JOSÉ ASSUNÇÃO - Antiga matriz, São Domingos do Prata - 1989
Participei recentemente de uma homenagem a José Assunção, um artista da vizinha cidade de São Domingos do Prata. A homenagem aconteceu pela passagem de seu centenário de nascimento. E ela se realizou de uma maneira especial, pois uma de suas obras foi lançada em um selo pelos Correios, que já está circulando em todo o território nacional.
Foi uma cerimônia bem solene e saudosista, onde foi possível rever seus parentes e encontrar velhos amigos, admiradores de seu trabalho. Após o ato de obliteração do primeiro selo, na Câmara Municipal, a cerimônia continuou com uma grande e bem representativa exposição na Casa de Cultura de São Domingos do Prata. Tudo muito bem organizado, inclusive com banda de música, recordando os velhos tempos de festejos do município, e fazendo justiça ao que talvez seja um dos mais destacados artistas da cidade.
Selo de homenagem a José Assunção
Câmara Municipal de São Domingos do Prata.
Noite de lançamento do selo comemorativo com a
obra de José Assunção.
José Assunção nasceu em São Domingos do Prata, num distrito chamado Morro da Sela, a 15 de agosto de 1911, e faleceu em Belo Horizonte , no ano de 2003. Já o conheci bem de idade e fiz, juntamente com ele, a sua última coletiva, em 2003. Era uma retrospectiva de sua trajetória, muito bem elaborada e conduzida por Laércio Maciel, um admirador e grande incentivador da arte em São Domingos do Prata. Não foi só oportunidade para conhecer o artista pessoalmente, mas estar perto de muitos dos seus trabalhos, pelos quais sempre tive uma especial admiração e respeito.
JOSÉ ASSUNÇÃO - Colheita - 30 x 50 - 1999
JOSÉ ASSUNÇÃO - Festa de N Senhora - 1986
A obra desse artista é primitivista na sua mais pura essência. Num termo atual que apelidaram de Naif, o Primitivismo é o veículo de arte de muitos anônimos artistas espalhados mundo afora. Completamente autodidatas, sem terem tido a menor influência, esses artistas encantam exatamente por isso, por pintarem aquilo que sentem, sem técnica específica, sem as aparas da crítica e sem a menor influência de qualquer escola acadêmica.
A obra de José Assunção é ainda mais especial, porque não é apenas a narrativa solitária de mais um artista, é o documento vivo de um período de festas, cerimônias religiosas, de costumes e tradições que marcaram os lugares onde ele viveu, seja em São Domingos do Prata, palco de seus anos iniciais, ou Nova Era e Itabira, onde viveu também grande parte de sua vida.
JOSÉ ASSUNÇÃO - Vista parcial de Nova Era - 1984
JOSÉ ASSUNÇÃO - Forró - 35 x 61 - 1975
Filho de Josefa Sérgia e Antônio Praxedes de Carvalho, gente simples do interior do “Prata”, começou a estudar somente aos 10 anos de idade, onde não ficou por mais que dois anos. Também residiu em Nova Era , tendo de lá lembranças da degradação do Ciclo do Ouro, tema que viria a abordar em suas obras.
Mudando para Itabira, onde foi lavrador, barbeiro, ajudante de mascate e caixa de bar, só começou a pintar em 1953, realizando sua primeira encomenda. Ela veio pelo pedido de seu sogro, que o solicitou para pintar uma bandeira para a Festa de Santo Antônio. A partir daí começou sua produção de quadros, sempre usando o eucatex como base. Um dos grandes incentivadores, e provavelmente o marchand que mais adquiriu trabalhos seus, foi Waldemar, da Galeria Relicário 1800, de Ouro Preto. Calcula-se que tenha produzido cerca de 2 mil obras, hoje espalhadas por vários estados brasileiros e também adquiridas por coleções do centro europeu.
JOSÉ ASSUNÇÃO - Folia de Reis - 36 x 63 - 1975
JOSÉ ASSUNÇÃO - Dia da padroeira - 40 x 70 - 1985
Mesmo de poucos estudos, ele se alfabetizou e gostava de ler e escrever. Produziu uma autobiografia, e também se arriscou como compositor, tocando violão e bandolim, nas missas da Catedral Nossa Senhora do Rosário. A religião é aliás o que povoa quase todas as suas obras. Para ele, ir à missa era um dever de toda família. Sempre muito rigoroso, fez com minúcias, detalhes e muito capricho, uma narrativa da prática religiosa que o acompanhou por toda vida.
“Há certas curiosidades interessantes que habitam os seus trabalhos. Como a representação, em quase todas as obras, de um casal de velhinhos. Quando eles não apareciam, brincava dizendo que estavam dormindo”, recorda Margarida, filha do artista, também pintora.
JOSÉ ASSUNÇÃO - 7 de setembro - 34 x 61 - 1975
JOSÉ ASSUNÇÃO - Parusia - 34 x 61 - 1974
Uma bela consideração fez Márcio Sampaio, curador que organiza as recentes mostras do artista: “Diz a lenda que ele colocava preço no trabalho de acordo com o número de personagens na tela; quanto mais, mais caro. Trata-se de visualidade marcada pelo acúmulo de elementos, com horror ao vazio, barroco mesmo.” Ele acrescenta: “Ele é festivo. Tudo é visto de uma forma feérica, até as cenas da paixão de Cristo. Raramente aparecem imagens em tom melancólico. É pintura caprichosa, bonita, que evoca a vida do interior, da roça, movida por vontade de levar para a tela tudo que o artista tem na cabeça. A sua pintura torna permanente o que é transitório, como por exemplo, as festas”.
Time de craques, José Assunção integra grupo de artistas notáveis, como Lorenzato, Artur Pereira, Valentim Rosa, GTO, entre outros, com obra que começa a ser conhecida na passagem dos anos 1960 para os 1970, e que, com o passar do tempo, vem ganhando respeito e admiração. Para Márcio Sampaio é “um timão”, de grande qualidade artística. O motivo da aparição de geração tão prodigiosa, brinca Márcio, é mistério. Em curso no processo estaria o impacto do barroco, “que é muito visível na nossa região e fica na mente das pessoas”. Depois, “olhares afetuosos”, de colecionadores e críticos, como a mineira Mari’Stella Tristão ou do carioca Roberto Pontual, que abriram espaço para os artistas em salões de arte.
Solenidade - Coral do Tribunal de Alçada de Belo Horizonte
Coletiva de José Assunção e José Rosário
São Domingos do Prata, 2003
Cerimônia na coletiva de José Assunção e José Rosário,
no Forum da cidade de São Domingos do Prata, em 2003.
São artistas que, passado o período de consagração, continuam sendo presença do ponto de vista da criação e pela beleza das obras. O curador acrescenta à lista Rodelnégio, Julio Papa de Roma (“cuja obra está se perdendo”) e Maurino Araújo (“que toca a questão da arte primitiva mesmo não sendo um primitivista”). Turma que, para ele, merece ter suas obras levantadas, pesquisadas e estudadas. A partir de trabalho com essa inspiração, sugere Márcio Sampaio, pode surgir livro sobre cada um deles, já que apenas Lorenzato e Artur Pereira ganharam, até agora, volume a altura do que realizaram.


































