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domingo, 11 de setembro de 2011

JOSÉ ASSUNÇÃO

JOSÉ ASSUNÇÃO - Antiga matriz, São Domingos do Prata - 1989

Participei recentemente de uma homenagem a José Assunção, um artista da vizinha cidade de São Domingos do Prata. A homenagem aconteceu pela passagem de seu centenário de nascimento. E ela se realizou de uma maneira especial, pois uma de suas obras foi lançada em um selo pelos Correios, que já está circulando em todo o território nacional.
Foi uma cerimônia bem solene e saudosista, onde foi possível rever seus parentes e encontrar velhos amigos, admiradores de seu trabalho. Após o ato de obliteração do primeiro selo, na Câmara Municipal, a cerimônia continuou com uma grande e bem representativa exposição na Casa de Cultura de São Domingos do Prata. Tudo muito bem organizado, inclusive com banda de música, recordando os velhos tempos de festejos do município, e fazendo justiça ao que talvez seja um dos mais destacados artistas da cidade.

Selo de homenagem a José Assunção

Câmara Municipal de São Domingos do Prata.
Noite de lançamento do selo comemorativo com a
obra de José Assunção.

José Assunção nasceu em São Domingos do Prata, num distrito chamado Morro da Sela, a 15 de agosto de 1911, e faleceu em Belo Horizonte, no ano de 2003. Já o conheci bem de idade e fiz, juntamente com ele, a sua última coletiva, em 2003. Era uma retrospectiva de sua trajetória, muito bem elaborada e conduzida por Laércio Maciel, um admirador e grande incentivador da arte em São Domingos do Prata. Não foi só oportunidade para conhecer o artista pessoalmente, mas estar perto de muitos dos seus trabalhos, pelos quais sempre tive uma especial admiração e respeito.


JOSÉ ASSUNÇÃO - Colheita - 30 x 50 - 1999

JOSÉ ASSUNÇÃO - Festa de N Senhora - 1986

A obra desse artista é primitivista na sua mais pura essência. Num termo atual que apelidaram de Naif, o Primitivismo é o veículo de arte de muitos anônimos artistas espalhados mundo afora. Completamente autodidatas, sem terem tido a menor influência, esses artistas encantam exatamente por isso, por pintarem aquilo que sentem, sem técnica específica, sem as aparas da crítica e sem a menor influência de qualquer escola acadêmica.
A obra de José Assunção é ainda mais especial, porque não é apenas a narrativa solitária de mais um artista, é o documento vivo de um período de festas, cerimônias religiosas, de costumes e tradições que marcaram os lugares onde ele viveu, seja em São Domingos do Prata, palco de seus anos iniciais, ou Nova Era e Itabira, onde viveu também grande parte de sua vida.


JOSÉ ASSUNÇÃO - Vista parcial de Nova Era - 1984

JOSÉ ASSUNÇÃO - Forró - 35 x 61 - 1975

Filho de Josefa Sérgia e Antônio Praxedes de Carvalho, gente simples do interior do “Prata”, começou a estudar somente aos 10 anos de idade, onde não ficou por mais que dois anos. Também residiu em Nova Era, tendo de lá lembranças da degradação do Ciclo do Ouro, tema que viria a abordar em suas obras.
Mudando para Itabira, onde foi lavrador, barbeiro, ajudante de mascate e caixa de bar, só começou a pintar em 1953, realizando sua primeira encomenda. Ela veio pelo pedido de seu sogro, que o solicitou para pintar uma bandeira para a Festa de Santo Antônio. A partir daí começou sua produção de quadros, sempre usando o eucatex como base. Um dos grandes incentivadores, e provavelmente o marchand que mais adquiriu trabalhos seus, foi Waldemar, da Galeria Relicário 1800, de Ouro Preto. Calcula-se que tenha produzido cerca de 2 mil obras, hoje espalhadas por vários estados brasileiros e também adquiridas por coleções do centro europeu.


JOSÉ ASSUNÇÃO - Folia de Reis - 36 x 63 - 1975

JOSÉ ASSUNÇÃO - Dia da padroeira - 40 x 70 - 1985

Mesmo de poucos estudos, ele se alfabetizou e gostava de ler e escrever. Produziu uma autobiografia, e também se arriscou como compositor, tocando violão e bandolim, nas missas da Catedral Nossa Senhora do Rosário. A religião é aliás o que povoa quase todas as suas obras. Para ele, ir à missa era um dever de toda família. Sempre muito rigoroso, fez com minúcias, detalhes e muito capricho, uma narrativa da prática religiosa que o acompanhou por toda vida.
“Há certas curiosidades interessantes que habitam os seus trabalhos. Como a representação, em quase todas as obras, de um casal de velhinhos. Quando eles não apareciam, brincava dizendo que estavam dormindo”, recorda Margarida, filha do artista, também pintora.


JOSÉ ASSUNÇÃO - 7 de setembro - 34 x 61 - 1975

JOSÉ ASSUNÇÃO - Parusia - 34 x 61 - 1974

Uma bela consideração fez Márcio Sampaio, curador que organiza as recentes mostras do artista: “Diz a lenda que ele colocava preço no trabalho de acordo com o número de personagens na tela; quanto mais, mais caro. Trata-se de visualidade marcada pelo acúmulo de elementos, com horror ao vazio, barroco mesmo.” Ele acrescenta: “Ele é festivo. Tudo é visto de uma forma feérica, até as cenas da paixão de Cristo. Raramente aparecem imagens em tom melancólico. É pintura caprichosa, bonita, que evoca a vida do interior, da roça, movida por vontade de levar para a tela tudo que o artista tem na cabeça. A sua pintura torna permanente o que é transitório, como por exemplo, as festas”.
Time de craques, José Assunção integra grupo de artistas notáveis, como Lorenzato, Artur Pereira, Valentim Rosa, GTO, entre outros, com obra que começa a ser conhecida na passagem dos anos 1960 para os 1970, e que, com o passar do tempo, vem ganhando respeito e admiração. Para Márcio Sampaio é “um timão”, de grande qualidade artística. O motivo da aparição de geração tão prodigiosa, brinca Márcio, é mistério. Em curso no processo estaria o impacto do barroco, “que é muito visível na nossa região e fica na mente das pessoas”. Depois, “olhares afetuosos”, de colecionadores e críticos, como a mineira Mari’Stella Tristão ou do carioca Roberto Pontual, que abriram espaço para os artistas em salões de arte.


Solenidade - Coral do Tribunal de Alçada de Belo Horizonte
Coletiva de José Assunção e José Rosário
São Domingos do Prata, 2003

Cerimônia na coletiva de José Assunção e José Rosário,
no Forum da cidade de São Domingos do Prata, em 2003.

São artistas que, passado o período de consagração, continuam sendo presença do ponto de vista da criação e pela beleza das obras. O curador acrescenta à lista Rodelnégio, Julio Papa de Roma (“cuja obra está se perdendo”) e Maurino Araújo (“que toca a questão da arte primitiva mesmo não sendo um primitivista”). Turma que, para ele, merece ter suas obras levantadas, pesquisadas e estudadas. A partir de trabalho com essa inspiração, sugere Márcio Sampaio, pode surgir livro sobre cada um deles, já que apenas Lorenzato e Artur Pereira ganharam, até agora, volume a altura do que realizaram.

Em 1978, José Assunção recebeu uma premiação máxima pela obra “Folia de Reis”, em uma exposição da Asta, no Rio de Janeiro. Um grande artista, tendo agora reconhecido seu devido lugar.



JOSÉ ASSUNÇÃO DE CARVALHO
São Domingos do Prata/MG - 1911
Belo Horizonte/MG - 2003

sábado, 4 de dezembro de 2010

AS CIDADES E A ARTE (José Rosário)

SIR LAWRENCE ALMA-TADEMA - Primavera
Óleo sobre tela - 179,1 x 80
J.Paul Getty Museum, Los Angeles
Com uma suntuosidade clássica, Tadema mostra os costumes
da Roma antiga. Luxo e exagero em uma das cidades mais
importantes da história.

Muito mais do que apenas situar uma posição geográfica, as cidades são aglomerados de pessoas que se reuniram dentro de um ideal comum ou, pelo menos, deveriam. Seja pela busca de trabalho, estudo, negócio, religião ou até mesmo pelo turismo, o mundo está se tornando cada vez mais urbano. Pesquisas tem demonstrado que o êxodo rural já é uma realidade em quase todas as regiões do globo. A cidade onde moro é um típico exemplo, perdeu cerca de mil e seiscentos habitantes nesse último censo, conseqüência da saída, principalmente de jovens, buscando um mercado de trabalho que tenha uma tendência mais tecnológica, e não o campo. Um fato constatado é que a vocação agrária passou para o lado dos grandes latifundiários. Pessoas não produzem mais para sobreviver, como faziam no passado.


CARL VON MARR - Os flagelados
Óleo sobre tela
Galeria de Belas Artes de West Bend, Winsconsin
Uma visão alegórica e assustadora das desgraças humanas.
GIUSEPPE DE NITTIS- Galeria Nacional de Londres
Óleo sobre tela, 70 x 105
Museé du Petit Palais, Paris
A visão de uma cidade em um de seus momentos históricos mais significativos.

A história das civilizações teve as primeiras pedras lançadas quando o homem se fixou num local qualquer, formando as primeiras comunidades, abandonando assim a sua, até então, vocação nômade de caçador, e começando a cultivar seu próprio alimento. Como as plantas demoram um pouco até chegar o momento da colheita, era preciso criar alternativas ao tédio da espera. Imagino que nesse exato momento, vieram muitas conquistas: a escrita, as primeiras trocas de comércio, as primeiras canções, as primeiras construções, os primeiros líderes, as primeiras divindades... E porque não dizer também, os primeiros atritos e interesses. Não importa, estamos assim há um bom tempo e creio que a tendência é continuar sempre assim, mesmo com grupos se isolando ou sendo obrigados a isolar em favelas, condomínios e todo tipo de comunidade.

ANTÔNIO FERRIGNO - Rua 25 de março, São Paulo
Óleo sobre tela 20 x 39
Coleção Abrahão Zarzur
Face de uma São Paulo que não existe mais.
THOMAS ALLEN - Praça do mercado, San Antonio
óleo sobre tela montado sobre painel, 66 x 101
O comércio surgiu nos primeiros povoados em todo o mundo.
Onde sempre houve pessoas aglomeradas, 
sempre houve espaço para trocar, comprar e vender.
MIAN SITU - O grande incêndio em San Francisco
Óleo sobre tela - 116 x 193
Mesmo vivendo nos dias de hoje, Mian Situ faz uma sensacional abordagem
de um momento delicado da história desta cidade californiana.

Toda comunidade se forma basicamente ao lado de um curso d’água: rio, ribeirão, lago, mar... Água doce é o que mantém todos vivos. Civilizações já foram suntuosas, imperiais, burguesas, plebéias, isoladas em guetos, discriminadas... E se formaram por todos os lados. Somos a única espécie animal que consegue se adaptar em qualquer ambiente.

EUGÈNE GALIEN-LALOUE - Mercado das flores em Madeleine, Paris
Guache, 18 x 31
FEDERICO DEL CAMPO - Canal de Santa Bárbara, Veneza
Óleo sobre painel, 17x5 x 28
Paris e Veneza são, provavelmente,
as cidades mais desenhadas e pintadas na História da Arte.

Na História da Arte, os centros urbanos sempre tiveram muitos artistas a representa-los. Trabalhos fantásticos, essas são as imagens de uma época onde ainda não existia a fotografia ou outro registro que pudesse mostrar às gerações futuras, um pouco de suas realidades. São pelos desenhos e pinturas, que sabemos dos processos evolutivos porque passaram várias cidades mundo afora. Só para se ter uma idéia da importância desse tipo de pintura, quando terminaram as 1ª e 2ª guerra mundiais, Varsóvia estava arruinada. Poucos eram os registros fotográficos que existiam naquela época para que a cidade fosse reerguida com exatidão e respeito às construções que antes existiam. Foi quando descobriram os trabalhos de um importante pintor, Bernardo Bellotto, que com rigorosidade arquitetônica, pintou e eternizou Varsóvia em várias telas, permitindo assim que a sua reconstrução fosse a mais fiel possível, dentro do que existia.

BERNARDO BELLOTTO - Varsóvia vista do Palácio Real
Óleo sobre tela - 166 x 269
Museu Nacional, Varsóvia.
A prova de que uma pintura bem rica em detalhes pode colaborar
em momentos de tragédia.

Os registros pictóricos urbanos nos revelam muito mais que um simples amontoado de casas. Falam do ser humano, suas conquistas, seus momentos de êxtase e tragédias. E os registros começaram a ficar ainda mais autênticos à medida que entrou o século XX. Com o desenvolvimento e aprimoramento dos recursos fotográficos, os artistas já não procuravam mais representar com exatidão as cenas das cidades. Máquinas são muito melhores para isso. Acredito que a fotografia foi o grande “clique” que faltava para a arte ganhar novos rumos. É nessa hora, que as cenas ganham a visão íntima e particular de cada artista, fazendo aquilo que nenhuma máquina é capaz de fazer. 

FRED JACKSON - Fonte em Montreuil-sur-Mer
Óleo sobre painel, 32 x 40x5
CHILDE HASSAM - Quinta Avenida, 1890, Nova Iorque
Óleo sobre tela, 64 x 53
SÉRGIO TELLES - Ouro Preto
Óleo sobre tela, 79 x 98
ARMANDO SENDIN - Paisagem de Suspiros
Óleo sobre tela, 38 x 46
Foi o Impressionismo que abriu caminhos para uma nova
visão do mundo. As cidades passaram a ser mostradas 
não como eram, mas, como faziam sentir.
FERNAND LÉGER - Os construtores
Óleo sobre tela, 299,8 x 200
MARC CHAGALL - Paris
Óleo sobre tela
NILTON ZANOTTI - Construção I: Visão urbana
Mista sobre tela, 80 x 120
NADIA CASCINI - Toscana revisitada
Óleo sobre tela

Ganhando facetas impressionistas, cubistas, surrealistas, modernas, pós-modernas, ganhando também ares abstratos e futuristas. A arte se reinventou e continua se reinventando. Muito mais que preservar a simples imagem de uma época, como era a intenção no passado, desenhar e pintar os centros urbanos de hoje preservam a consciência e a visão de quem os faz. O artista se mostra na obra e a obra se mostra ao mundo.

GEORGIA O'KEEFFE - Radiator building
Óleo sobre tela, 121,9 x 76,2
HÉCTOR CARYBÉ - Vilarejo em festa
Óleo sobre tela, 50 x 35
CHANINA - Cidade
Óleo sobre tela, 73 x 54
NICOLA RESMINI - Vila ao sol
Mista sobre tela

No ano 2000, recebi uma encomenda (estranho falar de encomenda em arte) para pintar a cidade de São Domingos do Prata, vizinha da minha. A “encomenda”, que quero explicar desde já me dava liberdade na escolha do ângulo, técnica e estilo, foi feita por Laércio Marciel, que desejava retratar a cidade num momento tão único: a virada para o terceiro milênio. Fui algumas vezes lá e escolhi o ângulo que mais identificava, tanto com o desejo da encomenda como aquilo que a cidade me passava. Como não moro lá, fiz uma representação realista e bem detalhada. Medindo 75 x 184 cm, é um dos maiores trabalhos que realizei em termos de tamanho. A encomenda ficou pronta no ano de 2002.

JOSÉ ROSÁRIO - São Domingos do Prata: Ano 2000
Óleo sobre tela, 75 x 184