no canto. O encantamento daquele momento sublime, faz daquele espaço um lugar único. Aquela mulher é especial em tudo. Aquela mulher diferente, preenche meus anseios mais ocultos e profanos, com sua companhia constante, aconchego, charme e sensualidade.  Aquela mulher, sonho, desejo e ambição de todo homem, é o mais puro deleite meu.
O vento impetuoso acompanhado pelas nuvens negras de uma noite escura, sopra mostrando fúria e trazendo granizo. Uma pequena pedra gelada acertou em cheio o meu sonolento rosto. A rede balançava com ímpeto. Acordei sentindo o ardor e o gelo escorregando rapidamente pelo meu pescoço. Apesar do vento e da chuva forte demorei ainda para me levantar. Sorri e refleti um pouco sobre o surpreendente e delirante sonho.
 Em seguida, com o rosto parcialmente molhado, o coração acelerado, os pés no chão e a cabeça nas nuvens rejeitando voltar a realidade, conclui que a mulher que vive comigo, me ama, me encanta, me acolhe no seu colo quente, me anima nos momentos de desânimo, alegra nos momentos felizes, acompanha-me de perto, me faz acreditar que sou o melhor dos homens sem sê-lo, ignora corajosamente meus inúmeros defeitos enaltecendo virtudes que não vejo,  que eu amo mais do que tudo, sem admitir,  e  que não posso perder,  é  fruto  do meu alucinado devaneio  e a mais pura e sentida ilusão.

José Geraldo de Araújo Castro   -   maio de 2012

VICENTE ROMERO REDONDO - Uma pose - Carvão - 46 x 61

sábado, 24 de março de 2012

VICENTE ROMERO

VICENTE ROMERO - Anotações - Pastel - 54 x 65

VICENTE ROMERO - Primeiras luzes da manhã - Pastel - 60 x 73

No século XVI, quando foram desenvolvidos os primeiros bastões de giz pastel; derivados do giz natural para desenho; eles eram obtidos apenas em três cores: branco, preto e vermelho-terracota. Fico imaginando no contentamento de Federico Barocci; um dos primeiros artistas a utilizar essa técnica como manifestação principal de sua arte; se pudesse visualizar quantos matizes e efeitos são conseguidos pelo artista espanhol Vicente Romero Redondo, nos dias atuais.

VICENTE ROMERO - Reflexos - Pastel - 92 x 60

VICENTE ROMERO - Mediterrâneo - Pastel - 100 x 70

Ao se misturar o pigmento em pó com um aglutinante (como por exemplo, água que se ferveu com cevada, formando uma resina ou goma), obtém-se uma pasta, que ao ser modelada em cilindros ou bastões em formato retangular, dá origem ao giz pastel. Ele é geralmente utilizado sobre papel e pode produzir diversos efeitos, desde linhas nítidas e bem definidas até as mais sutis nuances. Usa-se um verniz fixador para que não se solte com facilidade da superfície onde foi fixado. O emolduramento exige uma proteção de vidro. Essa técnica obteve muita popularidade no século XVIII, principalmente com Maurice-Quentin La Tour, que executou retratos extraordinários, e foi praticamente ressuscitada pelos impressionistas. No século XX, o pastel foi ainda somado a outras técnicas como óleo, guache e têmpera.

VICENTE ROMERO - No jardim - Pastel - 65 x 50

VICENTE ROMERO - Garoto - Pastel - 55 x 46

O giz pastel andou meio sumido, sendo restringido mais aos estudos e às salas de desenho. É muito gratificante encontrar artistas que revisitam a utilização dessa técnica, ainda mais com o nível técnico e graciosidade das composições, como faz o Vicente Romero. E ele tem feito isso, apesar de ter sua formação acadêmica quase toda conseguida em cima do óleo. Segundo o próprio Vicente Romero: “é uma técnica mais direta e espontânea, que oferece a oportunidade de uma delicadeza incomparável”.

VICENTE ROMERO - Ao sol - Pastel - 50 x 73

VICENTE ROMERO - Maternidade - Pastel - 46 x 61


Vicente Romero nasceu em Madri, no ano de 1956, e se graduou pela Faculdade de Belas Artes de San Fernando, em Madri, no ano de 1982. Atualmente reside na Costa Brava, onde está desde 1987. Certamente é a luminosidade costeira do Mediterrâneo que tanto influencia para os belos efeitos que consegue em sua obra. Há um romantismo nato que emana de suas figuras, quase sempre plácidas e em poses muito bem equilibradas e elaboradas.

VICENTE ROMERO - Uma pausa na leitura - Pastel - 60 x 70

VICENTE ROMERO - Uma pausa na leitura - Pastel - 60 x 70

PARA SABER MAIS: