sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

JOÃO BOSCO CAMPOS (José Rosário)

O que seria uma rápida visita, acabou se transformando numa tarde agradável e de um descontraído bate-papo. Passamos primeiramente, José Ricardo e eu, em Sabará. Fomos de encontro a Hilton Costa, um artista da cidade que  nos esperava. Já um experiente pintor, com mais de cinquenta anos de carreira e que explora muito bem a temática da região. De lá seguimos para Belo Horizonte, onde encontraríamos com João Bosco Campos, em sua residência e ateliê.

Da esquerda para a direita: José Rosário, Sebastião Fonseca,
Hilton Costa, João Bosco Campos e José Ricardo.
Conversas agradáveis numa tarde entre artistas mineiros.

Para nossa surpresa e ainda para completar a roda de conversas, estava por lá um outro artista, Sebastião Fonseca, que os amigos do meio artístico tratavam carinhosamente por Zito. Infelizmente Sr. Zito faleceu recentemente. Mas a alegria que nos proporcionou naquela tarde sempre será lembrada.
É muito prazeroso estar cercado por pessoas que tão alegremente dividem suas experiências da profissão. As aventuras nas saídas para se pintar ao ar livre, os contatos, as exposições, o começo de cada um, os rumos da arte atual... Tudo sem muita formalidade e bem descontraído.
Não me esqueço da história contada por Sr. Zito, quando juntamente com Edgar Walter e João Bosco saíram para pintar ao ar livre. Quase se afogou caindo num canto de rio, distraído em buscar um melhor ângulo. Rimos disso e de muitos outros casos que se arrastaram tarde afora. Fatos assim me fazem lembrar um comentário de Rubem Alves, onde diz que as verdadeiras amizades são sempre cômicas. Amigos de verdade não passam de três ou quatro frases sem que estas provoquem risos e descontração.

Engenho de cana
Óleo sobre tela - 50 x 70

Abrindo a porteira
Óleo sobre tela - 70 x 100

Lavadeira
Óleo sobre tela

Bom, falando sobre isso até aqui, para começar o assunto principal desse texto: a influência para muitos artistas de nossa geração, deixada por João Bosco Campos.
Ainda criança em Itamarandiba, cidade mineira onde nasceu, João Bosco já rabiscava muros e chamava atenção nos trabalhos de escola e em desenhos que consumiam várias horas de seus dias. Tamanha habilidade e dedicação despertaram a atenção de professores e familiares, que logo o encaminharam para bons mestres na cidade do Rio de Janeiro. Foi exatamente no Rio, mais especificamente na Escola de Artes Visuais no Parque Lage, que as primeiras orientações técnicas com o artista Roberto Leal, lhe trouxeram ainda mais recursos para o desenvolvimento de seu trabalho.

Areal
Óleo sobre tela - 50 x 70

Na lagoa
Óleo sobre tela - 50 x 70

Lavrador
Óleo sobre tela

Retornando a Belo Horizonte, ainda adolescente, fez novos contatos e não demorou a se despontar como um proeminente artista de sua época. Contatos muito importantes, diga-se de passagem, que o próprio João Bosco faz questão de afirmar, ajudaram a desvendar muitos mistérios da arte. Paulo Pavie, historiador, foi um dos seus grandes colaboradores nesse período. Há de se destacar também fatos aparentemente simples, mas bastante encorajadores, como o apoio dado pela educadora Graziela Costa, que adquiriu de João Bosco seus primeiros trabalhos.

Lavadeira
Óleo sobre tela 

Fundo de quintal
Óleo sobre tela - 50 x 70

Descanso interrompido
Óleo sobre tela - 70 x 100

Belo Horizonte, desde um bom tempo, sempre foi um importante cenário de referência artística. E João Bosco soube muito bem aproveitar dessa qualidade do ambiente que viveu. Muitos amigos artistas, ele conheceu em diversas fases de sua carreira. É impossível não citar colegas como Luiz Pinto, Florêncio e Edgar Walter, que durante longos períodos, dividiram experiências e conquistas.

Carro de boi
Óleo sobre tela

Sabará
Óleo sobre tela - 40 x 60

Retorno do moinho
Óleo sobre tela - 60 x 80

João Bosco sempre teve preferência para os trabalhos feitos à óleo. inicialmente tinham uma veia acadêmica marcante, foram dando espaço para pinceladas soltas e bem características, encaminhando cada vez mais para um impressionismo bem personalizado. Ainda não abriu mão de retratar cenas mineiras bem típicas. Seu trabalho atual consiste também na produção cada vez mais crescente de retratos. A figura humana está sempre presente em grande parte de sua produção. Tornaram temas correntes de sua obra nos últimos anos, cenas portuguesas e espanholas. Os Estados Unidos também entraram na rota de seu destino.

O tropeiro
Óleo sobre tela - 50 x 70

Violeiro
Óleo sobre tela

Fundo de quintal
Óleo sobre tela

"Poucos artistas desenham como J.B. Campos. Suas pinturas são de extrema simplicidade e com grande expressão de vitalidade e força. Sua arte é reflexo de si mesmo. Mestre nos semi-tons, João Bosco nos faz relembrar o passado, mas com a visão e a técnica modernas. Suas pinceladas são justas, corretas e, no final, o incomensurável mundo plástico se solta e passa a fazer parte de cada um diante de sua obra."

Edmar Aráujo, marchand


Guardando a colheita
Óleo sobre tela

A velha fonte
Óleo sobre tela, 60 x 80

Menino e animais
Óleo sobre tela


"Dentro da mesmice da arte contemporânea e dos falsos brilhos, J.B. Campos certamente está construindo uma carreira sólida, alicerçada nos mestres da nossa pintura."

Cláudio Valério Teixeira, artista plástico e crítico de arte


Pequeno leiteiro
Óleo sobre tela, 40 x 30

Carteado
Óleo sobre tela

Procissão
Óleo sobre tela

"Um homem que sente e ama os tons da terra. Ele, mais do que tudo, é um artista singular, voltado à admiração da natureza, da gente e do cotidiano, manipulando um virtuosismo técnico, na qual a veladura, a transparência, os constrastes e as cores se sobrepõem para a obtenção de um efeito visual de grande impacto. Olhar uma obra de João Bosco é sentir sua riqueza de recursos, é ter a certeza que ele, trabalhando em estado sublime, garantirá a memória de sua obra."

Ramón Vena, marchand

Ponte sobre o Rio Gilão, Portugal
Óleo sobre tela, 60 x 80

Litoral do Rio de Janeiro
Óleo sobre tela, 60 x 100

Mercado Ver-o-Peso, Belém-Pará
Óleo sobre tela, 60 x 100

Esse cuidado que sempre teve João Bosco, é que garante a ele, mesmo vivendo numa era de modismos e controvérsias, seguir focado nos seus objetivos. Aqueles, que nunca saem da mira dos artistas comprometidos com o verdadeiro espírito da arte.

Retrato
Óleo sobre tela

Retrato
Óleo sobre tela

Retrato de Sepúlveda Pertence
Óleo sobre tela

Agradecimento especial a
João Bosco, por permitir o uso
de suas imagens para essa matéria.

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João Bosco Campos faleceu em 21 de julho de 2012, muito tempo após a publicação dessa matéria.

17 comentários:

  1. Parabéns pela publicação desta matéria, é importante o que faz pela arte tradicional, imagino sua dedicação por aquilo que o torna um dos maiores pintores brasileiros.

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  2. Que maravilha essa cumplicidade na arte! José Rosário presta homenagem a outro grande mestre João Bosco.
    Minas é sem dúvida um celeiro de mestres em todas as áreas das artes.

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  3. dar e dividir a todos é uma palavra sempre usada pelo SENHOR JESUS, sei que ele deu muitos talentos e dons, a muitos , na qual joão bosco campos é um deles, que DEUS CONTINUE ABENÇOANDO VCS.

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  4. infelizmente hoje dia 21/07/2012 perdemos o pintor João Bosco em BH as 4 horas da manhã de hoje. fiacndo lo legado de arte e dedicação a cultura brasileira

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    1. Infelizmente convivi muito pouco com o João Bosco, mesmo ele tendo sido uma grande influência em minha obra. Apenas uma visita e alguns telefonemas onde falávamos do cenário atual da arte e dos rumos que hão de vir.
      Um grande artista, que deixará uma grande lacuna no cenário artístico brasileiro!

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    2. Olá J. Rosário,
      Sou Roberto Melo,de fato o João foi e é um grande "pessoa/artista". Sempre otimista e nos deixa sem sombra de dúvida uma saudade enorme. São poucos os dias de sua partida, que Deus o ilumine colocando-o num lugar de sucesso que sempre mereceu.
      Posso lhe dizer com toda firmesa que J.B Campos não deixa nada a desejar aos artistas brasileiros do inicio do Séc XX: Almeida Junior, Catagneto, J.B, da Costa e outros...
      Grande Abraço,
      Roberto Melo

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    3. Olá Roberto Melo, eu me orgulho muito de ter podido conhecer o João e ter tido contato com ele, mesmo que por poucas vezes. Obrigado por passar aqui!

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    4. olá josé, estou muito triste, por saber que perdemos um grande artista, e amigo, muito embora foram poucos telefonemas, e algumas conversas que tive com ele, mais uma pessoa que aprendi a amar, e respeitar devido ao seu grande talento, ele nos deixa um legado, a arte é um caminho que nos leva a cada dia, a alegria, esperança, prazer, paz, calma, tranquilidade , e tudo isso é o que viamos em suas telas.

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    5. Um homem se torna eterno quando seu trabalho permanece, Willian. Para artista como o João, a vida não acaba nunca!
      Obrigado pela visita e grande abraço!

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  5. Sinto em ouvir sobre a perda de João Bosco. Parabéns pela matéria José! Um forte abraço!

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    1. Uma grande perda, realmente, Márcio.
      Deixou um legado de admiração e respeito por artistas de sua geração.
      Grande abraço e obrigado por vir!

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  6. Jose Rosário, não pude deixar de emocionar por esta matéria tão bem feita que fez sobre o meu irmão. Obrigado.
    Jose Basileu Campos

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    1. Puxa, José Basileu, eu tenho o maior prazer em divulgar os trabalhos do João, que muito me influenciaram. Prazer também em te conhecer.
      Obrigado pela vinda, meu amigo!

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  7. Jose Rosário eu me chamo Marcia Rosário e estou a procura de familiares do meu q nao conheci meu pai se chamava Sebastiao Rosário filho de Sebastiao Rosário da silva e maria inacia de jesus eles eram de brasopolis mg resolvi lhe escrever pois a muitos anos tenho procurado epor acaso vi seu blog entao resolvi lhe escrever pois sempre q encontro alguem com esse sobrenome tento entrar em contato desde ja agradeço a atençao

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    1. Olá Márcia, boa tarde. Na verdade, Rosário não é meu sobrenome, mas sim, nome. Meu sobrenome é Souza. Sinto não poder ajudar.
      Grande abraço!

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  8. ...VEJA BEM, SOU PAULISTA E COMO AMO A ARTE, RESOLVI ANDAR...E NESSAS ANDANÇAS, CONHECI UM TAL Jefferson Bosco, menino prodigío filho de um Bosco aki de Marabá, Pará desenha e pinta e esculpe como eu...se eu não bebesse e curtisse achando a vida ingrata...ciente disso, estimulamos esse jovem a virar tatuador, pois assim ele seria completo. Não imaginava q ele mudaria a cidade, cenário, não enquanto eu estivesse aqui. Hoje mesmo sem beber e usar as terebetinas e óleo de linhaça da vida, não faço o risco reto igual a ele. Será q vc pode usa-lo pra outro algo q não seje tattoo e deixar nosso campo livre? jefferson bosco de marabá, pará desenhista escultor pintor tatuador e todos mais afins. obrigado sinceramente leonardo dozz.

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    1. Olá Leonardo, bom dia! Pela sua história, acho que despertou uma nova vida ao Jefferson. Agora, é ver o que isso provocou de profundo nele, a fim de querer buscar novos caminhos. Faço votos que a arte o inspire a seguir sempre aquilo que puder dar um sentido maior à sua existência.
      Abraço a todos!

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