domingo, 1 de abril de 2018

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA


MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Hora da ordenha em Anticoli Corrado
Óleo sobre tela - 92,5 x 124 - 1922 - Museu de Zaragoza

Abaixo, detalhe de Hora da ordenha em Anticoli Corrado

Anos atrás, quando estava escrevendo a matéria sobre o artista brasileiro Pedro Weingärtner, acabei entrando em contato com a obra de Mariano Barbasán Lagueruela. Um fato em comum entre os dois artistas chamou-me a atenção: a visitação constante que fizeram ao povoado italiano de Anticoli Corrado. Não muito distante de Roma, debruçado sobre uma colina, esse pequeno povoado tornou-se um ponto de peregrinação de muitos artistas estrangeiros que iam estudar em Roma, nas décadas finais de 1800 e início de 1900. Weingärtner e Barbasán não apenas visitaram o local com assiduidade, mas o eternizaram exaustivamente em trabalhos minuciosos e maravilhosos.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Vem com o papai
Óleo sobre painel - 28,8 x 46,9 - 1897

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA
Paisagem com uma vila nos arredores de Roma
Óleo sobre tela - 105 x 75 - 1905

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Mercado, Anticoli Corrado
Óleo sobre tela - 24 x 46 - 1909

Mariano Barbasán Lagueruela e Pedro Weingärtner chegaram em Roma praticamente no mesmo período, nos anos finais do século XIX, a fim de estudar num dos locais que era a melhor referência acadêmica daquele momento. Roma já começava a perder o status de referência artística para Paris, mas ainda assim se mantinha como uma rota quase obrigatória para muitos artistas, principalmente aqueles que ainda se mantinham fiéis às correntes conservadoras realistas, naturalistas e afins. Muitos desses artistas tinham o hábito de se encaminhar para a Piazza di Spagna, em Roma, onde diversos jovens (moças, rapazes e adolescentes), vindos principalmente das redondezas de Roma, em especial Antícoli Corrado, se ofereciam como modelos para aulas e sessões de pinturas. Era no contato com esses modelos que crescia a afinidade entre artistas e o povo desse lugarejo italiano. Nos verões, uma grande caravana de artistas partia para Antícoli Corrado e ali se instalava em estrebarias e currais, que os camponeses transformavam em ateliês e alugavam para os artistas passarem a temporada de produção.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Praça em Antícoli Corrado
Óleo sobre tela - 94,5 x 85 - 1922

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Primeira comunhão
Óleo sobre painel - 17,8 x 28,5 - 1900

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA
Pastora com cabras
Óleo sobre tela - 147 x 90 - 1910

Durante os dias, os artistas punham a aproveitar ao máximo a luminosidade especial do lugarejo e se encaminhavam para os campos e trigais, onde não cansavam de registrar as famosas cenas de colheitas e pastoreios, que até hoje encantam e são motivos de acirradas disputadas nas melhores casas de leilões de todo o mundo. Durante as noites, em alegres festividades em tabernas locais, ou mesmo em residências particulares, continuavam a produzir estudos dos incansáveis modelos. Muitas dessas moças que se prestavam para posar aos artistas, acabaram se tornando esposas ou amantes deles. A visitação ao pequeno vilarejo era tão intensa que em 1935, já no período final do auge como centro de peregrinação, ainda existiam ali 55 ateliês de artistas, um fato que não deixa de ser curioso, uma vez que ali não possuía, como até hoje, não mais que mil habitantes.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Paisagem italiana com cabras e pastores
Óleo sobre tela - 24,5 x 46,5 - 1924

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Rua em um povoado
Óleo sobre tela - 37 x 57,5 - 1909

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Procissão - Óleo sobre tela - 1899

As idas para Antícoli Corrado começaram a ficar mais intensas para Mariano Barbasán em 1892. Ele gostou tanto da Itália, que passaria ali trinta anos de sua existência, retornando para sua cidade natal somente no final de sua vida. Ele desenvolveu um gosto tão especial pelas pinturas de costumes locais, que logo ficou famoso entre os colecionadores e era procurado inclusive por turistas desejosos de levar uma lembrança das terras italianas. Assim, ele criou um laço especial com a população camponesa de Antícoli e outros vilarejos vizinhos, principalmente Subiaco. Suas obras dessas localidades se tornaram um relato preciso da vida do homem do campo, o sentimento religioso desses povos e a relação deles mediante à natureza e as suas tradições. Cada trabalho guarda a memória de um tempo especial, tanto para o artista como para a localidade de Antícoli Corrado.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - La cata - Óleo sobre painel - 29,5 x 47

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA
Plaza de la Retama, Toledo
Óleo sobre tela -1887

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Pedro II, o Grande, em Las Panizas
Óleo sobre tela - 200 x 185 - 1891

Mariano Barbasán Lagueruela nasceu em Saragoça, a 3 de fevereiro de 1864. Ele completou seus estudos artísticos na Escola de Belas Artes de San Carlos, em Valência, onde estudou entre os anos de 1880 e 1887. Para completar os estudos, viajou para Madri para estudar de perto as obras dos grandes mestres espanhóis que admirava. As coleções do Museu do Prado trouxeram um novo impulso para sua formação. Ele também realizou diversas viagens para Toledo, onde pintou diversas cenas de gênero, com cenário histórico. Pintou também várias cenas da literatura europeia.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Veneza - Óleo sobre painel - 20,3 x 28,3 - 1889

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Aguadoras - Óleo sobre tela - 35,5 x 61 - 1889

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Uma vista de Veneza ao por do sol
Óleo sobre tela - 61 x 100

Em 1889, com o prêmio que conseguiu pela Província de Saragoça, uma mensalidade vitalícia para estudar na Itália, uma espécie de aposentadoria oferecida a artistas premiados, Barbasán partiu para Roma. Ele produziu as obras mais significativas de sua vida por lá. É de 1892, uma famosa cena num café árabe, de pintores espanhóis em Roma, disfarçados de árabes para um carnaval.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - O outono - Óleo sobre tela - 50 x 72 - 1918

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Tristeza de inverno
Óleo sobre tela - 64 x 98 - 1917

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Planície alagada - Óleo sobre tela - 50 x 71 - 1917

Barbasán montou um estúdio muito bom em Roma, e fez exposições frequentes por toda a Alemanha, Áustria e Inglaterra. Nunca na Espanha, onde quase nem era conhecido. Em 1912, ele morou na cidade uruguaia de Montevidéu, por um curto período de tempo, enquanto organizava duas exposições que fez por lá. Ele permaneceu em Roma até 1921, quando sua saúde começou a piorar. Retornando à Espanha, ele ocupou uma cadeira na Academia de Belas Artes de San Luis, em Saragoça, que havia ficado vaga com a morte de Francisco Pradilla.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Saída para Assis - Óleo sobre painel - 11 x 18 - 1889

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Batalha de Guadalete
Óleo sobre painel - 21,9 x 50,2 - 1882

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA - Saída para Tívoli - Óleo sobre painel - 11 x 18 - 1889

Dois anos depois que havia retornado à Espanha, Barbasán realiza a primeira exposição em território espanhol, no Mercado Central de Saragoça. Somente naquela época, seus trabalhos começaram a ser conhecidos e procurados pelo público espanhol. Ele faleceu em Saragoça, no dia 22 de julho de 1924. Em 1925, seu filho Mariano Barbasán Lucaferri realizou uma grande retrospectiva em sua homenagem, no Museu de Arte Moderna de Madri. Ele faria diversas outras nos anos sequentes, ajudando a estabelecer a reputação de seu pai na Espanha.

MARIANO BARBASÁN LAGUERUELA
Autorretrato
Óleo sobre tela - 52 x 41 - 1887

domingo, 25 de março de 2018

EDUARD HILDEBRANDT


EDUARD HILDEBRANDT - Igreja de Santa Luzia, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 24,3 x 34,3 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Largo com chafariz - Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,4

Na última visita a São Paulo, em uma passagem mais demorada pela Pinacoteca, chamaram a atenção dois trabalhos: Paisagem com índios e Paisagem com negros, do artista Eduard Hildebrandt. Impossível ficar indiferente a essas obras. Mesmo em pequenas dimensões, elas nos aprisionam para um tempo maior diante delas. Pertencentes ao acervo da Coleção Brasiliana, da Fundação Rank-Packard e Fundação Estudar, faziam parte de uma exposição temporária que acontecia naquela instituição. Já conhecia os trabalhos em aquarela do artista, que aliás são o carro-forte de sua produção, mas ao ver aqueles pequenos óleos pude confirmar a grandiosidade de sua obra.

EDUARD HILDEBRANDT - A Glória, Rio de Janeiro - Aquarela sobre papel - 33,9 x 49,8

EDUARD HILDEBRANDT - A Glória, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,5 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - A Glória, Rio de Janeiro
Óleo sobre tela - 65,7 x 96,8 - Cerca de 1846

Eduard Hildebrandt chegou ao Brasil em 1844, ficando aqui entre os meses de março e outubro, percorrendo nesse curto período de tempo locais como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pernambuco. Em tão rápida estadia, produziu uma das mais belas e valiosas coleções de vistas do Brasil colonial. Se não têm a fama do Debret e Rugendas, não perdem em nada com relação à qualidade técnica e principalmente poética de suas narrativas. Hildebrandt superou a todos os outros artistas viajantes que passaram por aqui, pois sua descrição do que via era precisa e magistralmente executada.

EDUARD HILDEBRANDT - Engenho Velho - Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,4 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rio de Janeiro - Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,3 - 1844

Sempre financiado por Frederico Guilherme, rei da Prússia, Hildebrandt empreendeu inúmeras viagens por várias partes do mundo. O financiamento se deu graças à Medalha de Ouro no Salão de Paris, concedida a ele em 1843. Foi por intermédio do naturalista Alexander von Humboldt, que o financiamento do governo prussiano possibilitou a primeira das muitas viagens que faria em sua vida. E essa primeira expedição veio exatamente para as Américas, iniciando pelo Brasil e passando também pelos Estados Unidos. Levou um material de tão grande excelência, provavelmente as aquarelas mais felizes de toda sua vida, que logo foi eleito membro da Academia de Berlim e incumbido para várias viagens em sequencia.

EDUARD HILDEBRANDT - Paisagem com índios
Óleo sobre tela - 39,5 x 57 - Entre 1844 e 1845

EDUARD HILDEBRANDT - Paisagem com negros
Óleo sobre tela - 36,9 x 58,2 - 1845 - Pinacoteca do Estado de São Paulo

A quase totalidade da valiosa coleção de estudos produzidos no Brasil pertence ao Gabinete de Gravuras da Nationalgalerie, em Berlim. São 170 obras no total, entre aquarelas e desenhos, coletados in loco, no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pernambuco. Das aquarelas do Rio de Janeiro, nove são especiais, no que dizem respeito ao rigor quase fotográfico. São um verdadeiro hino à glória luminosa de um Rio que encantou a todos que passaram por aqui, seja pelas paisagens naturais exuberantes, como pela arquitetura colonial, ricamente concebida para aquela época.

EDUARD HILDEBRANDT - Bahia - Carvão sobre papel - 21,8 x 29,6 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rua da Misericórdia, Rio de Janeiro
Guache e carvão sobre papel - 30 x 23,3 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Morro do Castello, Rio de Janeiro
Carvão sobre papel - 21,8 x 29,7 - 1844

Eduard Hildebrandt nasceu a 9 de setembro de 1818, em Dantzig, na Alemanha. Segundo filho, entre sete irmãos, teve uma infância difícil, sustentada pelo pai, um pobre pintor de paredes. O mar sempre o inspirou desde cedo, e dizia que um dia ainda iria entrar para a Marinha. Com a morte do pai, quando tinha apenas 13 anos, resolveu seguia as aspirações de sua mãe e entrou para aulas de desenho. Não por coincidência, fez os primeiros estudos com o marinhista Wilhelm Krause, em Berlim. Chegou a ir até a Inglaterra e Escócia para se aperfeiçoar nos estudos e terminou sua especialização com Eugène Isabey, em Paris. Mal sabia que o sonho de criança e os desejos de sua mãe finalmente iriam se casar. Iria percorrer o mundo como ele queria e fazer aquilo que sempre foi a vontade dela.

EDUARD HILDEBRANDT - Igreja da Piedade, Salvador
Aquarela sobre papel - 24,5 x 34,8 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Ilha da Boa Viagem, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 17,8 x 25,4 - 1845

EDUARD HILDEBRANDT - Mazaro, arredofres de Recife
Aquarela e óleo sobre papel - 24,3 x 34,3 - 1844

Uma coisa é profundamente marcante em toda a produção de Hildebrandt: o estilo. Principalmente nos trabalhos à óleo, isso é perceptivelmente marcante. Não importa muito se a paisagem é das Américas, da Europa, do norte da África, do Oriente, suas pinturas sempre se orientam a partir de algumas regras básicas de composição, a se destacar a incisão de focos de luz dirigidos, iluminando os pontos que concentram a narrativa principal do quadro e áreas de profunda sombra, no restante da composição. Há também o predomínio de cores quentes, um fato típico em todas as suas obras, principalmente pinturas. Assim, todas ganham o ar de aparente similaridade de locais, porém, com uma grandiloquência, quase épica. Ele transformou cenas simples e pitorescas em obras monumentais e rigorosamente construídas.

EDUARD HILDEBRANDT - Quitite - Aquarela e óleo sobre papel - 24,3 x 34,3 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 36 x 25,8

EDUARD HILDEBRANDT - Uma fazenda, com grupo de escravos no primeiro plano
Óleo sobre tela - 68 x 101 - 1844

Diferentemente dos óleos, as aquarelas e os estudos a lápis, feitos todos in loco, revelam uma observação acurada e bem seletiva do artista. Não têm o arranjo idealizado, percebido nos óleos, mas trazem uma composição bem alicerçada na realidade. Aliado a isso tudo, soma-se o gosto pelo exótico e a afinidade com a pintura orientalista e romântica francesa. Ele soube filtrar tudo isso muito bem e criar um estilo único e inconfundível.

EDUARD HILDEBRANDT - Igrejinha de Nossa Senhora da Saúde
Aquarela sobre pape - 17,9 x 25,7

EDUARD HILDEBRANDT - Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 26,3 x 20,3

EDUARD HILDEBRANDT - São Paulo - Aquarela e óleo sobre papel -  24,2 x 34,3 - 1844

Mal havia descansado da viagem às Américas, Hildebransdt já era incumbido para uma nova viagem, dessa vez para a Escócia, Canárias, Espanha e Portugal. Mais adiante, vai à Itália, Egito e Grécia e até o Ártico. Mas, sua grande aventura viria entre os anos de 1862 e 1863, onde realiza uma famosa viagem ao redor do mundo, mais uma vez às custas de seu generoso patrono. Passou por Trieste, Alexandria, Suez, Índia, China, Japão, Estados Unidos, Antilhas e finalmente a Inglaterra. Dessa expedição, mais 300 aquarelas foram produzidas. Dessas, 280 se encontram em Berlim.

EDUARD HILDEBRANDT - Chafariz da Rua do Conde, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 17,6 x 25,7 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Lagoa Rodrigo de Freitas
Aquarela sobre papel - 17,6 x 25,6 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rio Comprido, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 18,7 x 25,8 - 1844

Eduard Hildebrandt faleceu em Berlim, a 25 de outubro de 1868. Uma importante observação sobre o artista, encerra a narrativa de Gilberto Ferrez, no livro O BRASIL DE EDUARD HILDEBRANDT: “Dos pintores aquarelistas que nos visitaram no século passado, foi sem favor Eduard Hildebrandt o mestre do tropicalismo realístico, jamais superado por outro artista no Brasil, não só pela arte de captar as cores e contrastes de luz, sem olvidar o detalhe arquitetônico, como por ter escolhido ângulos não aproveitados pelos demais” (1998).


LOUIS AUGUSTE MOREAU - Retrato de Eduard Hildebrandt
Aquarela sobre papel - 27,5 x 22 - 1844

domingo, 18 de março de 2018

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Na praia - Óleo sobre painel - 18,9 x 32,6 - 1890

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Nos campos, França
Óleo sobre painel - 16 x 28,5 - 1882


IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Fontaine de Tröst, Bulgaria
Óleo sobre painel - 16,5 x 27 - 1886

Todo artista tem em mente produzir a sua obra-prima. Aquela que vá representar a sua carreira por toda história. Assim, escritores dão ao máximo para escrever o livro de suas vidas, músicos se reinventam constantemente para compor a melodia perfeita, escultores e pintores atravessam a vida perseguindo a composição ideal para uma obra que vá eternizá-los. Quando pensamos na obra-prima de um artista, é muito comum que venha a nossas mentes uma obra de grandes dimensões. Principalmente na pintura, obras em grandes formatos parecem ter um impacto diferenciado. Numa obra de grandes dimensões, dá-se a impressão que a habilidade técnica do executor será melhor representada e que haverá muito mais espaço para narrar aquilo que verdadeiramente se deseja.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Os arredores de Paris
Óleo sobre madeira - 23 x 35 - 1886

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Caçador na mata
Óleo sobre tela - 56 x 40,5 - 1879

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Caçador em Les Marais
Óleo sobre painel - 13,9 x 22,5 - 1880

Ivan Pavlovitch Pokhitonov é daqueles artistas que veio exatamente para quebrar essa regra com relação à expectativa de que uma grande obra tenha necessariamente que ser uma obra grande. Quase toda sua produção está voltada para as miniaturas, pequenas telas e painéis em madeira, que o tornaram famoso ainda jovem e que o projetaram para o sucesso mundial com colecionadores de todas as partes.


IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Campo próximo ao Vesúvio
Óleo sobre painel - 19 x 27,5

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Country Lane
Óleo sobre painel - 26 X 19

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Caçador em Pont Long
Óleo sobre painel - 21,5 x 35 - 1890

Quando em novembro de 2011, a obra Na praia, de apenas 18 x 32 cm, foi leiloada em Londres por quase 2 milhões de reais, confirmou todo o empenho e dedicação desse artista que acreditou profundamente naquilo que estava produzindo. Assim como essa, muitas de suas obras são consideradas verdadeiras preciosidades, provas cabais da habilidade extrema de um artista dedicado e muito talentoso.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Caçadores em Zhabovshchizna
Óleo sobre painel - 22,5 x 35 - 1902

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - A floresta perto da Torre del Greco
Óleo sobre madeira - 16 x 14 - 1890

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Torre del Greco - Óleo sobre painel - 16 x 23 - 1891

O fenômeno Pokhitonov reside no fato de que, sem educação artística formal, ele atingiu o topo da habilidade, superando a qualidade técnica de muitos pintores com experiência acadêmica. Nesse sentido, o historiador de arte francês Emile Whitmiore escreveu: “Após a exposição internacional na galeria de Petya em 1882, os mestres das artes de todos os países com honras aceitas em seu círculo, elegeram Pokhitonov, de 32 anos, digno de estar perto deles, reconhecido pelos artistas”.


IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Fazenda ao fim do dia - Óleo sobre painel - 15 x 26,5

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Trabalhadores no campo - Óleo sobre painel - 7 x 13,5

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Um artista pintando na Praia de La Panne
Óleo sobre painel - 14,5 x 17,5 - 1895

Desde 1876, o artista exibiu regularmente suas obras em salões parisienses. Os críticos gostaram dele favoravelmente, e ele rapidamente ganhou uma reputação como um criador de paisagens de primeira linha. Os trabalhos de Pokhitonov beneficiaram de uma tremenda demanda no mercado artístico. Para se ter uma ideia, Pavel Tretyakov, um famoso milionário e colecionador russo, que deu origem à galeria Tretyakov, comprou mais de vinte obras de Pokhitonov.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV
Caçador no inverno
Óleo sobre madeira - 19 x 14 - 1890

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - A carroça - Óleo sobre painel - 18 x 26,5

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV
Retrato de Morfoucha
Óleo sobre painel - 15 x 11,5 - 1916

Ivan Pavlovitch Pokhitonov (Іван Павлович Похитонов) nasceu em Matrionovka, Kherson Governorate, na Ucrânia, a 27 de janeiro de 1850, filho de Pavel Danilovich Pokhitonov e Varvara Alekseevna, ambos vindos da Sérvia. Aos sete anos de idade, ele apresentou o seu primeiro trabalho de pintura para sua mãe, uma cópia de uma cena de caça de uma gravura holandesa. Despertados pela habilidade do filho, ele foi matriculado em uma escola local, para treinar melhor suas habilidades. Mas, ele não conseguia se adaptar aos estudos, assim como não concluiria muitas instituições que frequentaria em toda sua vida.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Neve no Po - Óleo sobre madeira - 18 x 26 - 1890

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - O jardineiro - Óleo sobre painel - 18 x 25 - 1900

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Caminho entre o gramado - Óleo sobre painel - 14 x 19

Em 1868, Ivan Pokhitonov juntou-se à Petrovsk-Rozumiv Agricultural Academy, em Moscou. Naquela época, ela era uma das instituições educacionais mais avançadas do Império Russo. Um grande número de estudantes da Academia tinha pontos de vista revolucionários. Além da biblioteca oficial, eles liam obras proibidas. No verão daquele ano, eles foram praticar os aprendizados revolucionários junto a camponeses. Interditados pelos órgãos da lei, todos foram detidos. Durante o julgamento dos revolucionários, 310 pessoas foram presos. Ivan Pokhitonov não era um membro do círculo principal, então evitou um castigo mais severo. No entanto, ele foi expulso do segundo ano da academia e enviado ao exílio para Motronivka sob a supervisão de seu pai e da polícia. Já no ano seguinte, em 1871, Pokhitonov foi autorizado a se juntar à Universidade Imperial Novorossiysk, em Odessa, na faculdade de ciências naturais, onde gostava de ornitologia e zoologia. Faltoso na faculdade por dois anos, em 1871, Ivan Pokhitonov, por insistência de seus pais, retorna a Motronivka para administrar a propriedade da família.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Colheita - Óleo sobre madeira - 17 x 25

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Arredores de Liege
Óleo sobre madeira - 171 x 14 - 1908

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Homestead - Óleo sobre madeira - 15 x 26

Paralelamente ao treinamento na Universidade Novorossiysk, Pohitonov estava envolvido em desenho e aquarela. Em 1871, ele visitou sua mãe e irmã na Europa, onde primeiro participou de uma exposição de arte em Genebra. Lá, suas paisagens de aquarela agradaram muito. Em 1876 mudou-se para a Itália e, em 1877, instalou-se em Paris, onde se dedicou inteiramente à arte. Ele se tornou um membro da Sociedade de Paris para o Auxílio mútuo de artistas e tornou-se intimamente associado com V. D. Polenov, M. M. Antokolsky, V. V. Stasov e também com o pintor francês E. Meisjone e J. Bastien-Lepage.


IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Noite, Ucrânia - Óleo sobre painel - 16 x 34,5 - 1880

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Dia de lavagem - Óleo sobre painel - 15,3 x 23,8

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Depois da partida - Óleo sobre painel - 19,4 x 28,5

Pokhitonov não era averso ao aprendizado, muito pelo contrário. Ele até se esforçava em aprender, mas achava o tempo prolongado demais para isso. Por algum tempo ele melhorou suas habilidades no estúdio de E. Career. Ele assimilava rapidamente os ensinamentos técnicos e nunca persistia nos cursos com assiduidade. Em 1881, Pokhitonov recebeu uma encomenda estatal da Rússia para nove painéis que descrevessem os locais de batalha das tropas russas na Bulgária em 1877-1888. Em 1904, por causa dessa encomenda, ele foi eleito membro pleno da Academia Imperial de Belas Artes, na pintura de batalha.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - As lavadeiras - Óleo sobre painel - 13,3 x 17,3 - 1880

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Cena familiar em La Panne
Óleo sobre painel - 15,1 x 10,4 - 1911

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Monte de feno na paisagem
Óleo sobre painel - 17,2 x 26,4 - 1881

A maior parte do patrimônio artístico do artista é composta de paisagens em miniatura, feitas com um pincel fino em tábuas de madeira, com fundos avermelhados ou amarelados. Às vezes, ele usava uma lupa para executar suas pinturas. Ivan Pokhitonov trabalhou principalmente em plein air. Gostava das possibilidades improváveis do ambiente aberto e dos possíveis acidentes que enriqueciam suas pinturas, quando pintava condicionado pelo tempo. Nas obras de Pokhitonov, há influência latente da Escola de Barbizon e também dos impressionistas, principalmente nos detalhes cuidadosamente pintados, e nas transições de cores quase imperceptíveis.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Caçadores de patos num lago
Óleo sobre painel - 15 x 25 - 1885

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Primavera - Óleo sobre painel - 16,5 x 26 - 1887

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV
Normandia. Vista do Soberano Vandres da fazenda imperial
Óleo sobre madeira - 15 x 25

Desde 1893, o artista sempre viveu na Bélgica, nos subúrbios de Liege Bressuu. Mas viajava constantemente pela França, Itália e Rússia. Em 1895, ele foi admitido na Associação de Exposições de Arte Viajante. Em 1900, recebeu uma medalha de prata do Salão em Paris.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Château du Huras à Gélos, près de Pau
Óleo sobre painel - 14,6 x 36,2 - 1887

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Pommes en fleurs
Óleo sobre painel - 18,7 x 14,7 - 1885

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Casa de pescadores nas dunas
Óleo sobre painel - 16 x 18,5 - 1904

Em 1901, Pokhitonov adquiriu a mansão Zhabovschina na província de Minsk, onde ia e trabalhava por vários anos. Em 1906, ele voltou para a Bélgica. Em 1913, o artista chegou a São Petersburgo, onde ficou até 1917, durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1919 ele voltou para a Bélgica. Em 1922, realizou uma grande exposição individual em Liege, e um ano depois, em Antuérpia. Nos últimos anos, o artista não conseguiu trabalhar ativamente devido à deterioração da visão. Ivan Pokhitonov morreu a 23 de dezembro de 1923, em Liege, na Bélgica (apesar de algumas fontes indicarem Bruxelas). O seu túmulo está localizado em Liege.

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - No jardim - Óleo sobre madeira

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Primavera - Óleo sobre painel - 18 x 26,5 - 1888

IVAN PAVLOVITCH POKHITONOV - Vesúvio - Óleo sobre madeira - 11 x 28 - 1890

Em 1925, uma grande exposição memorial foi realizada em Liege. O grande artista ucraniano das pequenas obras deixou uma das colaborações mais valiosas para a pintura de seu país.

ILYA REPIN - Retrato de Ivan Pavlovitch Pokhitonov
Óleo sobre tela - 64,5 x 53,5 - 1882