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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A PAISAGEM EM MINAS

MAURO FERREIRA - Verdes mineiros
Óleo sobre tela - 16 x 24

Tentei fazer um apanhado da arte paisagística em Minas Gerais. O texto que se segue serve apenas com uma introdução ao assunto, uma vez que é vasto e ainda sem um registro sistemático que possa se transformar em uma fonte de pesquisa confiável. Importante ressaltar que todas as referências que utilizei nasceram também assim, de fontes variadas, das quais seus autores galgaram também um longo trajeto pela pesquisa em fontes escassas. Durante todo o desenvolver desse texto, se tornou impossível não estar comentando assuntos de interesse nacional, uma vez que todos os movimentos importantes acontecidos em nossa arte, tiveram uma abrangência cultural mais globalizada, e os seus protagonistas também estavam envolvidos em vários ambientes do país.

CLÁUDIO VINÍCIUS - Beira de rio
Óleo sobre tela - 30 x 40



A paisagem mineira é incrivelmente diversificada e rica, com ambientes que vão desde a mais densa mata atlântica, até campos de cerrado e regiões bem agrestes, no Vale do Jequitinhonha. Cadeias de montanhas importantes, como as da Mantiqueira, Espinhaço e Canastra, diversificam ainda mais esse cenário. Na literatura, nosso ambiente se imortalizou em obras como “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, e o retrato urbano começou a ser montado nas muitas observações minuciosas de Carlos Drumond de Andrade. Mas é especialmente para as artes plásticas, a grande contribuição que o cenário mineiro emprestou em obras.

JOÃO BOSCO CAMPOS - Garimpo
Óleo sobre tela - 50 x 70 - 1991

ANTÔNIO GOMIDE - Procissão
Aquarela - 20 x 30 - 1958

Quaisquer que sejam as tentativas de falar sobre a história do paisagismo em Minas Gerais, nenhuma delas poderá isentar as muitas contribuições que fizeram grandes artistas mineiros no cenário da pintura brasileira. Guignard e Edgar Walter encabeçam uma lista das mais variadas e de grandes qualidades. Voltar um pouco atrás no tempo é primordial para entender como se formaram os primeiros passos e as trilhas pelas quais eles puderam se conduzir.

YARA TUPINAMBÁ - Mata do Parque Rio Doce
80 x 100 - 2004

Não é tarefa fácil refazer, hoje, os caminhos percorridos por nossos antecessores, uma vez que a memória artística nos primórdios da história do Brasil, carece de fontes confiáveis de pesquisa. Só agora, nas últimas décadas, alguns estudos mais sérios e algumas ótimas publicações, puderam lançar uma luz no entendimento dos nossos primeiros momentos histórico-culturais. Registros como “Pintores Paisagistas”, de Ruth Sprung Tarasantchi, "Revelando um acervo - Coleção Brasiliana", organizado por Carlos Martins e “Expedição Langsdorff”, das Edições Alumbramento, são exemplos que deveriam se transformar em modelos de resgate da nossa memória nacional. Oxalá sejam seguidos por muitos.


ELIAS LYON - Procissão em Ouro Preto
Óleo sobre tela

As poucas fontes de referências sobre o paisagismo na pintura mineira começaram a ganhar volume e expressão somente nos finais do século XIX. Mais no início do século, antes da chegada da família real no Brasil, existia por aqui uma arte colonial sem muitos representantes famosos na pintura, exceto para as pinturas religiosas, ficando a cargo das construções católicas, o maior legado do patrimônio daquele período. Aleijadinho é o maior representante mineiro do Brasil colônia, e um dos maiores nomes que a arte brasileira já teve. Embora morasse em Minas e tenha todo o seu conjunto de obra exclusivamente feito aqui, viveu num período em que a igreja era o maior mecenas, e toda sua produção foi direcionada para alimentar os fins de sua patrocinadora. A paisagem ainda era um adereço da composição, e Minas parece não ter tido grande influência sobre a temática em sua produção.


JOSÉ RICARDO - Pastando
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2011

MILTON PASSOS - Vista do Rosário
Óleo sobre tela - 40 x 50 - 2009

Foi um processo lento, de mais de um século, ver o tema “paisagem” deixar os fundos das composições e tornar o tema principal, tanto na Europa, quanto em qualquer outra parte onde isso tenha ocorrido. Para o Brasil em especial, a Expedição Francesa financiada pela família real, foi quem mais contribuiu para alargar os horizontes nesse sentido. Deve-se muito aos esforços do Conde de Barca, o sucesso dessa expedição. Extasiados pela beleza intacta e exuberante de um país ainda recente, vários registros feitos pelos artistas de tal expedição se transformaram nos mais valiosos apontamentos da pintura brasileira naquele período. Debret é o nome mais forte dentre os artistas que por aqui estiveram. Mas, um século antes dessa expedição, Franz Post veio a convite de Maurício de Nassau, e é certo que tenha feito os registros mais valiosos do Brasil em seus primeiros passos como nação colonizada.

JOHANN MORITZ RUGENDAS - Cidade Imperial de Ouro Preto, detalhe
Aquarela e tinta nanquim - 25,5 x 36,5 - 1824

Uma outra expedição, a Expedição Langsdorff, assim chamada por ter sido realizada com a iniciativa de Grigory Ivanovitch Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, foi realizada entre 1821 e 1829. Ele contratou botânicos, astrônomos, navegadores e, em especial, os artistas Rugendas, Adrien Taunay e Florence, que se embrenharam Brasil adentro e fizeram pesquisas inéditas por aqui. Todo o material iconográfico, colhido em tais andanças, permanecia desaparecido, desde 1829, vindo a serem descobertos somente em 1930, em porões do Museu do Jardim Botânico de São Petersburgo, na Rússia, quando esta ainda se chamava Leningrado. Apenas essa expedição já é material suficiente para uma outra extensa matéria.

JOHANN MORITZ RUGENDAS - São João del Rey
Aquarela e nanquim - 25 x 35 - 1824

JOHANN MORITZ RUGENDAS
Convento de N S da Conceição, na Serra do Caraça, Província de Minas Gerais
Lápis sobre papel - 24,5 x 34 - 1824

Da expedição Langsdorff, Rugendas talvez tenha sido o mais preocupado em retratar a paisagem. A sua passagem por Minas Gerais rendeu diversos estudos em lápis e aquarelas, com especial destaque para as muitas cenas colhidas na região de Barbacena, Ouro Preto, São João Del Rey, Sabará, até regiões como a Serra do Caraça e muitas fazendas que se formavam nessas localidades. Todas essas preciosidades se encontram hoje expostas nos museus da Academia de Ciências da Rússia, em São Petersburgo.
Não só por aqui, mas em quase todo o mundo ocidental, o século XIX atravessou um período de rupturas e experiências, da arte acadêmica com narrativa histórica cedendo lugar para temas mais realistas, naturalistas, culminando finalmente; em países mais abertos às novidades; com o surgir do Impressionismo e suas tardias variações.


GUIGNARD - Sabará
Óleo sobre tela - 38 x 47 - 1950 - Coleção particular

INIMÁ DE PAULA - Paisagem de Barbacena
Óleo sobre tela - 82 x 100 - 1982

SÉRGIO TELLES - Praça Tiradentes, Ouro Preto
Óleo sobre tela - 80 x 100 - 1993

Não tivemos Impressionismo no Brasil, pelo menos no período em que ele aconteceu em outras partes do mundo. Alguns artistas, que presenciaram o movimento na Europa quando ele aconteceu, chegaram por aqui com tendências impressionistas. Artur Timóteo da Costa, Henrique Cavaleiro e Eliseu Visconti foram os que fizeram nossos primeiros ensaios do movimento impressionista, mesclando adereços nouveau aos seus trabalhos.
De igual importância na formação dos artistas de nossa terra, foi a passagem por aqui dos irmãos Grimm, que mesmo ainda fiéis ao estilo acadêmico, já saíam a campo e incentivavam nossos jovens aprendizes no exercício em plein air. Não foram poucos os que saciaram os conhecimentos nesses ensinos: Batista da Costa, Castagneto, Nicolas Vinet, Antônio Parreiras, Hipólito Caron, Vasquez, Facchinetti... Os ecos de tal ensino produziram ótimos paisagistas por aqui, e depois da virada do século XIX para o XX, quando esse tema já era recebido com menos reservas, muitos centros do país já produziam suas próprias escolas regionais e desenvolviam temáticas mais personalizadas.

TÚLIO MUGNAINI - Ouro Preto
Óleo sobre cartão - 24 x 33

Como a prática da pintura em plein air se espalhou pelo início do século XX, Minas foi positivamente favorecida por tal iniciativa. Alguns nomes, já pouco lembrados e quase esquecidos, representaram o estado nesse período: Genesco Murta, Benedito Luizi e Osvaldo Teixeira. Vários outros artistas, de diferentes estados, também representaram Minas em suas composições. Todos já apresentavam uma pincelada solta, deliberadamente desligada da arte acadêmica rigorosa, que já perdia força. Norfini e Túlio Mugnaini abriram caminhos para esses “estrangeiros”. Mas foi com José Wasth Rodrigues, que a temática mineira ganhou visão nacional. As suas muitas aquarelas e bicos de pena, que depois se transformaram em óleos, o deixaram conhecido como o mais nacionalista dos pintores. Pela primeira vez, alguém fazia e expunha Minas com tanto empenho. Lugares nunca antes visitados por nenhum outro artista, tornaram tema corrente de sua obra: Caeté, Campanha, Barbacena, Catas Altas, Congonhas do Campo, além das já badaladas cidades do circuito histórico mineiro, com ênfase para Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey e Tiradentes.

JOSÉ WASTH RODRIGUES - Paisagem de Minas
Óleo sobre madeira - 44 x 59 - 1932

Um fato curioso, e importante de relatar, é que no século XX muitos estilos se desenvolveram em paralelo, não só aqui, mas em diversas partes do mundo. Após os adventos da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, vários modernistas mineiros entraram em cena. Influenciados pelos experimentos pós-impressionistas, expressionistas e modernistas europeus, algumas figuras se destacaram e merecem o nosso maior respeito. Inimá de Paula se identificou com um fauvismo tropical, que em nada deve às suas inspirações francesas. Guignard, que mesmo não sendo mineiro de nascença, incorporou a mineirice e fez dela o estandarte maior de seu trabalho. Ouro Preto foi o seu palco principal e produziu um vasto repertório com temas do estado e ainda formou vários alunos e discípulos, a destacar Amílcar de Castro, Farnese de Andrade, Yara Tupinambá e Lygia Clark. Outros artistas que desenvolveram o tema mineiro no pós-guerra, também deixaram grandes contribuições: Carlos Scliar, Brecheret, Ceschiatti, até nomes mais atuais como Bracher e Sérgio Telles. Todos com os olhos atentos aos movimentos mundiais, mas com a temática sempre buscando representar Minas e o que viveram.

EDGAR WALTER - Lavadeiras
Óleo sobre tela

                                      
EDGAR WALTER - Amanhecer em Ouro Preto e
Estrada com carro de boi
Óleo sobre tela

A pintura paisagística acadêmica, no entanto, só veio a conhecer um representante influente, nas hábeis mãos de Edgar Walter. Envolvido com amigos como Alberto Braga, Benedito Luizi e Sebastão Fonseca, foi produzindo discípulos e disseminando um estilo mineiro de fazer paisagens. Não é exagero dizer que talvez seja um dos movimentos de maior identidade com o estado, ainda que seus artistas tenham recebido perceptível influência da pintura naturalista e realista da França e da Itália do século XIX. Mas o movimento ganhou identidade própria. Encantado e declaradamente admirador da paisagem mineira, Edgar arrebatou um grande número de seguidores, e até hoje a influência de sua obra é um ponto marcante no paisagismo mineiro.

JÉSUS RAMOS - Paisagem com bambu e beira de rio
Óleo sobre tela

TÚLIO DIAS - Paisagem com animais
Óleo sobre tela - 90 x 150 - 2011

JOSÉ ROSÁRIO - Vista de Diamantina
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2004

Mesmo que a paisagem em Edgar Walter tenha ainda uma tendência acadêmica, a luz já exerce um fator predominante em sua composição, fato que vem estimular em seus seguidores, caminhos mais contemporâneos, com linguagens mais ousadas que muito lembram o Impressionismo. Temos vários representantes nesse sentido: Luiz Pinto, João Ornelas, João Bosco Campos, Mauro Ferreira, Jésus Ramos, Túlio Dias, Milton Passos, Hilton Costa, Elias Lyon. Cláudio Vinícius ainda mantém uma linguagem mais acadêmica, mas com um frescor que se renova ano após ano, praticando uma pintura isenta de rótulos e estigmas. Wilson Vicente, Helvécio Morais e Rubens Vargas também seguem essa tendência. Todos os nomes da atual cena vêem neles referências muito seguras, e em seus encalços vem artistas como José Ricardo, Anderson Conde e um grande representante da mais nova geração, Vinícius Silva. São todos minhas orgulhosas referências e atualmente alguns deles se tornando grandes amigos.

HELVÉCIO MORAIS - Luz da manhã
Óleo sobre tela

WILSON VICENTE - Cargueiros
Acrílica sobre tela - 60 x 80 - 2011

VINÍCIUS SILVA - Ipê na serra
Óleo sobre tela - 40 x 50

O cenário mineiro continuará encantando aos que são daqui e aos que por aqui se aventuram um dia. Seja no mistério de cada curva de estrada, no sereno frio de cada cachoeira, ou na ladeira de cada casario. Passam os anos, mas sobre os palcos daqui, a vida continua.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

FOTOGRAFIA E PINTURA

        
JOSÉ ROSÁRIO - Pequeno congado
Óleo sobre tela - 35 x 22 - 2009
Ao lado, fotografia utilizada como referência.

Desde que a fotografia foi aperfeiçoada, em 1841, e nos apresentada na forma como a conhecemos hoje, muita coisa mudou no mundo das artes. É bem provável que o advento da fotografia decretasse o final da arte acadêmica propriamente dita, uma vez que para retratar algo tal qual é, muitos instrumentos desenvolvidos ao longo de todos esses anos, prestassem para isso com mais precisão. A arte acadêmica não morreu, a fotografia ganhou movimento e o nascer do cinema trouxe ainda infinitas possibilidades para fazer e expressar arte. Com esses dois fortes aliados, a liberdade teve que ampliar seu significado.

 Fotografia de referência

CLÁUDIO VINÍCIUS - Volta de estrada
Óleo sobre tela - 70 x 100 - Coleção particular

Os conceitos mudaram bastante, e isso não há como negar. A representação de algo extraído do natural (paisagens, retratos, arranjos e construções) passou a adotar a expressão e as sensações como requisitos muito mais importantes do que a representação fiel daquilo que se vê. Interpretando aquilo que está diante de si, dentro da sua maneira de ver, o artista reproduz sensações exclusivamente suas, e por isso mesmo incomparáveis por qualquer efeito fotográfico.

Fotografia do fuzilamento de Maximiliano, Imperador do México.

EDOUARD MANET - A Guerra Civil
Aguada e aquarela - 46 x 32,5 - 1871
Museu de Belas Artes, Budapeste

EDOUARD MANET - Execução do Imperador Maximiliano
Óleo sobre tela - 252 x 305 - 1867
Mannheim, Stadtische Kunsthalle

Na obra acima, executada por Edouard Manet, nota-se
claramente a influência da fotografia feita durante o
fuzilamento do Imperador Maximiliano. 
 Uma referência fotográfica não precisa ser
necessariamente a reprodução fiel da mesma. 
Um estudo em aguada mostra também
o quanto o artista explora o mesmo tema,
em ocasiões diferentes.

Embora seja um tema em vários pontos polêmico, a fotografia como referência para a produção artística tem seus defensores, mas também seus fortes adversários. Esses últimos alegam que a cópia fiel de uma foto, nada mais é que uma transposição de imagens, ação isenta da menor criação artística. Seus defensores, em contrapartida, dizem que a fotografia é apenas um grande aliado tecnológico, que veio incrementar recursos no processo produtivo de uma obra. Alegam ainda que grandes nomes como Picasso, Dégas, Manet, Courbet, Dali, Delacroix e muitos outros, incorporaram tais “auxílios” em suas obras, e que elas não diminuíram em nada, o respeito e o valor que são dados aos seus trabalhos.

 Beira do Piracicaba - fotografia.

JOSÉ RICARDO - Beira do Piracicaba
Óleo sobre tela - 70 x 110
Acervo José Rosário

Somente os artistas conscientes sabem usar das vantagens desse recurso, seja para a complementação de esboços ou no arquivamento de várias informações que venham a enriquecer o processo criativo na produção de uma obra. Eles também são sabedores que a comodidade de uma informação fotográfica tende sempre a gerar inseguranças no ato do desenho, e que muitos venham a criar laços de dependência muito grandes com essas referências. A pintura em plein air, ou mesmo a prática de esboços feitos do natural, são bons desafios para saber em que grau de dependência o artista está, com relação ao uso de fotos em seu trabalho. Nesse momento não há recurso intermediário entre o artista e o ambiente que lhe serve de referência.

 Lavadeira - fotografia

EDGAR WALTER - Lavadeira
Óleo sobre tela

Observe como a fotografia de referência foi
alterada em função da composição.
Elementos foram subtraídos e outros
adicionados para que a obra ganhasse o
ponto de interesse na figura da lavadeira.

A fotografia capta momentos de raras luzes, que se perdem rapidamente numa abordagem ao ar livre. Também é muito útil para congelar movimentos, impossíveis de se fixar num outro método. Mas a maior vantagem na referência com fotos, é que se torna possível reunir várias delas para formar uma única cena, atividade aliás, das mais usadas pela maioria dos artistas, e que obriga o processo criativo em um grau diferenciado dele.

          
À esquerda: Estrada do velho jacarandá, Dionísio - fotografia de referência
À direita: VINÍCIUS SILVA - Estrada do velho jacarandá (estudo)
Óleo sobre tela, 18 x 24 - 2011

VINÍCIUS SILVA - Estrada do velho jacarandá
Óleo sobre tela - 50 x 70 - 2011
Acervo de José Rosário

A tecnologia tem sido muito generosa para a captação cada vez mais fiel da cena retratada, deixando as câmeras cada vez mais eficientes e muito mais fáceis de serem utilizadas. Mas, essa é uma tentação que deve ser vista com reservas. Não se esqueça que uma câmera, por mais evoluída que seja, é apenas uma máquina. É você, como artista, que decide qual efeito realçar em sua cena, que imagem acrescentar ou excluir para que a obra caminhe o máximo possível dentro da sua intenção. Câmeras, por mais reguladas que estejam, ainda tendem a simplificar as tonalidades, muitas vezes deixando as áreas de sombras muito escuras, ou também realçam mais algumas cores que outras. Quando você comparar a foto com a cena ao vivo, verá quantas sutis e preciosas diferenças se encontram nas duas.

Fotografia de referência

THEODORE ROBINSON - Duas em um barco
Óleo sobre cartão - 23,5 x 34,8
The Phillips Collection, Washington

Mesmo artistas tão experientes, aplicam recursos para
melhor utilizar sua referência fotográfica. Caso de
Theodore Robinson, quadriculando imagem de
referência, logo acima.


Há também muitos outros recursos que facilitam a vida do artista, no que diz respeito a ampliação da fotografia usada como referência para pintura. Alguns fazem uso de quadriculados, outros usam antigos instrumentos como o pantógrafo e ainda há pessoas que projetam tais fotos nas telas, por meio de projetores, para copiarem seus contornos. São processos que agilizam o fazer, mas que distanciam bastante da real intenção de produzir arte, ou seja, representar aquilo que é a sua visão única e intransponível de um tema.

SCOTT PRIOR - Fotografia de referência

SCOTT PRIOR - Estudo à lápis - 1991

SCOTT PRIOR - Toalhas e luz do sol
Óleo sobre tela - 61 x 61

De posse da escolha de uma fotografia para servir como referência para seu trabalho, é preciso que você faça uma análise criteriosa para decidir sobre o que deve ser acrescentado, excluído ou modificado, para que esta referência produza bons resultados. Por isso, reproduzir uma foto que você mesmo tenha feito, seja bem mais fácil para compor seu trabalho, do que se orientar por uma foto realizada por outra pessoa. Quando você mesmo fotografa, aquele tema já havia lhe despertado algum interesse, tal cena já formava em sua mente, um esboço de uma obra.

 Fotografia de referência

TÚLIO DIAS - Estrada do interior
Óleo sobre tela - 100 x 150

Toda composição passa por criteriosos processos para se transformar numa obra tecnicamente correta e artisticamente agradável de se ver. Os conceitos iniciais para qualquer composição, também devem ser levados em consideração na hora de utilizar a foto como referência. Profundidade, proporção, localização do ponto de interesse principal, distribuição de cores, correta representação de fontes de luz e volumes. Todos esses itens podem não estar em conformidade na foto que você dispõe a desenhar ou pintar, portanto não hesite nenhum momento em fazer as correções que sejam necessárias.

         

As duas referências acima serviram para a
conclusão da obra abaixo.
A paisagem foi idealizada em função da composição.

JOSÉ ROSÁRIO - Matando a sede
Óleo sobre tela - 60 x 100 - 2011

Combinar fotos para compor uma cena possui alguns segredos que não podem ser desprezados. Verifique se as fotos que irá combinar tenham a mesma fonte de luz, proporções adequadas e se também apresentam riquezas de detalhes compatíveis entre si. No item perspectiva, fique atento se o ângulo de visão nas duas referências é o mesmo, do contrário, poderá gerar grotescos erros de profundidade. A proporção é outro item de extrema importância, e quando incluem figuras humanas o cuidado deve ser ainda maior. Compare a proporção das figuras humanas com construções à sua volta, bem como a arbustos e animais, caso existam.

PAULO DE CARVALHO - Foto-montagem

       

O artista carioca Paulo de Carvalho lançou
mão de vários recursos até concluir sua obra.
Na foto superior, foto-montagem feita por
ele mesmo no local escolhido. Nas duas imagens
acima, um quadro de Antonin Fanart (esquerda)
serviu como referência para as figuras que ele
também representou. De Thomas Hill (direita),
o efeito dramático causado pelas gradações de
luz e sombra também foram sua influência.
O resultado é uma tela panorâmica que
ambienta bem uma cena do século XIX.

PAULO DE CARVALHO - Vista do alto da serra, Petrópolis
Óleo sobre tela - 10 x 40
Coleção particular

Grandes visões panorâmicas, que não são conseguidas, mesmo pelas máquinas mais avançadas, podem ser compostas pela união de duas ou mais fotos. Mais uma vez, deve-se ficar atento à diferenças exageradas com relação à mudança de luz e perspectiva. Quando já tiver em mente fotografar para unir cenas numa mesma panorâmica, coloque a máquina num ponto fixo, de preferência um tripé, para que não ocorram eventuais problemas na montagem. Não custa relembrar que selecionar apenas os elementos mais atraentes de suas “fotos-esboços” ainda é uma das regras mais sensatas a seguir.

 Fotografia de referência

FERDINAND PETRIE - Pôr de sol
Aquarela

De posse de todas essas informações, use a fotografia como uma referência a seu favor. Mesmo diante de tantos recursos, a emoção que você consegue imprimir em seu trabalho é muito mais importante que uma eficiente reprodução que nada transmita.


PETER HENRY EMERSON - Preparando a armadilha
Fotografia

THOMAS FREDERICK GOODALL - A armadilha
Óleo sobre tela - 83,8 X 127
Walker Art Gallery, Liverpool