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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

OURO PRETO

JOSÉ ROSÁRIO - Vista de Ouro Preto
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2007
Acervo de Waiderson Liberato

Numa das últimas vezes que estive em Ouro Preto, cheguei por lá numa tarde de muita chuva. De súbito, uma escuridão inesperada tornara noite o dia e a água parecia jorrar das muitas encostas de pedreiras que cercam a cidade. Muito ocasionalmente, o céu era cortado por uns relâmpagos diferentes dos tradicionais, dos quais se ficava esperando um trovão que não vinha, como se estes estivessem tão altos, que o som se desfazia antes mesmo de atingir os ouvidos da terra. Nesse momento, em que a luz fraca dos raios fazia perceber alguns contornos, dava-se a impressão que as construções e as árvores assumiam as formas de grandes monstros. Algumas árvores maiores dançavam gigantes, sopradas por uma brisa leve, mas constante. Fico imaginando que foi assim, numa dessas torrentes de aluviões que desciam as serras negras de minérios, que as primeiras pepitas encontradas deram nome ao local, havia ali um ouro diferente, um ouro preto.

MILTON PASSOS - Ouro Preto
Óleo sobre tela

AGUILON - Tempo chuvoso em Ouro Preto
Óleo sobre tela - 61 x 90

BATISTA GARIGLIO - Portal de São Francisco
Óleo sobre tela - 46 x 63

Não é fácil se equilibrar sobre as escorregadias pedras-sabão num dia como esses, e caminhar pelas ruas de Ouro Preto em dias de chuva pode se tornar uma aventura. Mas a curiosidade é grande! Ver a cidade com novos olhares, entremeados de neblina úmida e com uma luz cinza, aumenta ainda mais o “ar de antigo”, o maior impacto ao se chegar por lá. Deu ainda tempo de encontrar o Museu de Mineralogia aberto e conversar com um senhor que também parecia estar à procura do passado. Vizinho, da cidade de Mariana, veio conferir no museu, um sonho de infância que nunca realizara: estar de frente com os muitos minerais que se encontravam pelas redondezas. Foi dele que ouvi uma história sobre a origem da cidade, numa versão que já era de meu conhecimento, mas ouvi-la assim, da boca de alguém que sempre viveu por lá tem um significado diferente: trata-se da lenda de um garimpeiro que acompanhava uma das “bandeiras” que vinham de São Paulo. Ao cravar sua bateia no rio Tripuí, para matar a sede, encontrou algumas pedras negras, diferentes das tradicionais. Resolveu guarda-las e levar para Taubaté, de onde viera. Lá, suas desconhecidas pedras chegam às mãos do governador, que num ato despretensioso, leva uma das mesmas à boca, trincando-a e descobrindo assim a existência do cobiçado metal. Tão logo a notícia se espalhou, vieram diversas comitivas procurar nas proximidades do Pico do Itacolomi, o que se tornaria o desejo maior dos garimpeiros de todo país, encontrar ouro. Mas a busca não teve sucesso, apenas em 1698 que o metal foi encontrado em abundância num outro leito na região do Itacolomi.

JOHANN MORITZ RUGENDAS - Cidade Imperial de Ouro Preto (detalhe)
Aquarela e tinta nanquim - 25,5 x 36,5 - 1824

A interessante história contada por aquele senhor, levou-me a pesquisar um pouco mais. Na Casa dos Contos, no Museu da Inconfidência e até mesmo em alguns comércios mais antigos, ouvi outras histórias que se assemelham e divergem em alguns pontos, mas todas elas narraram sobre os tempos duros que se imperaram no início da vila. A primeira grande “bandeira” que se instalou na região encontrou sérios desafios para se sustentar. A atividade mineradora era intensa e não havia tempo para a produção agrícola. Com escassez de alimento, muitos garimpeiros, famintos e cansados, retornaram para as suas cidades de origem. Mais precisamente por esse fato, a ocupação da região sofreu um leve retardo. Entre 1708 e 1709, garimpeiros que já estavam ali estabelecidos, entraram em conflitos com forasteiros portugueses, baianos e pernambucanos, que tentavam se apossar das minas e garimpos. O episódio termina na Guerra dos Emboabas, com a vitória dos forasteiros, financiados por um rico comerciante português, de nome Manuel Nunes Viana. Com o que passou a ser uma maior democratização da exploração do ouro, muitos pequenos arraiais surgiram, para abrigar mineradores e servir de entreposto de mantimentos. Pelo aglomerado cada vez maior desses povoados, em 1711, o governador da capitania Antônio de Albuquerque Coelho e Carvalho cria a Vila Rica.


EDGAR WALTER - Igreja de São Francisco de Assis
Óleo sobre tela

EDGAR WALTER - Um beco em Ouro Preto
Óleo sobre tela

JOSÉ ROSÁRIO - Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto
Óleo sobre tela - 40 x 50 - 1996

Era uma curiosidade minha saber mais precisamente onde começou a se formar a cidade. Quais as formações de relevo permitiram a cidade se expandir, uma vez que praticamente não há planícies por ali. A continuação da pesquisa me levou a novos dados: O arraial que mais crescia era o Arraial do Ouro Podre, que tinha no português Pascoal da Silva Guimarães, o seu maior explorador. Parece que a ambição e as afrontas andam mesmo por ali desde os tempos mais remotos. A Coroa Portuguesa já fazia nessa época, a cobrança do quinto, que realizava a cobrança para os cofres da coroa, toda quinta parte de ouro extraído na região. Pascoal é o primeiro que se manifesta e provoca um conflito que ficou conhecido como Sedição de Vila Rica. Encerrando definitivamente com o movimento, o Conde de Assumar, então governador na época, manda prender e enforcar Felipe dos Santos, uma espécie de braço direito de Pascoal. O episódio se encerra ainda de forma mais violenta quando manda incendiar o Arraial do Ouro Podre, fato que dá ao local, até hoje, o apelido de Morro da Queimada.


EMILE ROUÈDE - Inauguração da estátua de Tiradentes em Ouro Preto
Óleo sobre tela - 100,5 x 150 -1894 - Coleção Fadel

RODOLFO WEIGEL - Casario com sobrados em Ouro Preto
Óleo sobre tela - 40 x 30

JOSÉ ROSÁRIO - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 70 x 50 - 2010

Muitas histórias assim dão um clima sinistro à cidade. Que tragédias se escondem sob cada pedra, cada tijolo, cada esquina... Que emboscadas não levaram as vidas de muitos, quantos filhos se tornaram órfãos e quantas viúvas não surgiam da noite para o dia...
Foi uma decisão acertada deixar para o outro dia, a busca por novos dados sobre a cidade. Fui ao alto de vários morros que circulam a cidade. O sol daquela manhã mostrava uma cidade limpa e brilhante. A luz é o ponto chave da cidade. Ouro Preto, como muitas cidades mundo afora, torna-se completamente diferente quando banhada com a luz forte de uma manhã de sol. Do alto de Antônio Dias, foi possível perceber melhor o corredor que deu origem à cidade. Os muitos arraiais que deram origem à Ouro Preto, eram às vezes separados apenas por um morro ou uma colina mais baixa. Os arraiais de Ouro Preto e Antônio Dias se uniram no Morro de Santa Quitéria, onde está hoje localizada a Praça Tiradentes, a área central da atual cidade. Forma-se então, uma espécie de linha longitudinal, ligando as colinas de Cabeças, Praça Tiradentes e Santa Efigênia, e mais abaixo o Padre Faria. Os arraiais de Ouro Preto e Antônio Dias dão origem ao núcleo de Vila Rica.


MAURO FERREIRA - Procissão em Ouro Preto, Igreja São Francisco
Óleo sobre tela - 75 x 46

DURVAL PEREIRA - Casario, Ouro Preto
Óleo sobre tela

WILSON VICENTE - Escola de Minas
Óleo sobre tela - 50 x 70

O ciclo do ouro teve o seu apogeu entre os anos de 1730 e 1760, sendo portanto dessa época, a grande parte das belas construções barrocas que se ergueram pela região. Muita pompa e o apogeu dos novos tempos davam à cidade o título de uma das mais ricas do país. Mas nem tudo é festa, já em 1763, com o declínio das explorações do metal, Ouro Preto já não tem os tempos gloriosos de antes. O colapso econômico é agravado com a diminuição cada vez mais crescente em se encontrar o ouro, até que toma proporções drásticas quando o Visconde de Barbacena, o novo governador de Vila Rica, tem a infeliz decisão de declarar a derrama, uma espécie de imposto compulsório sobre os atrasos no pagamento do quinto do ouro.


FERNANDO CORREIA E CASTRO - Rua do Palácio Velho, Ouro Preto
Óleo sobre tela - 46 x 38

BENEDITO LUIZI - Igreja em Ouro Preto
Óleo sobre tela - 46 x 38

JOSÉ ROSÁRIO - Igreja de São Francisco, Ouro Preto
Óleo sobre tela - 30 x 40 

Alguns fatos levaram inevitavelmente à Inconfidência Mineira, o episódio mais marcante da história de Ouro Preto. Inconformados com a situação em que se encontrava a cidade, membros de camadas mais abastadas, motivados pelos movimentos de libertação que ocorriam na América do Norte e Europa, conspiram e tramam um movimento de independência da colônia em relação a Portugal. Num ato de traição ao movimento, o coronel Joaquim Silvério dos Reis faz uma denúncia direta ao Visconde de Barbacena, em 1789. A punição veio logo em seguida. Tiradentes, uma espécie de líder do movimento, foi preso e enforcado no Rio de Janeiro. Seu corpo foi esquartejado e suas partes enviadas a vários pontos da colônia, num ato de repressão da força da Coroa portuguesa. Os padres envolvidos no episódio foram enviados para conventos em Lisboa e todos os demais integrantes, banidos para regiões distintas da África.


CLÁUDIO VINÍCIUS - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 100 x 160

JOÃO BOSCO CAMPOS - Procissão em Ouro Preto
Óleo sobre tela

SEBASTIÃO EDUARDO - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 50 x 70

Em 1823, quando é promovida à capital da Província de Minas Gerais, Vila Rica recebe o nome de Imperial Cidade de Ouro Preto. Já não é a referência econômica da colônia, mas ainda é politicamente ativa, e demonstra suas forças. A criação de várias escolas de nível superior, entre elas a Escola de Farmácia, em 1839, a primeira da América Latina, coloca a cidade novamente em evidência. Em 1897, com o planejamento e construção de Belo Horizonte, sede da nova capital mineira, novos rumos esperam a cidade. Há um esvaziamento completo de Ouro Preto, com a transferência de famílias inteiras, todo o setor administrativo e muitos núcleos econômicos.


ALBERTO DA VEIGA GUINARD - Paisagem Onírica de Ouro Preto

CARLOS BRACHER - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 81 x 100 - Coleção Geraldo Lemos Filho

SERGIO TELLES - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 79 x 98

Estando em Ouro Preto, uma das perguntas que nos intriga, é como a cidade se mantém assim, através de séculos. A resposta pode estar exatamente no período da perda da capital para Belo Horizonte. Sem a necessidade de acelerar o seu crescimento, como foi algo imposto às grandes capitais do início do século XX, a cidade se conservou assim, com feições urbanísticas da antiga Vila Rica. Curiosamente, é um fenômeno artístico que coloca novamente a cidade em ponto de destaque. Visitada pelos modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, acompanhados do francês Blaise Cendars, em 1924, Ouro Preto se torna símbolo na luta por um movimento de identidade nacional, valorizando o barroco como um estilo propriamente brasileiro e despertando para o Brasil e o mundo, a figura de Aleijadinho. Principalmente depois dessa época, e também da criação da Universidade Federal de Ouro Preto, em 1969, a cidade retomou sua vocação artística e cultural.


INIMÁ DE PAULA - Ouro Preto
Óleo sobre tela

CARLOS SCLIAR - Casario em Ouro Preto
Mista sobre tela

CHANINA - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 72 x 60

Várias medidas tomadas no passado, mantém a cidade como a vemos hoje. Em 1931, o então prefeito João Batista Ferreira Veloso proíbe a mudança das fachadas das construções. Em 1933 é decretada Monumento Nacional, em 1944 é criado o Museu da Inconfidência, e em 1980, após longo estudo feito pela Unesco, a cidade é reconhecida como um Patrimônio Cultural da Humanidade.


ELIAS LYON - Ouro Preto em dia de procissão
Óleo sobre tela

JOSÉ WASTH RODRIGUES - Paisagem de Minas
Óleo sobre madeira - 44 x 59 - 1932

RUBENS VARGAS - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 50x70


Os desafios atuais são imensos. Como qualquer outra cidade do país, Ouro Preto cresce em área e em número de habitantes. Seus arredores já não estão tão vazios como antes, e as encostas e morros vão sendo invadidos rapidamente. A mineração nas regiões vizinhas ainda é o ponto forte da economia e a Universidade continua sendo a referência cultural da cidade. É confortante passear por suas ruas estreitas, descer sem pressa um cantinho de rua, sentindo cheiro de café passado na hora. Coisas que a cidade não perde nunca e vão ficando guardadas em nossa memória. A cidade que provavelmente seja a mais desenhada e pintada do Brasil sempre se renova, e assim sobrevive ao tempo.


JOSÉ ROSÁRIO - As riquezas que rolam de Minas
Óleo sobre tela - 110 x 110
Da série: OLHAR A ÁFRICA, VER O BRASIL
Acervo de Laércio Maciel.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

GALERIA RELICÁRIO 1800

 “Quando o homem conseguir realizar em si o equilíbrio dos contrários,
quando conseguir afastar o sentido trágico da vida
 e quando a arte estiver perfeitamente integrada na vida,
ela deixará de existir, pois tudo será arte.”
                                                            Piet Mondrian (1872-1944)



Tudo começou na década 70 com o Sr. Waldemar Pedro Coelho e sua esposa Firmina Coelho, no Restaurante Relicário 1800. Através do amigo Estevão, foram incentivados a começarem a investir em obras de arte para decorar e vende-las no Restaurante. A idéia deu certo, e aos poucos foram colecionando, adquirindo e vendendo obras para diversas partes do mundo. Estima-se que ao longo desse período já foram vendidas mais de 20.000 obras para coleções no Brasil e muitos outros países.


Sacada da galeria, numa preparação para
Corpus Christi

Sílvio almoçando com Benedito Luizi

Para se ter uma noção do que a galeria representa, em meados dos anos 80 em visita a Ouro Preto, o médico Albert Sabin, almoçando no Relicário, ficou encantado com as obras de arte e acabou sendo presenteado com uma obra de Benedito Luizi. A obra foi dedicada a ele por todo o bem que fez para a humanidade... Diversos livros de visitas em nossa galeria, registram ainda a presença de presidentes, governadores, atores, empresários e admiradores de arte que já passaram e passam por Ouro Preto e não deixam de conferir a galeria.


Praça Tiradentes, endereço da Galeria Relicário 1800

Infelizmente o Sr. Waldemar Coelho faleceu no ano de 2003. Ficou para o seu filho mais novo, Sílvio Campos Coelho, o legado de seguir o sonho começado por ele, e dar sequência  de uma maneira correta, honrosa e de respeito com os artistas e demais parceiros.” Este contato com os artistas eu sempre tive através do meu pai,  pois viajávamos muito, visitando ateliers e galerias com o intuito de descobrir novos talentos. Essa é a minha maior herança...” diz Sílvio.
O que começou como hobby, hoje em dia tem um caráter profissional de uma empresa especializada no mercado da arte.

Atelier de João Bosco Campos, com recente
 aquisição da galeria

Atelier de Rubens Vargas.
À esquerda: Sílvio Campos Coelho, marchand.
À direita: Rubens Vargas.

Foi inaugurado um novo espaço de arte em Ouro Preto. A Galeria Relicário 1800 - O Encontro das Artes - vem perpetuar a sempre presente vocação artísticas e intelectual dessa tricentenária cidade mineira.


WASHINGTON MAGUETAS
Primavera em Ouro Preto
Óleo sobre tela - 60 x 80

RENÉ SIMÕES - 
Ouro Preto, década de 70
Óleo sobre tela - 40 x 30

RUDOLF WEIGEL - Ouro Preto
Óleo sobre tela - 50 x 70

Tendo em vista toda essa evolução cultural, a galeria quer continuar a abrigar e acolher vários artistas plásticos e escultores de renome no cenário artístico nacional.


CLÁUDIO VINÍCIUS - Entrada de Ouro Preto
Óleo sobre tela - 50 x 70

WILSON VICENTE - Rua Alvarenga, Ouro Preto
50 x 70

JOSÉ ROSÁRIO - Casa dos Contos
Óleo sobre tela - 30 x 40

São palavras do próprio Sílvio:
“Há décadas descobrindo talentos, vimos a oportunidade de poder mostrar ao publico obras importantes de artistas como: Estevão, Mario de Oliveira, Benedito Luizi, Délio Delpino, Katu, José Assunção , Aguillar , Edésio Esteves, J. B. Campos, José Rosário, Mauro Ferreira, Claudio Vinicius, Rubens Vargas, Rui de Paula, M. A. Moreira, W. Maguetas, João Ornellas, René Simon, Edgar Walter, Shokichi Takaki, Davi, Zizi Sapateiro, dentre tantos outros. Desta maneira estamos convencidos de que a divulgação da arte se faz cada vez mais necessária para o aprimoramento de nossa cultura. Portanto a Galeria Relicário 1800 abre suas portas em um novo espaço, mais amplo e dedicado exclusivamente a arte, para mostrar o que há de mais significativo nas artes brasileiras atualmente.


JOÃO BOSCO CAMPOS
Paisagem do Vale do Jequitinhonha
Óleo sobre tela - 70 x 100

FLORÊNCIO - Cocos verdes
Óleo sobre tela - 50 x 70

JOÃO ORNELAS - Rio Piabanha
Óleo sobre tela - 50 x 70

Façam-nos uma visita e apreciem o belo, em todas as suas formas.”

Localização: Praça Tiradentes, 114, 2° andar 
Centro Histórico de Ouro Preto
Aberto diariamente das 10:00 às 19:00 horas.


EDGAR WALTER - Riacho
Óleo sobre tela - 45 x 56

Contato: Silvio C. Coelho 
(31) 9818-5557 
(31) 3552-2536


quinta-feira, 28 de abril de 2011

ALEIJADINHO (José Rosário)


Maiores até do que as riquezas extraídas das Minas Gerais, são os tesouros talhados pela genialidade e grandiosidade dos artistas que aqui nasceram. Desenhando, pintando, esculpindo e projetando em obras o que o futuro jamais esqueceria. Os caminhos são muitos e a vasta obra dos que por aqui produziram arte, confirmam que Minas não é apenas um estado na formação política do país. Ser Minas é, antes de tudo, um “estado de espírito”.
Das muitas mãos geniais que construíram o orgulho de ser Minas, o Aleijadinho é a figura de maior expoente. E se sua história registrada não possa relatar com detalhes as fases de sua existência, suas obras o eternizaram e fazem confirmar: “um homem só é eterno quando o seu trabalho permanece”.

EUCLÁSIO VENTURA - Possível retrato de Aleijadinho

A tentativa de fazer uma biografia correta do Aleijadinho esbarra sempre em diversas interpretações. Primeiro pela desconfiança da veracidade dos fatos, segundo pelas fontes bastante imprecisas e finalmente por se tratar de um ícone da arte brasileira. E para artistas nesse nível, muitas histórias sem confirmação devem ser acreditadas com ligeira desconfiança.
A fonte mais próxima da verdade parece ser mesmo a de Rodrigo José Ferreira Bretas, que em 1858 colheu informações de pessoas que haviam conhecido pessoalmente o Aleijadinho, 44 anos depois de sua morte. Nesse grupo de pessoas se encontra a própria nora do artista. Muitos dados fornecidos por Bretas foram confirmados através de pesquisas realizadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, muitos dos quais com minúcias de detalhes que encaixam perfeitamente a muitos pontos supostos anterior a sua pesquisa. O  “Registro de Fatos Notáveis” sobre a arte e artistas da região de Minas Gerais, elaborado em 1790 pelo 2° vereador da Câmara de Mariana, a mando de D. Maria I, rainha de Portugal, foi reproduzido e consta nos arquivos de Bretas. O original, porém, está hoje  desaparecido, se é que ainda seja possível a sua existência. É um documento raro e muito importante, pois relata sobre o artista em pleno apogeu e dono  de uma reputação que o colocava como o mais importante artista brasileiro até então conhecido.


Algumas obras de Aleijadinho


A data de nascimento do Aleijadinho é o primeiro fato de sua biografia que ainda não está de todo esclarecido. No documento de citação de Bretas, 29 de agosto de 1730 é a data de seu nascimento, isto, levando em conta um documento identificado como a certidão de nascimento do artista. É uma data que gera controvérsias, pois a certidão de óbito do artista, conservada até hoje no arquivo da Paróquia de Antônio Dias de Ouro Preto, atesta que Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), faleceu a 18 de novembro de 1814, com 76 anos de idade, oito anos discordantes da possível certidão de nascimento, citada por Bretas.

Anjo com cálice da paixão, na via-sacra de Congonhas

Aleijadinho era filho bastardo e escravo. Seu pai, Manoel Francisco Lisboa teve um relacionamento com uma de suas escravas, vindo a gerar o filho artista. Outros dados pouco confiáveis e incompletos dizem respeito à sua formação escolar. Parece ter concluído o primário e algumas aulas de latim. Seu pai, arquiteto de projeção na época e o desenhista João Gomes Batista são indicados, nos relatos de Bretas, como os primeiros tutores artísticos de Aleijadinho. Não eram escultores, o que leva a crer que o Aleijadinho teve outros tutores além deles. Especula-se Francisco Xavier de Brito e José Coelho Noronha como os primeiros entalhadores considerados referências para o Aleijadinho. Gravuras de santos, quase sempre vindas da Alemanha e que se tornaram uma febre no mundo ocidental, talvez sejam outra grande referência inspiradora para os trabalhos dele, tamanha a grande semelhança de seus trabalhos com as referências mencionadas.

Nossa Senhora das Dores,  Museu de Arte Sacra, São Paulo

É possível que Aleijadinho tenha começado bem cedo o ofício do entalhamento, mas, é somente em 1766, o relato oficial de sua primeira grande obra, quando executa a importante encomenda da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. Executa desde o projeto arquitetônico até as ornamentações de fachada, púlpitos, talhas da capela-mor, lavabo de sacristia, etc.
Diversas encomendas em 1770, o fazem dirigir à Sabará, com especial atenção para a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Já em 1774 parte para São João Del Rey. Lá executa o projeto e a ornamentação da Igreja de São Francisco de Assis. Esta é tida como a obra-prima de sua carreira, juntamente com a Igreja da mesma ordem realizada em Ouro Preto.

Acima, Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto

Abaixo, detalhe da fachada

Segundo relatos, à partir de 1777 começaram a surgir os primeiros sinais de uma grave doença, que lhe deformou progressivamente o corpo e causou grandes sofrimentos no trabalho. Não se sabe ao certo qual mal o afetou até o fim de seus dias. Mesmo com progressivas dificuldades, continuou trabalhando assiduamente.

Igreja de São Francisco de Assis, São João del Rey

Nos anos seguintes, várias outras vilas coloniais recebem obras de Aleijadinho. A encomenda era tamanha que chega a realizar duas ou mais obras em cidades diferentes. Fato que conclui, ter tido o artista, um apoio irrestrito de “funcionários” do atelier. Os chamados “oficiais de atelier” sempre se fizeram presentes na maioria das obras realizadas pelo seu mestre, ajudando nos trabalhos mais secundários e até mesmo na conclusão de obras inteiras, como nos Passos da Via-Sacra no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas. É inconcebível que um único homem, com as restrições físicas que tinha, tenha executado, sozinho, tão grandiosas e numerosas obras num espaço de tempo tão curto. Essa atividade, a de “terceirizar” encomendas também foi muito utilizada por outros artistas. Exemplo mais comum é o do pintor flamengo Rubens, um dos mais prolíficos da história da Arte. O fato de envolver “terceiros” em seu trabalho, talvez contribua para a explicação de incontáveis peças espalhadas em galerias, museus e coleções particulares. Muitas delas, atribuídas a Aleijadinho, possam ter sua origem questionada. Mesmo tendo características bem particulares em seu trabalho, é bem natural que um ou mais habilidosos “oficiais”, tenham feito cópias bem próximas dos trabalhos seus.

Fachada da Igreja de Santo Antônio, Tiradentes

Interior da Igreja de Santo Antônio, Tiradentes

Com base nessa hipótese, a da ajuda irrestrita de terceiros na execução de seu trabalho, é que o conjunto de Congonhas, num total de 76 estátuas em tamanho natural, tenha sido executado num espaço de tempo relativamente curto, 9 anos. Muito mais se levarmos em conta que Aleijadinho já estava na fase final de sua vida e que as enfermidades decorrentes de sua doença já encontravam em estado avançado.

Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas

Escadaria com os profetas e Congonhas ao fundo

Os doze profetas, Congonhas

Profeta Oséias, Congonhas

Profeta Daniel, Congonhas

Auxiliado certamente por “oficiais”, Aleijadinho deixou uma produção artística invejável e estas podem ser confirmadas nos vários recibos redigidos e assinados de próprio punho, além dos livros de despesa, que se encontram ainda nos arquivos dos templos onde ele trabalhou. Toda sua obra, entre talhas, projetos arquitetônicos, relevos e estatuária foi realizada somente em Minas Gerais.
Aleijadinho não se casou, mas teve com a mulata Narcisa, um longo caso que lhe rendeu um filho.



Passos da via-sacra, no Santuário do Senhor Bom Jesus 
de Matozinhos, Congonhas

Restauração de obras dos Passos da via-sacra no
Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos

Mencionado por muitos como o "Michelangelo dos trópicos", Aleijadinho dedicou toda sua vida a um dos ideais mais nobres para todos aqueles que produzem arte. Deixou um estilo inconfundível, que se espalhou por muitas gerações de artesãos e até hoje continua fazendo escola.