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quarta-feira, 4 de julho de 2012

SERRA DA PIEDADE





A visita à Serra da Piedade aconteceu meio que de improviso, pois estávamos (Laércio Maciel, José Ricardo e eu) indo em direção a Belo Horizonte para visitar as exposições de Caravaggio, Giorgio de Chirico e Rui de Paula (motivos para a próxima matéria). Um grato improviso, aliás, que me revelou mais um pedaço de Minas, que até então não conhecia. E como disse Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, voltamos de lá bem mais engrandecidos em nossa pequenez.





Localizada a 48 km de Belo Horizonte, no que a Geografia posiciona aproximadamente como paralelo 20, está a Serra da Piedade, uma formação geológica complexa, situada na unidade morfológica denominada Quadrilátero Ferrífero. Esse quadrilátero tem como limites: ao norte, a Serra do Curral; ao sul, a Serra de Ouro Branco; a oeste, a Serra da Moeda e ao leste, o conjunto formado pela Serra do Caraça e pelo início da Serra do Espinhaço. Em todas essas formações, predomina o que os geólogos classificam como rochas da Série de Minas, ou Supergrupo Minas. O mais interessante é que esse complexo limita exatamente as duas importantes bacias hidrográficas do São Francisco e do Rio Doce/Piracicaba. O ponto mais elevado da Serra da Piedade está localizado a 1751 metros em relação ao nível do mar, e pouco mais de 500 metros em relação às terras vizinhas.
Começamos a subida da serra a uma temperatura de 19 graus e quando atingimos seu topo já estávamos a 9 graus centígrados. Como não é cercada por nenhuma serra mais próxima, os ventos correm livres numa velocidade incrível, aumentando ainda mais a sensação de frio que faz no cume da montanha. No inverno, as formações de geadas por ali são constantes.



A bela visão de 180° que se tem de lá mostra o quanto é diversificado e ao mesmo tempo exuberante o relevo do estado. Para os antigos povos indígenas que habitavam a região, ali se chamava Itaberaba Assu, que significa Montanha Resplandecente e Alta. Os portugueses a apelidaram de Taberabocu e já no século XVII recebeu o nome de Serra do Sabarabuçu. Loureno Caetano Taques é considerado o desbravador da região de Caeté, como consta os relatos em Carta Régia, de 23 de março de 1664.

O santuário, em romaria no início do século XX.



A única construção histórica preservada hoje é a Capela Nossa Senhora da Piedade, que teve suas obras iniciadas em 1704 e concluídas em 1770. Outras construções em estilo mais moderno foram necessárias para receber o grande fluxo turístico do local. Lanchonetes, restaurantes e uma nova catedral, construídos discretamente, de modo que não interferem na formação natural ali existente. Ali também estão localizados o Observatório Astronômico da UFMG e os radares do CINDACTA. O observatório, inclusive, está aberto à visitação pública em dias específicos do mês. Também é um local tradicional de romarias e vinculado a muitas lendas.



Saint-Hilaire foi um dos ilustres desbravadores franceses que passou uma longa temporada por lá. Também recebeu as visitas de Spix e Martius, entre os anos de 1817 e 1820. Há mais de duzentos anos, o local constitui-se como um referencial religioso, repleto de fatos, lendas e tradições orais, que narram diversos episódios, inclusive a aparição de Nossa Senhora da Piedade, no século XVIII. Diversos personagens tiveram importante contribuição na construção da primeira capela no topo da serra. As peregrinações ali, já são relatadas desde meados de 1760, quando duas moças, ao passarem pelo local, afirmaram ter visto a imagem da santa. Esse fato despertou em Antonio da Silva Bracarena a idéia de dedicar grande parte de sua fortuna na conclusão do templo no alto da serra. Também estão intimamente ligados a sua história, personagens como a Irmã Germana, o capuchinho Frei Luiz de Ravena, Padre Domingos Evangelista Pinheiro e o dominicano Frei Rosário Joffely. No altar da Capela há uma imagem de Nossa Senhora da Piedade, cuja autoria é atribuída a Aleijadinho.



Em 1889, a Serra da Piedade, ao lado da Serra do Caraça e do Ibitipoca, e dos picos de Itabirito, do Ibituruna e do Itambé, entre muitos outros acidentes geográficos de grande importância paisagística, histórica ou científica, foram declarados Monumentos Naturais e tombados para fins de conservação pela Constituição do Estado de Minas Gerais.