domingo, 22 de julho de 2018

A ARTE NO SÉCULO XIX: Parte 2


JACQUES-LOUIS DAVID - Patroclus - Óleo sobre tela - 122 x 170 - 1780

O ideal de beleza grego foi ressuscitado nas propostas
neoclássicas. David se orientou das referências
gregas e romanas encontradas nas escavações
que visitara com frequência, por toda a Itália.

JACQUES-LOUIS DAVID - O funeral de Patroclus
Óleo sobre tela - 94 x 218 cm - 1779 - Galeria Nacional da Irlanda, Dublin

Dois estilos, tidos inicialmente como opositores, mas vistos posteriormente como dois lados de uma mesma moeda, deram as cartas no final do século XVIII e praticamente ditaram todo o início do século XIX, até a segunda metade dele: O Neoclassicismo e o Romantismo. Para muitos, o Neoclassicismo retratava a verdade absoluta da vida, vista pelo espelho das realidades puras e simples da Grécia Antiga e também de Roma. O Romantismo representava a realidade por meio de imagens das emoções brutas e descontroladas que prevaleceram nos tumultos após a Revolução Francesa. Curiosamente, o termo Romantismo pode ser usado para duas correntes artísticas completamente distintas entre si. Entre a pintura romântica francesa e a pintura romântica alemã há um verdadeiro abismo e, no entanto, o nome foi usado para designar movimentos artísticos nos dois países. Nessa matéria, concentraremos no Neoclassicismo, com ênfase especial para Jacques Louis David, o maior símbolo desse movimento.

LUIGI BAZZANI - Interior em Pompeia
Óleo sobre painel - 73 x 55,9 - 1882 - Dahesh Museum, Nova York

Pompeia inspirou muitos artistas, por todo o século XIX.
Motivados pelo ideal clássico de beleza, muitos deles
continuaram produzindo trabalhos com essa temática
por todo o século.

LUIGI BAZZANI - Cena de Pompeia com senhoras numa fonte - Óleo sobre tela - 1878

Neoclassicismo é uma palavra criada na década de 1880 (a identificação de um estilo artístico sempre se faz a posteriori), para definir o estilo nascido em meados do século XVIII, que superou o Rococó e foi o último “renascimento” da tradição clássica na arte. O Rococó, tido como uma arte frívola e superficial, foi substituído por uma arte de seriedade total e compromisso moral. Há que se ressaltar que o Neoclassicismo foi um movimento bastante educativo, pois seus devotos e seguidores acreditam que as belas-artes podiam e deviam difundir conhecimento e iluminação. O Neoclassicismo nunca desapareceu por completo na história mais recente da arte, vindo a ressurgir nos movimentos fascistas e nazistas e nos arquitetos modernos puristas do século XX e até mesmo nesse nosso século, com várias escolas retornando ao academicismo tradicional de início do século XIX, despertando o interesse de grande público para as abordagens estéticas daquele período.

JACQUES-LOUIS DAVID - Juramento dos Horácios
Óleo sobre tela - 330 x 425 cm - 1784 - Museu do Louvre, Paris

JACQUES-LOUIS DAVID - Hector - Óleo sobre tela - 1778 - Museu Fabre, Montepelier

Há uma diferença significativa do “renascer” neoclássico do século XVIII para os movimentos propriamente renascentistas anteriores e até mesmo do Alto Renascimento. Nos períodos anteriores, havia o desejo de reconhecer Grécia e Roma como fontes únicas da inspiração clássica do passado. No século XVIII, graças às inúmeras escavações arqueológicas que aconteciam em várias partes da Europa, Ásia e África, revelou-se um mundo antigo muito mais complexo do que simplesmente Grécia e Roma, e que compreendia a Pérsia Antiga, o Egito e até os mundos medieval e oriental. Pompeia e Herculano foram o pontapé inicial, mas não eram a única referência de um passado brilhante e muito rico culturalmente. As novas descobertas incitaram fortes reações emocionais e românticas ao passado e, por isso, é preciso compreender o Neoclassicismo como participante do movimento mais amplo do Romantismo.

JACQUES-LOUIS DAVID - A morte de Marat
Óleo sobre tela - 165 x 128 - 1793
Museu Real de Belas Artes da Bélgica, Bruxelas

JACQUES-LOUIS DAVID
Retrato de Antoine-Laurent e Marie-Anne Lavoisier
Óleo sobre tela - 259,7 x 194,6 cm - 1788
Museu Metropolitano de Nova York

Entre os intelectuais do período, chegou a haver brigas acirradas a respeito de qual modelo era mais puro: Roma ou Grécia. As novas descobertas fantásticas de afrescos inteiros e de mobílias de bronze praticamente intactas em Pompeia e Herculano suscitaram uma onda de evocações e interpretação de tudo o que fosse romano. Mas a Grécia, principalmente com a descoberta dos templos gregos arcaicos da ordem dórica de Pesto, no sul da Itália, tornou-se predominante.

JACQUES-LOUIS DAVID - A coroação de Napoleão e Josefine
Óleo sobre tela - 629 x 979 cm - Entre 1805 e 1807 - Museu do Louvre, Paris

JACQUES-LOUIS DAVID
O Imperador Napoleão em seu estúdio nas Tulheiras
Óleo sobre tela - 203,9 x 125,1 cm - 1812
Galeria Nacional de Arte, Washington

É possível que certa escassez de teóricos-filósofos tenha posto os Franceses em condições de inferioridade com os alemães, naquele momento, mas, por fim, foram eles que ganharam a partida. Afinal, as teorias artísticas só assumem verdadeira importância quando podem apoiar–se em obras, as quais, para os homens que trabalham com as próprias mãos, valem mais do que uma doutrina. Estas obras, que se impuseram à evidência, são as de Jacques-Louis David. Durante sua formação, ele subestimava a antiguidade, dizendo que esta carecia de vivacidade; mas, após uma longa viagem aos novos sítios arqueológicos da Itália (em especial Pompeia e Herculano), concluiu que vira a verdadeira luz do passado. Também como foi formado na escola do artista Vien, equivale dizer que a Antiguidade não lhe era desconhecida. Seu mestre já defendia essa corrente, muitos anos antes.

JACQUES-LOUIS DAVID - Napoleão atravessando os Alpes
Óleo sobre tela - 271 x 232 cm - 1802 - Chateau de Versalhes, Paris

JACQUES-LOUIS DAVID - Leônidas e Termópilas
Óleo sobre tela - 395 x 531 cm - 1814 - Museu do Louvre, Paris

De regresso à França, David lançou-se a pés juntos no movimento revolucionário, em cujo seio conseguiu impor as suas ideias reformadoras. Foi em particular o grande artífice da destruição das academias do antigo regime, nas quais se mantinha uma tradição que ele odiava. Entretanto, o seu gênio, a que se entregara de corpo e alma, só tirava benefício da sobriedade que a si mesmo se impusera. Poucos quadros são tão trágicos como o Marat que ele pintou, morto, dentro da banheira.

JACQUES-LOUIS DAVID - O rapto das Sabinas
Óleo sobre tela - 385 x 522 - Entre 1796 e 1799 - Museu do Louvre, Paris

Entretanto, veio Bonaparte, ao qual David se dedicou com tanta mais paixão quanto é certo que o herói partilhava do seu culto da Antiguidade. Tornou-se, pois, o pintor oficial do Império e a sua imensa tela da Sagração constitui uma página histórica esplêndida, bastante rica de cor, de composição apressada mas majestosa, cheia de retratos, cada um dos quais é uma obra de grande categoria, preparada por esboços que são em si mesmos obras-primas.

JACQUES-LOUIS DAVID - A morte de Sócrates
Tinta e lápis sobre papel - 27,8 x 41,6 - 1786 - Coleção particular

JACQUES-LOUIS DAVID - A morte de Sócrates
Óleo sobre tela - 129,5 x 196,2 - 1787 - Museu Metropolitano de Nova York

David tornou-se um ídolo, chegou mesmo a ser chamado de O Messias da Arte. Uma de suas obras mais famosas, A Morte de Sócrates, ostenta o estoicismo do filósofo no momento antes de beber a cicuta e morrer. A partir desse momento, a Antiguidade entrou em moda, todas as casas contemporâneas sentiam-se na obrigação de ter mobília ou papel de parede ao estilo Pompeia. Chegou ao cúmulo de algumas mulheres da época, em homenagem às Sabinas, passarem a exibir um dos seios em homenagem a elas, tal qual se via no famoso quadro de David, O Rapto das Sabinas.

GIRODET - O funeral de Atala - Óleo sobre tela - 207 x 267 - 1808 - Museu do Louvre, Paris

PIERRE-NARCISSE GUÉRIN - Morpheus e Iris
Óleo sobre tela - 251 x 178 - 1811 - Museu Hermitage, São Petersburgo

JEAN BERNARD RESTOUT - Os prazeres de Anacren - Óleo sobre tela - 196,3 x 250,2

JEAN FRANÇOIS PIERRE PEYRON - Belisarius recebendo pastores
Óleo sobre tela, colada em painel - 49,3 x 62,3 - 1811

JEAN LEON GEROME - O combate dos galos - Óleo sobre tela - 39,5 x 55,2
Museu d'Orsay, Paris

Giroudet, Guérin, Restout, Peyron, Gerome... Uma lista extensa
de ótimos artistas sucederam com o ideal clássico
despertado por David. Não obtiveram a fama e a intensidade
do mestre, mas marcaram uma página brilhante na arte
neoclássica daqueles tempos.

Por trás de todo grande gênio artista do passado sempre houve um grande mecenas. David floresceu graças ao sucesso de Napoleão e também findou junto com a sua queda. Exilado pelos Bourbons em 1815, David terminou a sua vida no exílio em Bruxelas, como ele mesmo escolheu, pois Luís XVIII até havia lhe oferecido anistia e mesmo uma posição na corte. David adquiriu na França uma autoridade quase tirânica e a história da pintura, no começo do século XIX, é quase exclusivamente a da sua escola. No entanto, nessa oficina, a primeira do seu tempo, os discípulos foram, na sua maioria, medíocres, se comparados com seu grande mestre. É tudo o que se pode dizer dum Guérin e dum Girodet. Gérard merece mais apreço: os seus retratos femininos respiram surda volúpia, mas perdia o fôlego perante as grandes composições segundo os moldes do antigo, que os seus companheiros olhavam como o cúmulo da arte. Menos que ninguém podia Gros entusiasmar-se por esta arqueologia. Prudhon é o que mais se aproxima das referências plenas de seu mestre.

FRANÇOIS JOSEPH NAVEZ - Retrato de Jacques-Louis David
Óleo sobre painel - 74,5 x 59,5 - 1817

Jacques-Louis David nasceu em Paris, a 30 de agosto de 1748 e faleceu em Bruxelas, a 29 de dezembro de 1825.
O Neoclassicismo já não se restringiria unicamente ao território francês. Espalhou por toda a Europa e também pela América. Continuaremos nossa viagem num próximo encontro.

VEJA TAMBÉM A MATÉRIA ANTERIOR:
. A arte no século XIX: Parte 1

4 comentários:

  1. Muito boa resenha, interessante que os ideais neoclassicistas se mantiveram de pé até o final do séc 19, com jean-leon-gerome, Bouguereau, Alma-Tadema, waterhouse, Charles Bargue etc... Mais interessante ver como em sua fase final, um padrão tão elevado de rigor técnico, composicional e temático, foi contemporãneo dos impressionistas e neo impressionistas e, por fim, sucedido por arte de baixíssima qualidade técnica, e o pior! Tendo seus Grandes nomes, como meissonnier, david, bouguereau, ingres, esquecidos, ou melhor, escondidos dos olhos do povo por campanhas massivas de propaganda a favor da industria da "arte moderna" (para entender o porque disso, basta comparar o número de produções de Bouguereau com o de Picasso, enquanto o primeiro produziu pouco mais de 800 quadros em vida, picasso supera os 100.000)... Graças a Deus a humaninade vem redescobrindo essas jóias verdadeiras e retornando a produzir algo que vale a pena.

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    1. Obrigado pela participação, Filipe.
      Sim, felizmente os meios de comunicação de hoje fazem justiça aos grandes nomes do passado.
      A intenção, dessa série de matérias que iniciei, é exatamente resgatar tantos nomes esquecidos. A viagem continua...

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  2. A morte de Marat é de tirar o fôlego... demais!
    Amigo,obrigado por tudo...

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    1. Eu que agradeço a presença de sempre, amigo.
      Um grande abraço!

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