sábado, 14 de julho de 2018

A ARTE NO SÉCULO XIX: Parte 1


ETTORE FORTI - Mercador de tapetes em Pompéia - Óleo sobre tela - 49 x 77,5

As escavações arqueológicas nas cidades de Pompeia e Herculano,
iniciadas no século XVIII, abriram caminho para o
retorno à antiguidade clássica como referência maior para
a manifestação artística. No século XIX, isso teria uma
importância fundamental nos estilos e temas abordados.

GIOVANNI MUZZIOLI - Jovens jogadores de bocha - Óleo sobre tela - 60 x 100

Assim como para fazer um diagnóstico correto de um paciente que chega a uma clínica é preciso saber o seu histórico de vida, também para conhecer melhor um período da História é necessário conhecer os períodos que antecederam a ele. No paciente, uma conclusão sem análise prévia pode não apenas chegar a uma conclusão errada de sua enfermidade como não curá-la. Na história, iguais injustiças podem acontecer. Há ainda a possibilidade de, na história, haver interesses particulares e os fatos serem distorcidos, fazendo com que, no futuro, essa força e poder deixem a história mal contada, trazendo sérios riscos para a memória da humanidade. Se quisermos entender o século XIX e todo o contexto histórico desse período, principalmente no que se refere à arte desenvolvida nessa época, teremos que voltar um pouco antes. Conhecer os personagens e todo o contexto social no qual estavam inseridos é o primeiro passo para se chegar a uma análise mais próxima da realidade. Um pouco da grande mudança artística ocorrida no século XIX acontece décadas antes, na Itália principalmente, e envolve personagens de diversas áreas e de diversas nacionalidades.

FILIPPO PALIZZI - Escavação em Pompéia
Óleo sobre tela - 118 x 85
Um fato curioso nas escavações das cidades italianas, é que a
mão-de-obra feminina era usada indiscriminadamente. Aos homens,
cabia o trabalho de escavar, e a elas o trabalho de carregar o
produto das escavações.

LOUIS FRANÇAIS - Escavações em Pompeia - Aquarela sobre papel - 36,2 x 47,5

A chegada do século XIX acenava um período muito bom para a Itália. Guardadas as devidas proporções, houve quem acreditasse que estariam de volta os velhos tempos áureos do Renascimento. Isso devido às escavações iniciadas em Pompeia e Herculano, que trouxeram à cena a intimidade com a Antiguidade. Destruídas pela erupção do Vesúvio no ano 79 dC, as cidades tiveram suas estruturas preservadas, tal como se estivessem congeladas no tempo. Pessoas foram pegas de surpresa e não tiveram como fugir. Muitas delas foram petrificadas ainda em suas casas. Iniciadas em 1738, as escavações nas duas cidades revelaram um cenário nunca antes visto ou imaginado. Podia-se caminhar por uma cidade romana praticamente inteira, com ruas pavimentadas, lojas, casas e anfiteatros. Com exceção dos telhados e algumas paredes que desabaram com o peso das cinzas; as cidades inteiras estavam bem conservadas.  Principalmente em Pompeia, onde os estragos estruturais não foram iguais aos de Herculano, a decoração original ainda continuava nas paredes, além dos utensílios domésticos. Toda essa descoberta acabou tendo um grande impacto nos estilos neoclássicos do século XVIII e no início do século XIX por todo o mundo ocidental.

AUGUST KNOOP - Sociedade rococó - Óleo sobre tela - 25,5 x 30

CARL SCHWENINGER JR - Fofoca no salão - Óleo sobre painel - 47 x 60

CLETO LUZZI - O recital - Óleo sobre tela

No período Rococó, a sociedade experimentava um 
período de extravagâncias. Há historiadores que
o classificam como o período da frivolidade e
desperdícios. Esse excesso, que era percebido
em tudo, desde a arquitetura à maneira de agir,
seria substituído em breve pelo Neoclassicismo.

Não era somente o fato inusitado das descobertas que prometia trazer severas mudanças ao cenário artístico europeu (que era quem ditava as regras da arte naqueles tempos). O Barroco já dava ares de um movimento exaurido. Como na história da arte, assim como na história da humanidade, um período de liberdade é sempre sucedido por um período de disciplina, a frivolidade dos tempos do Rococó estava com os dias contados. O retorno às antigas origens da arte europeia, com base principalmente nas escavações que se iniciaram nas cidades italianas citadas, trouxe à cena uma espécie de novo Renascimento. O Neoclassicismo ganhou força e marcou uma nova fase na História da Arte.

IPPOLITO CAFFI - O Pantão, Roma - Óleo sobre tela - 23,1 x 30,1

Roma e Veneza tornaram os centros mais movimentados na
Itália daqueles tempos. Mas, a promessa de um novo
Renascimento se tornava cada mais distante da realidade
do país. Foram os estrangeiros, as figuras mais
importantes daquela época.

CANALETTO - O pier, com a Casa da Moeda e a Coluna de St Theodore
Óleo sobre tela - 110,5 x 185,5

Roma retomava o posto que lhe fora de direito cerca de 300 anos antes. Por ironia, os romanos e os italianos tiveram uma participação modesta nessa nova fase. Eram os estrangeiros, vindos de toda parte, que chegavam ali para completar os estudos e instruir-se nas artes, principalmente. Praticamente vieram artistas de todos os continentes, de diversas nacionalidades. Alguns locais em Roma e Florença pareciam verdadeiros ateliês estabelecidos. Numa espécie de conquista do território italiano, todas as regiões foram praticamente invadidas. Veneza revelava um cenário exuberante e único, Florença e Roma ressuscitavam a antiguidade esquecida, o litoral revelava um país quase exótico aos olhos de artistas de todos os cantos que chegavam ali.

PIERRE SUBLEYRAS - O estúdio do artista - Óleo sobre tela - 1740

Se do Renascimento ao Barroco o artista era geralmente
sustentado por mecenas e trabalhava exclusivamente
em seus estabelecimentos (geralmente palácios e
igrejas), à partir do século XVIII ele passava a ter
seu próprio ateliê e tornara assim, um profissional
independente. No século XIX isso ficaria ainda
mais definido.

ALFRED STEVENS - O pintor e sua modelo - Óleo sobre tela - 1855

Os alemães tornaram os teóricos desse novo movimento. Isso sempre pareceu uma vocação natural daquele país. Deixaram uma notada contribuição no registro histórico desse novo tempo. Johann Joachim Winchelmann é a figura mais ressaltada entre eles. Historiador de arte e arqueólogo, foi o primeiro a estabelecer distinções entre Arte Grega, Greco-romana e Romana, o que se tornou decisivo para o surgimento e ascensão do Neoclassicismo. Winckelmann foi também um dos fundadores da arqueologia científica moderna e foi o primeiro a aplicar de forma sistemática categorias de estilo à história da arte. É considerado por isso, o pai da História da Arte. Infelizmente não dedicou à sua vida particular a atenção que dava aos estudos e teve um final trágico, que vale ser conferido em sua biografia.

GIULIANO ZASSO - Na Piazza San Marco, em Veneza
Óleo sobre painel - 47,5 x 37,5

Com as escavações em Pompeia e Herculano, e também
em outros sítios arqueológicos que foram sendo
explorados nesse período, visitantes de todas
as partes do mundo queriam ver as novidades
do mundo antigo. O conceito de turismo como conhecemos
hoje, é provável que tenha surgido nesse período.

LUIGI BAZZANI - Uma vista de Pompéia - Óleo sobre tela

Da Alemanha não vieram apenas os teóricos, artistas também tomaram espaço entre eles. Rafael Mengs e Vien foram os mais expoentes deles. Também ligados ao grupo estavam artistas como a suíça Angélica Kauffmann e Tischbein. Mas, de várias partes do mundo eles iam surgindo e obtendo influência e força nos novos movimentos. O escultor Trippel, o dinamarquês Carstens, os ingleses Flaxman e Gavin Hamilton e até mesmo o americano Benjamin West. Todos se diziam fanáticos pelos desenhos de contornos, imitados de vasos gregos e que se tornaram uma espécie de frenesi entre colecionadores. Mas, foi um francês, de nome Jacques Louis David quem daria um novo impulso ao movimento Neoclassicista daqueles tempos. Graças a ele e ao contexto político francês, Roma perderia o status de cidade sede da grande renovação artística daqueles tempos e Paris se tornaria o ponto de referência da grande revolução cultural daqueles novos tempos. E isso é assunto para a nossa próxima matéria.

JACQUES LOUIS DAVID - Eraístrato descobre a causa da doença de Antíoco
Óleo sobre tela - 120 x 155 - 1774

O mundo clássico antigo foi o tema predominante na obra
do francês David. E com ele, uma série de grandes
mudanças ocorreriam em vários campos da arte.

ANGÉLICA KAUFFMANN
Retrato de Johann Joachim Winchelmann
Óleo sobre tela - 97 x 71 - 1764

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