Da esquerda para a direita: Douglas Okada, José Rosário, Gonzalo Cárcamo, Luiz Fernando (Instituto Seraphis), Luís Carlos Marques Fonseca (Nova Acrópole), Juliana Limeira, Ronaldo Boner e Vinícius Silva.
Todas as vezes que há um
confronto entre Arte Contemporânea e Arte Clássica, cria-se um embate e ao
mesmo tempo uma possibilidade ao entendimento, ainda que esse último pareça
distante e que muitos setores da própria arte insistam para que ele nunca aconteça.
A inauguração da Exposição “Realismo Hoje” traz à tona uma temática necessária,
muitas vezes evitada e grande parte das vezes abafada: a beleza na Arte é
possível? Pela minha vivência com o tema, diria que não somente é possível,
como se torna urgente. Os nove artistas que participam da mostra não tem a
pretensão de se declararem representantes únicos de uma nova corrente que luta
pela busca de uma nova arte, aquela que reinstaure a procura da beleza como
ideal de expressão. São, como muitos artistas, espalhados pelo Brasil e pelo
mundo, sobreviventes contra um meio hostil, que cada vez mais oprime e
direciona a grande massa.
GONZALO CÁRCARMO - Meninos puxando a rede de pesca, detalhe
JULIANA LIMEIRA - Em busca, detalhe
ALEXANDRE REIDER - Florada das paineiras, detalhe
Sei que estarei comprando
uma briga com todas as correntes que insistem em fazer crer que a Arte se
tornou um jardim de liberdade irrestrita, que tudo nela se pode e que temos que
assistir ao desfile de tantas sandices, que muitas vezes nos afastam com força
do maior e mais nobre ideal procurado na arte: o da beleza e do diálogo
constante com ela, e com os bens que esse diálogo proporciona às nossas vidas.
Como nas ágoras da Antiga Grécia, onde os problemas se exauriam e se resolviam
pelo maior conhecimento de si mesmos, a internet me parece a ágora mais
democrática do momento. Aqui, estamos pelo menos mais isentos (se quisermos) da
simplificação violenta da Arte. Em nenhum outro lugar, como aqui, a
monopolização da Arte por uma pequena minoria parece sofrer tanta ameaça.
Concordo com a máxima de Arnold Hauser, quando afirma que “o problema não
consiste em confinar a Arte ao horizonte das grandes massas, mas ampliar o
horizonte das massas tanto quanto possível”. Como artista, principalmente
defensor de um estilo realista, que ainda comunga dos ideais clássicos, vejo o
quanto a democracia entrou em desuso. As grandes galerias atuais, bem como
bienais e espaços públicos, não estão dispostos a expor uma Arte que resgate
antigos valores e que proporcione ao público o direito sagrado do livre
arbítrio e da escolha, estão mais preocupados em “vender” o produto da moda,
ainda que ao público consumidor seja servida apenas uma viseira, que cega e
direciona para os trilhos daqueles que tem poder. Não estamos lutando para que um estilo prevaleça sobre outro, é exatamente essa guerra de "ismos" que devemos evitar, se quisermos evoluir como artistas que caminham pela construção de um mundo melhor. Mas, sou consciente que esse
diálogo se faz necessário. Todos nós crescemos quando abrimos ao diálogo. E,
mesmo que não cheguemos a alguma conclusão nesse momento, caminhamos em direção
a ela. Se andamos dois passamos e recuamos um, pelo menos saímos do lugar.

RONALDO BONER - Arranjo com girassóis, detalhe
JOSÉ ROSÁRIO - Congados em dia de festa, detalhe
DOUGLAS OKADA - Raquel, detalhe
O fim do Impressionismo
marcou o final de um período de cerca de 400 anos em que a Arte tinha como meta
produzir algo belo, que encantasse sem precisar de um discurso paralelo. Cada
obra desse período não precisava de uma cartilha de tiracolo, que a
interpretasse para todos que se colocassem diante dela. Dentro desse mesmo
período, que se iniciou lá no Renascimento, movimentos renovaram a linguagem artística, adaptaram-se ao seu tempo,
mas nunca perderam como meta a procura do encantamento, esse mesmo encantamento
que nos faz sentir a vida mais leve e confirmar que o “supérfluo” do produto
artístico é o essencial para a melhora de nossos dias. Tudo que se produziu de
novo, depois do Impressionismo, foi uma recusa constante ao encantamento, da
perda da natureza como fonte inspiradora e quase sempre uma violação a ela. À
partir de então, o culto àquilo que agride, que deprime, que causa melancolia,
passa a ser a regra. Todas as manifestações artísticas sofreram graves
consequências, os valores pictóricos são destruídos, não importa mais o cuidado
na elaboração da imagem. A poesia perde a sistematização da estrutura e se
expressa em frases soltas, desconexas, muitas vezes ditas nas entrelinhas e
numa subjetividade que nada afirma. Também a música perde a melodia e a
tonalidade, nos afastando cada vez mais dos caminhos que nos conduzem à paz de
nossas almas. A Arquitetura se tornou quase estéril, preocupando demasiadamente
em nos colocar num ambiente que apenas nos contém, mas que não nos abriga com
tudo aquilo que somos. O século XX foi o palco onde aconteceu tudo isso. No afã
de ridicularizar tudo que foi produzido pelos nossos antepassados, a Arte dita
moderna começou a agredir diretamente alguns mestres do passado. Exemplo
clássico é o da Mona Lisa executada por Marcel Duchamp, onde ela aparece com uma
barbicha e bigode. Fazer piada com algo que sempre foi uma referência e
símbolo, parece fortalecer adversários que não tem nada mais a oferecer além
disso: ironia. Mas, tudo isso é muito engraçado apenas por um breve intervalo
de tempo. Continuaremos apenas rindo de nossas desgraças, sem buscar uma saída
para elas? Muito do que se produz na Arte Contemporânea foge do sentido de
revitalização proposto pelo verdadeiro espírito da Arte. A Arte que não tenha
um compromisso com a melhoria da nossa condição humana estará confinada a uma
simples replicação do caos, e seus artistas são nada mais que desnecessários
profetas do agouro. É muito fácil montar uma instalação com centenas de vestes
ensanguentadas, nos dizendo que somos cúmplices das “chacinas” que matam o
mundo, o difícil é mostrar algo que seja a solução para isso. Repetir a
tragédia da nossa realidade humana não é tão complicado quanto apontar o
caminho para sairmos dela. Queria que os artistas de hoje se preocupassem menos
em chocar e muito mais em extasiar. Se um escultor de hoje produz uma bela
imagem, com proporções bem elaboradas e bem acabada, não tem muito valor. Mas,
se pegar a mesma escultura, serrar ao meio e pendurar de cabeça pra baixo, é um
gênio. Que valores estamos conquistando com isso? Até que ponto destruir o
nosso gênio inventivo será mais importante que edificá-lo? Precisamos de uma
Arte para amaciar o coração da humanidade, porque de pedra já nos tornamos
eficientes.

CHARLES OAK - Tribo Himba, detalhe
VINÍCIUS SILVA - Inverno na corredeira da Trindade, detalhe
MARCUS CLÁUDIO - Costureira, detalhe
Quando recebi o convite da
Juliana Limeira, para estar compondo, juntamente com outros artistas, uma
exposição que fosse um pouco do resgate da Arte que nos faz reencontrar valores
perdidos, logo vi que não estava só. Ainda é possível acreditar em resgatar um
pouco da nossa dignidade humana e contagiar outras pessoas com isso. A Nova
Acrópole me fez confirmar ainda mais que estou no caminho certo. Somente com o
aprofundamento do conhecimento daquilo que somos, baseados na herança cultural
que nos deixaram os ricos ensinamentos orientais e ocidentais, podemos caminhar
na direção de um mundo onde Justiça, Beleza e Bondade sejam imperativos e não
uma utopia. Um lema da organização e que muito me marcou é que “se você acredita
que esse mundo ideal é possível, não espere que ele apareça para você, faça
parte dessa construção, seja arquiteto de seu próprio tempo”.
Não poderia terminar
esse texto, sem citar Jorge Angel Livraga: “Limpemos o mundo começando por nós
mesmos. A limpeza, a verdadeira higiene espiritual, é a melhor forma de Arte. E
o ato de fazê-lo é o melhor artesanato. Deus abençoe o trabalho, Deus abençoe o
esforço. Deus abençoe os humildes que talham a madeira e modelam o barro. Deus
abençoe aqueles outros, os escolhidos dos deuses, que podem plasmar em letras,
em música, em cores, aquelas cores tão bonitas que escapam ao resto dos homens.
Artistas e artesãos vão unidos para um mundo melhor. Eles devem marcar, no meio
da noite, a luz do horizonte que indica que começou amanhecer”.