sábado, 26 de julho de 2014

A ERA DE OURO DA PINTURA HISTÓRICA NO BRASIL

PEDRO AMÉRICO - A batalha do Avaí
Óleo sobre tela - 6 x 11 m - 1877 - Museu Nacional de Berlas Artes

Pode parecer clichê afirmar que a Missão Artística Francesa, incentivada com a vinda da família imperial para o Brasil, mudou o cenário artístico nacional, mas não é. De fato, foi somente com o grande apoio da equipe liderada por Lebreton, que o cenário artístico brasileiro começou a acompanhar, de uma maneira mais organizada, tudo o que ocorria principalmente em território europeu. A importância maior não foi apenas pela criação da primeira instituição de ensino (Academia de Belas Artes) para o meio cultural desse país, ela extrapola a área acadêmica. Os franceses trouxeram para todos daqui uma nova maneira de ver e sentir arte, e isso foi também incorporado àqueles que apenas admiravam e financiavam os artistas desse país.

VICTOR MEIRELLES - A primeira missa no Brasil
Óleo sobre tela - 270 x 353 - Entre 1858 e 1860 - Museu Nacional de Belas Artes

Em meados do século XIX, o Rio de Janeiro era a cidade mais importante da América Latina, posição que só seria alcançada por São Paulo na segunda década do século seguinte. O açúcar deixara de ser a base da riqueza do Império e cedia lugar ao café, que formou rapidamente uma capital opulenta, mas que não tirava do país a sua vocação exclusivamente agrícola. Não havia rebeliões que pudessem provocar qualquer desestabilidade política e D. Pedro II se tornou a figura incansável, que não mediu esforços para que as artes, as letras e as ciências tivessem seu merecido grau de evolução. Foi ele, com o auxílio dos grandes fazendeiros de café, que proporcionaram oportunidades e financiaram os grandes artistas acadêmicos de até então.

PEDRO AMÉRICO - Fala do trono
(D. Pedro II na abertura da Assembléia Geral)
Óleo sobre tela - 1873 - Museu Imperial

A pintura acadêmica, principalmente com referência histórica, ganhou um alto grau de importância nesse período, em parte porque era uma aptidão natural nas academias europeias, por outra, porque era o imperador o maior mecenas daqueles tempos. Principalmente a ele, interessava a ênfase às grandes conquistas e à vida do Império. Foi na metade do século XIX que a pintura histórica brasileira alcançaria um nível bem próximo do que era produzido de melhor nas escolas europeias, principalmente Paris e Roma. Como já foi dito antes, o imperador tanto insistia na formação acadêmica histórica, que acabou por encontrar nomes que atenderam imensamente suas expectativas. A era de ouro da pintura histórica brasileira passa principalmente pelas mãos hábeis de Pedro Américo e Victor Meirelles.

                       
À esquerda: VÍCTOR MEIRELLES - Cabeça de homem
Óleo sobre tela - 59,7 x 49,7 - 1856
À direita: PEDRO AMÉRICO - Cristo, autorretrato
Óleo sobre tela - 56 x 43 - 1902

Não deixa de ser lamentável, no entanto, que todos os grandes nomes da arte brasileira naquele período não souberam acompanhar as vanguardas que aconteciam na arte europeia. Movimentos renovadores, como o Impressionismo, aconteciam no seu ápice, quando diversos artistas do Brasil estudavam na capital francesa. Infelizmente, não souberam tirar proveito ou não puderam acompanhar tais movimentos, muitos até optaram pessoalmente por não seguir novas tendências. Muito desse comportamento se deve ao fato de que isso contrariava o gosto conservador do imperador, aquele que mantinha suas caras bolsas de estudos nas escolas europeias. Somada à tendência de explorar o academicismo histórico, aconteceu também por aqui a Guerra do Paraguai (1864 a 1870) e que tornou por assim dizer, o grande pretexto para a elaboração de cenas históricas heroicas e que glorificavam o Império. Do lado oposto da moeda, problemas antigos e aparentemente insolúveis, como a escravidão, foram raramente retratados por tais artistas.

                         
À esquerda: VÍCTOR MEIRELLES - Degolação de São João Batista
Óleo sobre tela - Museu Nacional de Belas Artes
À direita: PEDRO AMÉRICO - A noite acompanhada dos gênios do estudo e do amor
Óleo sobre tela - 260 x 195 - 1883

Lamentos à parte, o período deixaria um legado inestimável de grandes artistas e grandes obras. Muitos foram os nomes que contribuíram para as artes do país e usufruíram da benevolência do imperador, a citar alguns deles: Agostinho José da Mota, Rodolfo Amoedo, Almeida Júnior, Victor Meirelles, Pedro Américo, Oscar Pereira da Silva, Henrique Bernardelli, João Zeferino da Costa, Delfim da Câmara, Belmiro de Almeida e tantos outros. A presente matéria destaca dois, dos principais nomes daquele período: Pedro Américo e Victor Meirelles.

PEDRO AMÉRICO
Pedro Américo de Figueiredo e Mello nasceu na cidade paraibana de Areia, em 1843. Menino-prodígio com habilidades para várias atividades artísticas, aconteceu o que seria mais lógico, há aquela mão que sempre acena no momento certo para aqueles que estão sempre em vigília. Pedro Américo já era uma criança com extrema qualidade para o desenho, o que chamou a atenção de Louis Jacques Brunet, um naturalista francês que compunha a expedição que correu grande parte do Brasil. Ficou tão impressionado com o talento do pequeno artista que o levou como desenhista na missão científica. Nessa jornada, o pequeno Pedro Américo já trabalharia por 20 meses, isso com apenas 9 anos de idade.

PEDRO AMÉRICO - A batalha do Avaí
Óleo sobre tela - 6 x 11 m - 1877 - Museu Nacional de Berlas Artes

Transfere para o Rio de Janeiro, em 1854. Estuda no Colégio Pedro II, onde recebeu a visita do imperador em uma aula de retórica. Enquanto o imperador falava, Pedro Américo fez um retrato seu e isso agradou tanto a ele, que lhe valeu um ingresso na Academia de Belas Artes. Em 1856, uma enfermidade diagnosticada como cólica de chumbo, supostamente uma intoxicação pelas tintas que usava, deixaria o jovem enfermo por um bom período. Essa doença o acompanharia por toda a vida. Em 1859, patrocinado mais uma vez pelo imperador, parte para a Europa, onde frequenta a Escola de Belas Artes de Paris, entre 1859 e 1864. Estudou com nomes importantes como Ingres, Léon Cogniet, Flandrin e Horace Vernet. Não satisfeito apenas com a área artística, estudou também no Instituto de Física de Ganot e Filosofia em Sorbonne, além de formar em letras, deixando vários poemas e romances.

 À esquerda: PEDRO AMÉRICO - Moisés e Jocabed
Óleo sobre tela - 151,5 x 105,5 - 1884
À direita: PEDRO AMÉRICO - Tiradentes esquartejado
Óleo sobre tela - 1893 - Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora

Pedro Américo viajou por várias partes da Europa, até se estabelecer em Florença, onde pintaria seus famosos quadros históricos e onde se consagraria definitivamente como um dos grandes nomes acadêmicos daquele período, reconhecidamente até mesmo no Velho Continente. De retorno ao Rio de Janeiro, em 1865, viria a lecionar Pintura histórica, História das artes, Arqueologia e Estética na Academia Imperial de Belas Artes. Em 1890, elege-se como deputado na Assembleia Constituinte, onde defende projetos de alto interesse cultural, tais como a criação de três universidades, a fundação de uma galeria nacional de belas artes e a lei de propriedade artística e literária. Romancista, poeta, cientista, teórico de arte, ensaísta, filósofo, político, professor e acima de tudo um dos mais respeitados artistas brasileiros, faleceu em Florença, a 7 de outubro de 1905.

PEDRO AMÉRICO - Chaco - Óleo sobre tela

Como pintor, tinha grande atração pelos temas bíblicos, mas foram os temas históricos que lhe renderam um renome especial. Também era um exímio retratista. Dono de uma técnica sofisticada, dava grande atenção ao detalhe e trabalhava com agilidade. Diziam que seu trabalho não tinha nada de humilde, mas uma inclinação natural para a grandiloquência. Pedro Américo, para o bem ou para o mal, foi sempre um acadêmico, mas o acadêmico versátil e eclético da fase mais influente e mais contraditória do Academismo internacional, que se definia como uma complexa mescla de referências clássicas, românticas e realistas. Sua obra expressa aspirações idealistas típicas do classicismo, refletidas nos seus quadros históricos "didáticos" e suas alegorias moralizantes, no seu senso de composição hierarquizada, e até nos seus escritos de caráter humanista; sua caracterização detalhada das figuras e objetos às vezes se aproxima do Realismo, mas sua expressão estilística é principalmente romântica, o que na verdade não chegava a ser uma contradição, visto que o Romantismo foi por si mesmo uma corrente eclética e idealista e em muito devedora dos clássicos. Foi, acima de tudo, um artista completo, que amava o que fazia.

 
À esquerda: PEDRO AMÉRICO - O voto de Heloísa
Óleo sobre tela - 150 x 104 - 1880
À direita: PEDRO AMÉRICO - A rabequista árabe
Óleo sobre tela - 1884 - Museu Nacional de Belas Artes

VICTOR MEIRELLES
Victor Meirelles de Lima nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, a 18 de agosto de 1832. Filho de pai português com mãe brasileira, também despertou bem cedo para o desenho. Essa habilidade quase nata e já bastante sofisticada para sua idade, chamou a atenção do pintor argentino Marciano Moreno, que lhe deu as primeiras orientações. Sensibilizado pelo seu talento, o conselheiro Jerônimo Francisco Coelho levou-o para o Rio de Janeiro e matriculou-o na Academia Imperial de Belas Artes, com apenas 14 anos de idade, onde estuda com José Correia de Lima, que foi aluno de Debret. Já no ano seguinte, consegue uma medalha de ouro naquela instituição. A ligação com a Missão Artística Francesa foi essencial para sua carreira, de onde herdou o gosto pela pintura histórica.

VICTOR MEIRELLES - A bacante
Óleo sobre tela - 77,9 x 87,5 - Museu Nacional de Belas Artes

Com o quadro São João Batista no cárcere, obtém o prêmio de viagem e parte para a Europa em 1853. Em Roma, fica decepcionado com os mestres que encontrou por lá e ruma para Veneza, onde se encanta com a técnica (principalmente o colorido) dos pintores venezianos. Com o fim dos proventos de sua bolsa de estudos, consegue mais uma prorrogação do pensionato e segue para Paris, onde vai principalmente com a intenção de analisar as obras de Horace Vernet e Salvatore Rosa. É exatamente em Paris, que se inspira na carta de Piero Vaz de Caminha e pinta a Primeira Missa no Brasil, que consegue expor no Salão de 1861, com reconhecimento da crítica.

 
À esquerda: VICTOR MEIRELLES - A flagelação de Cristo
Óleo sobre tela - 1856
À direita: VICTOR MEIRELLES - Cabeça de velho
Óleo sobre tela

Assim que retornou ao Brasil, já festejado como um gênio, expôs a Primeira Missa e, entre muitas homenagens, recebeu do Imperador Dom Pedro II a Ordem da Rosa no grau de cavaleiro. Logo depois viajou para Santa Catarina para visitar sua mãe, o pai falecera enquanto ele estava na Europa. Permaneceu algum tempo ali e retornou ao Rio, onde foi nomeado Professor Honorário da Academia, sendo promovido pouco depois para Professor Interino, e mais tarde assumindo como Titular de pintura histórica. Testemunhos de alunos declaram seu respeito pelo artista, atestando o seu caráter impecável e sua enorme dedicação à docência, sendo considerado um professor atencioso, paciente e verdadeiramente interessado no progresso de seus discípulos.

VICTOR MEIRELLES - Batalha dos Guararapes
Óleo sobre tela - 1879 - Museu Nacional de Belas Artes

Tornou-se conhecido também pela sua devoção às causas nacionais, e por isso foi contratado em 1868 pelo governo para realizar pinturas sobre a Guerra do Paraguai, que estava em pleno andamento, num contrato que ao mesmo tempo o honrava e lhe dava boa remuneração.  Imediatamente, Meirelles deslocou-se para a região do conflito para colher impressões da paisagem e do ambiente militar. Instalou um atelier a bordo do navio Brasil, a capitânia da frota brasileira, e ali passou seis meses elaborando esboços para suas obras. Voltando ao Rio, ocupou um espaço no Convento de Santo Antônio, que transformou em atelier, e meteu-se ao trabalho afincadamente, isolando-se do mundo. Desse esforço resultaram duas de suas obras mais importantes, ambas de grandes dimensões: a Passagem de Humaitá e o Combate Naval de Riachuelo. Enquanto estava nesses trabalhos recebeu a visita da família imperial, com quem mantinha contato, o que resultou em novas pinturas e no envio do Combate Naval para representar o Brasil em uma feira internacional promovida nos Estados Unidos. No retorno da exposição, a obra foi estragada.

VICTOR MEIRELLES - Batalha Naval do Riachuelo - Óleo sobre tela - 1883

Em 1875, iniciou os esboços para uma outra grande obra histórica, a Batalha dos Guararapes, aceitando um projeto que fora recusado por Pedro Américo, que preferiu trabalhar sobre a Batalha de Avaí. Como fizera antes, deslocou-se à região onde ocorrera o conflito para conceber a composição com maior verdade. As duas batalhas foram expostas no Salão de 1879, recebendo ambos os artistas o Grande Prêmio e o título de dignitários da Ordem da Rosa, mas desencadearam a maior polêmica estética que até então se travou no Brasil. Enquanto uns reconheciam as suas habilidades superlativas, saudando-os como gênios e heróis, outros os acusavam de plágio e de passadismo. Ao mesmo tempo, formaram-se dois partidos, um apoiando Meirelles e outro Américo, na disputa sobre qual das batalhas era mais perfeita. O público leigo também se engajou e a discussão tomou os jornais e revistas durante meses, mas a despeito de receber muito aplauso, as também numerosas críticas o abateram profundamente, jogando-o num estado de melancolia que, entre altos e baixos, aparentemente o acompanharia até o final da vida. Outras polêmicas o trariam mais desgosto futuramente.

VICTOR MEIRELLES - Moema
Óleo sobre tela - 129 x 190 - 1866 - Museu de Arte de São Paulo

Victor Meirelles foi um dos mais brilhantes egressos da Academia Imperial e um dos primeiros mestres nacionais a receberem reconhecimento no estrangeiro. Durante seu apogeu foi um dos artistas mais respeitados do Império Brasileiro e um dos mais estimados pela oficialidade. Sua produção mais importante, reconhecida ainda em vida, é a que deixou na pintura histórica, o gênero acadêmico por excelência, e embora seus retratos e paisagens também fossem elogiados em sua época, hoje estão bastante esquecidos pela crítica. Seus panoramas, por sua vez, foram recebidos inicialmente com bastante entusiasmo.

VICTOR MEIRELLES - Estudo para panorama do Morro do Castelo - Óleo sobre tela - 1885


Mário Coelho fez uma das melhores sínteses sobre esse artista: "Meirelles conheceu a glória dos condecorados, a crítica dos folhetins, foi tradicional, produziu obras sólidas, imagens que se 'eternizaram', e [foi] inovador, aderindo ao efêmero e à moda dos panoramas. Ele participou deste conceito de modernidade situado entre o eterno e o fugaz, no convívio de Paris, 'capital do século XIX'. Saiu de uma pequena vila - Nossa Senhora do Desterro, onde com noções básicas de desenho geométrico conseguiu registrar sua cidade. Foi aluno e professor da Academia Imperial de Belas Artes, participou na formação de uma geração de pintores, escreveu sobre sua própria obra, justificando-a, explicando-a, argumentou criticamente diversas vezes, pôs anúncios nos jornais, mas sobretudo pintou a vida inteira, na Europa e no Brasil. Viajou muito, conheceu muito a arte de seu tempo. Não teve medo de inovar e utilizar tecnologias que por muitos foram desprezadas, entre elas a fotografia. Soube tirar proveito na construção da paisagem, no detalhamento dos retratos. Vislumbrou nos panoramas a possibilidade de mostrar sua grande arte, escandalosamente monumental mesmo aos olhos de hoje. [...] Talvez numa contramão, ele se aventurou numa história da pintura como poucos teriam coragem de fazer".