domingo, 23 de junho de 2019

A ARTE NO SÉCULO XIX: Parte 7

LUDWIG DEUTSCH - A oferenda
Óleo sobre painel - 61,5 x 80 cm - 1897

GEORGE PETER
Um caminhante árabe e sua esposa
Óleo sobre tela - 71,7 x 55,8 cm - 1891

A possibilidade de pintar em qualquer ambiente, longe da rigidez dos estúdios, era praticamente impossível até o advento da tinta em tubo. Até a quarta década do século XIX, muitos artistas que saíam para desenhar ou pintar em campo se valiam de técnicas como guache, aquarela e esboços a lápis, sanguínea ou carvão. O óleo ainda se restringia aos ateliês, poucos eram os audaciosos que se aventuravam a levá-lo para o ambiente aberto. As misturas secavam rápido e nenhuma cor tinha a mesma estabilidade da outra. Além do mais, cada artista tinha que preparar sua própria tinta. As poucas boticas que se davam ao trabalho de vender misturas prontas, cobravam altos preços. Assim mesmo, o acondicionamento era precário e conservar tais misturas era um sacrifício. O artista perdia um longo tempo moendo pigmentos, manipulando as proporções desejadas de óleo ou adicionando suas particularidades específicas.


CARL COVEN SCHIRM - Pedreiras próximas a Jerusalém
Óleo sobre tela - 95 x 160 cm - 1884

FREDERICK GOODALL - Palmeiras
Óleo sobre tela - 183,2 x 113,6 cm - 1894

ALFRED WORDSWORTH THOMPSON - O Porto de Argel
Óleo sobre tela - 55,2 x 92,1 cm

Nos tempos atuais, quando pensamos em preparar a paleta para pintura, procuramos automaticamente pelos tubos com diversas cores disponíveis. Muitos não se dão conta que esse era um luxo difícil de conceber nos tempos passados. A criação do tubo de tinta, pelo artista John G. Rand, em 1841, veio revolucionar o fazer artístico em vários aspectos. Primeiramente, economizar ao artista as várias horas no processo de confecção de suas cores. Os artistas mais ricos e famosos chegavam a ter serviçais só para fazerem o trabalho de “cozinha” do ateliê. Muitos mestres exploravam seus pupilos incumbindo-os a esse trabalho repetitivo e cansativo. Em segundo lugar, e talvez um dos requisitos mais importantes, permitiu ao artista sair do ambiente fixo e trabalhar com mais facilidade em campo aberto. O “plein air”, que tanto conhecemos hoje, teve sua expansão durante esse período. Tintas em tubo trouxe, acima de tudo, liberdade.


ANDERS ZORN - Homem e garoto na Argélia
Aquarela sobre papel - 48,7 x 34,7 cm - 1887

ADÈLE d'AFFRY - Chefe abissínio
Argila - 66,7 cm de altura

JOSÉ TAPIRO Y BARO - Retrato de um marroquino
Aquarela e lápis sobre papel - 68,5 x 49 cm

Agradeçamos todos à Maison Le Franc a praticidade da tinta a nível “industrial”, se é que assim podemos classificar o acondicionamento da tinta em recipientes de tubos de estanho. Ela foi a primeira loja a oferecer o produto em grande escala. E a marca existe até hoje e ainda continua sendo uma respeitada tinta francesa. Atualmente, além desses tradicionais tubos de estanho, também encontramos tintas em tubos de plástico ou potes.


ALBERTO PASINI - Numa fonte, Constantinopla
Óleo sobre tela - 46 x 38,5 cm - 1882

EUGENE ALEXIS GIRARDET - Preces da tarde
Óleo sobre tela - 73 x 100 cm

A introdução da tinta em tubo no mercado veio exatamente quando estava em alta uma atividade que ganharia muitos adeptos: viajar para o Oriente. Cansados das mesmices temáticas das academias dos grandes centros europeus e ávidos por trazer ao público algo novo e exótico, artistas partiam para lugares nunca antes explorados. O Oriente oferecia exatamente isso: temática inédita, cultura e arquitetura completamente diferentes da europeia. Com seus ateliês ambulantes, agora munidos de tintas acondicionadas confortavelmente para viagem, os artistas desbravaram os mais inacessíveis locais do Oriente Médio e Próximo, chegando por vezes a atingir locais ainda mais distantes, como China e Japão. Traziam de suas viagens novidades temáticas inimagináveis, relatos de uma cultura ímpar e que davam um novo alento ao saturado cenário artístico europeu.


CHARLES WILDA - Um místico
Óleo sobre painel - 68 x 95 cm- 1890

JEAN LÉON GÉRÔME - Chefe de caça
Óleo sobre tela - 33 x 25 cm

FREDERICK ARTHUR BRIDGMAN - Numa vila em Alger
Óleo sobre tela - 122,9 x 162,6 cm

A sede por retratar e narrar o Oriente não restringia somente a artistas. Escritores e historiadores saíam também em caravanas e colhiam histórias e todo tipo de documentação e anotação. Durante quase um século, caravanas partiam em direção à África e diversas regiões do Oriente, conduzindo artistas e escritores, que fizeram uma descrição precisa e rica daquelas terras, naqueles tempos.


GEORGES WASHINGTON - Retorno para Razzia
Óleo sobre tela - 142 x 200 cm

FRANZ VON DEFREGGER - Retrato de africano com lenço branco
Óleo sobre papel - 53 x 39 cm - 1862

JULES VAN BIERSBROECK - A caravana, El Kantara
Óleo sobre painel - 99 x 122 cm

Sem essas caravanas, não teríamos tido acesso, por exemplo, à rica cultura chinesa, isolada e escondida por muitos séculos do mundo ocidental. Nomes como Richard Wilhelm, que na China viveu muitos anos e trouxe a mais precisa tradução do Taoísmo e das práticas meditativas orientais. Helena Blavatsky que também esteve uma longa temporada no Tibet e aprofundou no estudo das Ciências ocultas, enclausuradas em monastérios budistas e cujo acesso seria impossível sem a coragem dos tantos muitos outros desbravadores das caravanas orientais. Foi também graças ao intercâmbio cultural do século XIX, fruto das várias viagens, que desvendaram para o ocidente vários mistérios da cultura indiana, com seus rituais e práticas meditativas que muito influenciaram as novas correntes religiosas na Europa. Nomes como o de Kalil Gibram, que veio do Líbano para os Estados Unidos e cujos trabalhos, antes vistos com reservas, agradaram a público e crítica.


ETIENNE DINET - Concabulando pela noite
Óleo sobre tela - 113 x 145 cm

JUAN GIMENEZ Y MARTIN - A dança
Óleo sobre tela - 59 x 111,7 cm

Nos tempos atuais, qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, munida apenas de um celular e um sinal de internet, consegue socializar e divulgar sua região e sua cultura. Cada um tem o poder de ser o repórter de seu tempo e só não o faz por comodismo ou por que ainda não se deu conta desse poder. Mas, no século XIX, quando a fotografia ainda era um luxo, foram os artistas que se encarregaram de retratar e registrar toda uma cultura e uma época. E a união com os povos do Oriente, tão abalada por inúmeras guerras e revoltas do passado, foi restabelecida com a corajosa aventura desses artistas empreendedores.


ALFRED DEHODENCQ - Uma audiência nos portões de Kasbah, Tanger
Óleo sobre tela - 96,5 x 131 cm

Uma matéria mais abrangente sobre o Orientalismo pode ser conferida no link abaixo:
ORIENTALISMO

Na próxima matéria, falaremos sobre a Escola de Barbizon e sua importante contribuição no cenário da arte naturalista. O século XIX já estava em sua metade e muitas mudanças ainda sofreria a arte nas próximas décadas.

VEJA TAMBÉM:
. A ARTE NO SÉCULO XIX - Parte 1
. A ARTE NO SÉCULO XIX - Parte 2
. A ARTE NO SÉCULO XIX - Parte 3
. A ARTE NO SÉCULO XIX - Parte 4
. A ARTE NO SÉCULO XIX - Parte 5
. A ARTE NO SÉCULO XIX - Parte 6