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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

LUIZ VILELA


Dentre as muitas virtudes da arte, nenhuma me parece mais nobre que a universalização do indivíduo que a promove: o artista, seja ele de qualquer área. Essa linguagem sem pátria, pode tanto levar os artistas desse país quanto receber vários outros de outras nações. Há uma espécie de democracia nata para aqueles que praticam a arte na sua mais verdadeira essência, e é nesses momentos que percebemos que fronteiras são nada mais que algumas linhas criadas num mapa. A arte em seu estado mais puro não conhece esses limites.
Felizmente, a internet tem tornado essas fronteiras e distâncias entre povos ainda mais inexistentes. Foi através dela que vim a conhecer os trabalhos de um brasileiro, radicado há décadas nos Estados Unidos. Em uma entrevista muito agradável, ele vem nos mostrar o que se tornou o seu “novo mundo”, e como a arte foi um fator determinante para a sua inserção nele.

LUIZ VILELA - Fishing in Milford - Óleo sobre tela

José Rosário - Onde nasceu e quando? 
Luiz Vilela - Eu nasci em Boa Esperança, sul de Minas Gerais, em 1965.

José Rosário - Vi que começou pela Arquitetura, ainda tem alguma ligação com essa atividade? Trabalha exclusivamente com arte? Fale-nos um pouco sobre o começo com as artes:
Luiz Vilela: Eu me mudei para o Rio de Janeiro onde eu estudei Arquitetura e Urbanismo na FAU/UFRJ. Quando morava no Rio, trabalhei com Arquitetura, mas não me aprofundei muito no mercado, trabalhei mais fazendo perspectivas e “renderings” das fachadas dos projetos, e também com projetos de lojas e vitrines. O curso de Arquitetura me deu régua e compasso, foi muito bom para desenvolver a visão espacial, aprender geometria e perspectiva e história da arte. Ao mesmo tempo, eu frequentei o Parque Lage, fiz aulas com Roberto Magalhães e outros artistas. Ainda na faculdade comecei a ilustrar livros infantis para editoras brasileiras. Resolvi mudar para os EUA a partir de conselhos dos meus professores e tive minha aplicação aceita pelo Pratt Institute em Nova York para fazer curso de ilustração comercial. Cheguei em Nova York no verão de 1995 e logo após o término do curso, em 1997, eu fui contratado pelo departamento de arte da editora Golden Books para fazer design de livros - e ilustrações também: o fato de eu saber desenhar e pintar contribuiu para o sucesso na carreira. A maioria dos designers não têm este tipo de habilidade. Mesmo trabalhando com design gráfico eu nunca deixei de pintar e desenhar. No curso do Pratt eu aprendi muito sobre técnicas de pintura, desenho, aquarela e etc, o programa é muito rico e intenso... E o fato de morar numa cidade como Nova York é uma experiência sensacional, posso dizer que é um privilégio poder usufruir de todas as ofertas culturais que a cidade oferece. Eu frequentei (e ainda frequento) os museus para estudar os trabalhos dos mestres e copiá-los, assistir às palestras, aos espetáculos de óperas e balés do Lincoln Center e o BAM, por exemplo. Acho que tudo isto contribui para a bagagem cultural do ser humano e consequentemente reflete na forma de expressão do artista. Uma das grandes oportunidades que tive foi o fato de o prédio em Manhattan onde eu trabalhava ficar em frente ao prédio da The Arts Students League of New York (www.theartstudentsleague.org ) que é a escola de arte mais tradicional da cidade. Eu fiz aulas de modelo vivo com o pintor Ronald Sherr à noite, depois do expediente de trabalho. Mais tarde, a Golden Books foi adquirida pela Random House que hoje é o maior conglomerado de editoras que existe. Eu trabalhei como design gráfico de livros infantis durante 15 anos, até Outubro de 2012, quando saí para dedicar meu tempo exclusivamente à minha arte.

LUIZ VILELA - The boathouse - Óleo sobre tela

José Rosário - Há tanto tempo no mercado norte-americano, como vê a aceitação do artista estrangeiro por aí?
Luiz Vilela:  Eu costumo dizer que há lugar para todo mundo na América. Talvez pelo fato de eu estar aqui há muito tempo e ter entrado no mercado de arte relativamente como um nativo americano qualquer, eu não senti nenhum estranhamento pelo fato de eu ser estrangeiro. Quero dizer, eu sou inspirado pela paisagem americana do lugar onde moro e o meu trabalho retrata esta paisagem e arredores, portanto a reação ao meu trabalho no mercado de arte americano é normal. De vez em quando me perguntam de onde sou por causa do nome e do modo de falar. Eu conheço artistas de vários lugares do mundo que mostram o trabalho deles aqui, em competições internacionais e a reação é natural - eu acho que se o artista desenvolve um trabalho bem feito e sincero as barreiras culturais desaparecem. 

LUIZ VILELA - Fur-portrait of Donald Becker - Óleo sobre tela

José Rosário - Há no Brasil uma espécie de valorização excessiva das artes de vanguarda, por parte das instituições e galerias. Mesmo que demonstre uma luz no fim do túnel de que as coisas venham a melhorar um dia, a arte realista tem passado maus momentos por aqui. Qual é a realidade do mercado norte-americano nesse sentido?
Luiz Vilela: A mesma coisa acontece aqui nos Estados Unidos. E no mundo todo. Mas acredito que isto está começando a mudar. Com raízes no Renascimento, durante mais de quinhentos anos, os mestres artistas transmitiram um sistema de conhecimento para seus alunos. O impacto da nova forma democrática de pensar do Iluminismo em conjunto com uma formação clássica incomparável, acionou o maior período de criatividade que as belas artes já tinha visto. Mais tarde os impressionistas pariram a chamada arte moderna que mudou para tudo o que é chamado de arte hoje em dia. Muitos acreditavam que a pintura realista foi substituída pela fotografia. (De uma certa maneira, foi mesmo, no caso da área de propaganda e marketing, os trabalhos de arte e pintura foram substituídos pela fotografia no final do século XX.) Depois disseram que a própria ARTE havia morrido. A arte tornou-se “arte sobre a arte” e não arte sobre a vida. Atualmente existe uma contínua marginalização da arte realista, portanto, da pintura acadêmica pelo estabelecimento, o que me faz acreditar que a arte realista hoje em dia é a arte de vanguarda atual, quer dizer, o círculo da evolução da arte como a gente a conhecia se fechou e o processo está começando de novo. Hoje existe uma revolução artística -um novo renascimento- que ainda está à margem do mercado. Existe uma procura pela arte clássica dos ateliers franceses do final do século XIX novamente. Dos anos 50 até recentemente, se um alguém se matriculasse numa escola de arte, o que esta pessoa iria aprender? A estética da hora era fazer arte abstrata, expressionista, e os desdobramentos destas correntes. Como é que você “ensina” a fazer arte abstrata? Qual é a estética da arte abstrata e contemporânea? O artista faz o que quiser manejando tintas e pincéis. E fortunas são feitas a partir deste jeito “rápido” e rebelde de se fazer arte. Já para fazer a arte acadêmica/figurativa o artista precisa de treino, pois os artistas autodidatas que são realmente bons no que fazem, eles são raros... Hoje em dia, existe muita gente querendo aprender as técnicas da pintura realista como era ensinada e praticada nos ateliers franceses de pintura acadêmica no final do século XIX, com ênfase em desenho tradicional com modelo vivo, pintura e escultura. O processo de aprendizado começa com os estudantes desenhando e passando à pintura na medida em que sua habilidade progride. Academias e ateliers de arte estão “pipocando” por todo a America e na Europa também. Antes dessa “nova onda” era difícil encontrar escolas de arte de ensino acadêmico, do tipo da The Art Student League, em Manhattan. Como exemplos destes novos estabelecimentos, dentre outros, eu sito principalmente: 
- Studio Incamminati na Filadélfia (fundado em 2002 pelo artista Nelson Shanks) http://www.studioincamminati.org/ 
- Water Street Atelier, mais tarde chamado Grand Central Academy, em Nova York (fundado por Jacob Collins)http://www.grandcentralacademy.org/ 
- Florence Academy of Art em Florença (fundada em 1991 por Michael Graves) http://www.florenceacademyofart.com/index.php 
- Angel Academy of Art em Florença (fundada por Michael John Angel que estudou com Pietro Annigoni)http://www.angelartschool.com/ 
Existem grupos de pintores também como os The Putney Painters influenciados pelo artista Richard Schmid (http://www.villageartsofputney.com/The_Putney_Painters.html ); e pintores como David Leffel, Daniel Greene e Burt Silverman, dentre outros, que desenvolvem um trabalho magnífico de pintura realista e influenciam a nova geração interessada nesta nova corrente. Da turma mais nova eu cito os pintores Jeremy Lipking, Daniel James Keys, Daniel Sprick, Scott Burdick, só para mencionar alguns deles. São muitos.

LUIZ VILELA - Waiting for you - Óleo sobre tela

José Rosário - Realmente são artistas tidos como referências no cenário realista atual. Quanto à arte brasileira, existe alguma ligação sua com outros artistas brasileiros radicados por aí?
Luiz Vilela: Não conheço pessoalmente nenhum pintor brasileiro radicado nos EUA. Conheço fotógrafos e jornalistas. O Facebook tem facilitado este tipo de “network” ultimamente. Através dele, fico em contato com muitos artistas brasileiros, inclusive Andre Nobrega que vive na Califórnia. Conheci a artista brasileira Juliana Limeira, de Brasília, na conferência de arte da Portrait Society of America (www.portraitsociety.org ). Estas conferências são um ótimo meio para conhecer outros artistas. 

LUIZ VILELA - On the river - Óleo sobre tela

José Rosário - Existe algum grupo ou movimento do qual você participa?
Luiz Vilela: Além ser membro da Portrait Society of America, faço parte do Artsbridge Group na minha região, atualmente com mais de 300 membros artistas - este grupo promove exposições, divulga o trabalho dos artistas e contribui para a troca de informações e contato entre eles. 
Na região onde moro, que fica às margens do rio Delaware, rio este que divide os estados de Nova Jersey e Pensilvânia, existem mais de 1000 artistas praticando todos os estilos e técnicas - escultores, pintores, fotógrafos, artesanato, música, e letras. Além de galerias de arte e antiquários, existe um museu maravilhoso chamado Michener Museum (www.michenermuseum.org ), na cidade Doylestown no estado da Pensilvânia. A região de Bucks County, PA, é conhecida como reduto de artistas por muitos anos e pintores americanos influenciados pelo Impressionismo europeu vieram morar aqui, entre eles, Edward Redfield, Daniel Garber e William Lathrop. Escritores como James A. Michener, Dorothy Parker e Pearl S. Buck moraram na região, assim como os músicos Oscar Hammerstein, II, Stephen Sondheim e Charlie Parker. Quando eu morava em Nova York, amigos me aconselhavam a visitar esta área, o que fiz no final do ano 2000. E fiquei encantado com o que vi, tanto que mais tarde eu me mudei para cá.
No caso da Portrait Society of America  (PSOA) seu propósito é promover e melhorar a compreensão das práticas, técnicas e aplicações da arte tradicional de retratos e obras figurativas, principalmente. As atividades desenvolvidas pela corporação são educativas por natureza. Seus projetos aumentam o conhecimento técnico e estético dos artista praticantes, do amador aspirante, dos estudantes de arte assim como do público em geral. A conferência acontece no final do mês de abril, a cada ano em uma cidade diferente. Em 2013 será em Atlanta e é preciso ser membro da sociedade para poder atender ao evento, mas vem gente do mundo todo.

LUIZ VILELA - The Chef-portrait of Jim Hamilton - Óleo sobre tela

José Rosário - Há alguma galeria específica que o represente por aí?
Luiz Vilela: Eu trabalhei com várias galerias de arte, e recentemente era representado pela desChamps Gallery em Lambertville, mas infelizmente a diretora faleceu e a galeria fechou. No momento eu estou avaliando convites para participar em outras galerias mas ainda não defini com qual deverei trabalhar ainda. 
Atualmente estou vivendo uma fase muito interessante e nova, depois de trabalhar em Manhattan no departamento de arte das editoras, eu resolvi dedicar todo o meu tempo ao meu trabalho de pinturas. Agora passo o dia no atelier procurando divulgar minha arte. Os clientes e pessoas que conhecem meu trabalho entram em contato comigo através do meu website, ou por telefone, agendando visitas e também requisitando comissões.

LUIZ VILELA - Finkles - Óleo sobre tela

José Rosário - Vi que já fez vários cursos e sem dúvida eles sempre acrescentam. Alguns de seus mestres já eram suas referências? Que artistas praticam algo com aquilo que você mais identifica no momento?
Luiz Vilela: Eu acho que o ser humano nunca para de aprender, portanto sempre procuro fazer workshops de pintura, principalmente se eu noto que o artista mentor tem alguma qualidade ou técnica diferente da minha, eu acho que neste caso se aprende mais. Eu frequentei o Studio Incamminati, na Filadélfia, por vários anos. Eles são responsáveis pela maioria das técnicas que aprendi com relação à pintura figurativa. É uma escola muito séria, os professores foram treinados pelo artista Nelson Shanks e seguem seus passos, mas cada um com seu estilo próprio, claro. Há alguns anos, numa das conferências da Portrait Society, eu conheci o pintor David Leffel. Eu já o conhecia dos livros e revistas de arte os quais eu lia e estudava, mas pintar com ele e ouvir seus conselhos e tutelagem está sendo muito importante para aumentar o meu conhecimento e técnica de pintura. Você aprende filosofia de vida também- ele é muito sábio, um mentor natural e provavelmente o artista mais pleno no sentido da palavra que eu tive a oportunidade de conhecer. E também porque ele é um ser humano muito generoso e tem um talento e facilidade enorme para dividir sua sabedoria.

LUIZ VILELA - George Street - Óleo sobre tela

José Rosário - Tem preferência por alguma técnica, em especial?
Luiz Vilela: Óleo. É o veículo com o qual mais gosto de me expressar. Mas gosto muito de desenho e principalmente aquarela - e admiro o trabalho de Mary Whyte, uma aquarelista soberba da Carolina do Sul. (www.marywhyte.com )

José Rosário - A pintura em local (plein air) é uma atividade corriqueira ou ocasional?
Luiz Vilela: Eu gostaria que fosse mais corriqueira do que ocasional. Porque é muito importante pintar “in loco.” É quando o artista mais aprende porque todas as respostas para suas dúvidas estão ali, na sua frente. É só saber ver. E esta é a luta de todo artista: aprender a ver o mundo. Para depois interpretá-lo e dividir suas impressões.

LUIZ VILELA - Portrait of a woman - Óleo sobre tela

José Rosário - Seus trabalhos são divulgados no Brasil por alguma galeria? Há alguma publicação sua que queira compartilhar?
Luiz Vilela: Uma tela minha faz parte da coleção do acervo do Museu de Arte Contemporânea MAC Bahia.
Não tenho representação em nenhuma galeria no Brasil, ainda. Este é um projeto e uma vontade que tenho, para um futuro próximo. Estou trabalhando num projeto de pintura retratando o povo brasileiro, o que deverá ser uma “ponte” para restabelecer meu contato com o país onde cresci, e minhas raízes.
Editei um livro com meus trabalhos de pintura, e pode ser adquirido pelo link abaixo:
http://www.blurb.com/b/2048271-buoyant-brushwork-the-art-of-luiz-vilela


Gostaria de agradecer imensamente ao Luiz Vilela
pela sua atenção e por ceder as imagens para
a publicação dessa matéria.



PARA SABER MAIS:

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A PAISAGEM EM MINAS

MAURO FERREIRA - Verdes mineiros
Óleo sobre tela - 16 x 24

Tentei fazer um apanhado da arte paisagística em Minas Gerais. O texto que se segue serve apenas com uma introdução ao assunto, uma vez que é vasto e ainda sem um registro sistemático que possa se transformar em uma fonte de pesquisa confiável. Importante ressaltar que todas as referências que utilizei nasceram também assim, de fontes variadas, das quais seus autores galgaram também um longo trajeto pela pesquisa em fontes escassas. Durante todo o desenvolver desse texto, se tornou impossível não estar comentando assuntos de interesse nacional, uma vez que todos os movimentos importantes acontecidos em nossa arte, tiveram uma abrangência cultural mais globalizada, e os seus protagonistas também estavam envolvidos em vários ambientes do país.

CLÁUDIO VINÍCIUS - Beira de rio
Óleo sobre tela - 30 x 40



A paisagem mineira é incrivelmente diversificada e rica, com ambientes que vão desde a mais densa mata atlântica, até campos de cerrado e regiões bem agrestes, no Vale do Jequitinhonha. Cadeias de montanhas importantes, como as da Mantiqueira, Espinhaço e Canastra, diversificam ainda mais esse cenário. Na literatura, nosso ambiente se imortalizou em obras como “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, e o retrato urbano começou a ser montado nas muitas observações minuciosas de Carlos Drumond de Andrade. Mas é especialmente para as artes plásticas, a grande contribuição que o cenário mineiro emprestou em obras.

JOÃO BOSCO CAMPOS - Garimpo
Óleo sobre tela - 50 x 70 - 1991

ANTÔNIO GOMIDE - Procissão
Aquarela - 20 x 30 - 1958

Quaisquer que sejam as tentativas de falar sobre a história do paisagismo em Minas Gerais, nenhuma delas poderá isentar as muitas contribuições que fizeram grandes artistas mineiros no cenário da pintura brasileira. Guignard e Edgar Walter encabeçam uma lista das mais variadas e de grandes qualidades. Voltar um pouco atrás no tempo é primordial para entender como se formaram os primeiros passos e as trilhas pelas quais eles puderam se conduzir.

YARA TUPINAMBÁ - Mata do Parque Rio Doce
80 x 100 - 2004

Não é tarefa fácil refazer, hoje, os caminhos percorridos por nossos antecessores, uma vez que a memória artística nos primórdios da história do Brasil, carece de fontes confiáveis de pesquisa. Só agora, nas últimas décadas, alguns estudos mais sérios e algumas ótimas publicações, puderam lançar uma luz no entendimento dos nossos primeiros momentos histórico-culturais. Registros como “Pintores Paisagistas”, de Ruth Sprung Tarasantchi, "Revelando um acervo - Coleção Brasiliana", organizado por Carlos Martins e “Expedição Langsdorff”, das Edições Alumbramento, são exemplos que deveriam se transformar em modelos de resgate da nossa memória nacional. Oxalá sejam seguidos por muitos.


ELIAS LYON - Procissão em Ouro Preto
Óleo sobre tela

As poucas fontes de referências sobre o paisagismo na pintura mineira começaram a ganhar volume e expressão somente nos finais do século XIX. Mais no início do século, antes da chegada da família real no Brasil, existia por aqui uma arte colonial sem muitos representantes famosos na pintura, exceto para as pinturas religiosas, ficando a cargo das construções católicas, o maior legado do patrimônio daquele período. Aleijadinho é o maior representante mineiro do Brasil colônia, e um dos maiores nomes que a arte brasileira já teve. Embora morasse em Minas e tenha todo o seu conjunto de obra exclusivamente feito aqui, viveu num período em que a igreja era o maior mecenas, e toda sua produção foi direcionada para alimentar os fins de sua patrocinadora. A paisagem ainda era um adereço da composição, e Minas parece não ter tido grande influência sobre a temática em sua produção.


JOSÉ RICARDO - Pastando
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2011

MILTON PASSOS - Vista do Rosário
Óleo sobre tela - 40 x 50 - 2009

Foi um processo lento, de mais de um século, ver o tema “paisagem” deixar os fundos das composições e tornar o tema principal, tanto na Europa, quanto em qualquer outra parte onde isso tenha ocorrido. Para o Brasil em especial, a Expedição Francesa financiada pela família real, foi quem mais contribuiu para alargar os horizontes nesse sentido. Deve-se muito aos esforços do Conde de Barca, o sucesso dessa expedição. Extasiados pela beleza intacta e exuberante de um país ainda recente, vários registros feitos pelos artistas de tal expedição se transformaram nos mais valiosos apontamentos da pintura brasileira naquele período. Debret é o nome mais forte dentre os artistas que por aqui estiveram. Mas, um século antes dessa expedição, Franz Post veio a convite de Maurício de Nassau, e é certo que tenha feito os registros mais valiosos do Brasil em seus primeiros passos como nação colonizada.

JOHANN MORITZ RUGENDAS - Cidade Imperial de Ouro Preto, detalhe
Aquarela e tinta nanquim - 25,5 x 36,5 - 1824

Uma outra expedição, a Expedição Langsdorff, assim chamada por ter sido realizada com a iniciativa de Grigory Ivanovitch Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, foi realizada entre 1821 e 1829. Ele contratou botânicos, astrônomos, navegadores e, em especial, os artistas Rugendas, Adrien Taunay e Florence, que se embrenharam Brasil adentro e fizeram pesquisas inéditas por aqui. Todo o material iconográfico, colhido em tais andanças, permanecia desaparecido, desde 1829, vindo a serem descobertos somente em 1930, em porões do Museu do Jardim Botânico de São Petersburgo, na Rússia, quando esta ainda se chamava Leningrado. Apenas essa expedição já é material suficiente para uma outra extensa matéria.

JOHANN MORITZ RUGENDAS - São João del Rey
Aquarela e nanquim - 25 x 35 - 1824

JOHANN MORITZ RUGENDAS
Convento de N S da Conceição, na Serra do Caraça, Província de Minas Gerais
Lápis sobre papel - 24,5 x 34 - 1824

Da expedição Langsdorff, Rugendas talvez tenha sido o mais preocupado em retratar a paisagem. A sua passagem por Minas Gerais rendeu diversos estudos em lápis e aquarelas, com especial destaque para as muitas cenas colhidas na região de Barbacena, Ouro Preto, São João Del Rey, Sabará, até regiões como a Serra do Caraça e muitas fazendas que se formavam nessas localidades. Todas essas preciosidades se encontram hoje expostas nos museus da Academia de Ciências da Rússia, em São Petersburgo.
Não só por aqui, mas em quase todo o mundo ocidental, o século XIX atravessou um período de rupturas e experiências, da arte acadêmica com narrativa histórica cedendo lugar para temas mais realistas, naturalistas, culminando finalmente; em países mais abertos às novidades; com o surgir do Impressionismo e suas tardias variações.


GUIGNARD - Sabará
Óleo sobre tela - 38 x 47 - 1950 - Coleção particular

INIMÁ DE PAULA - Paisagem de Barbacena
Óleo sobre tela - 82 x 100 - 1982

SÉRGIO TELLES - Praça Tiradentes, Ouro Preto
Óleo sobre tela - 80 x 100 - 1993

Não tivemos Impressionismo no Brasil, pelo menos no período em que ele aconteceu em outras partes do mundo. Alguns artistas, que presenciaram o movimento na Europa quando ele aconteceu, chegaram por aqui com tendências impressionistas. Artur Timóteo da Costa, Henrique Cavaleiro e Eliseu Visconti foram os que fizeram nossos primeiros ensaios do movimento impressionista, mesclando adereços nouveau aos seus trabalhos.
De igual importância na formação dos artistas de nossa terra, foi a passagem por aqui dos irmãos Grimm, que mesmo ainda fiéis ao estilo acadêmico, já saíam a campo e incentivavam nossos jovens aprendizes no exercício em plein air. Não foram poucos os que saciaram os conhecimentos nesses ensinos: Batista da Costa, Castagneto, Nicolas Vinet, Antônio Parreiras, Hipólito Caron, Vasquez, Facchinetti... Os ecos de tal ensino produziram ótimos paisagistas por aqui, e depois da virada do século XIX para o XX, quando esse tema já era recebido com menos reservas, muitos centros do país já produziam suas próprias escolas regionais e desenvolviam temáticas mais personalizadas.

TÚLIO MUGNAINI - Ouro Preto
Óleo sobre cartão - 24 x 33

Como a prática da pintura em plein air se espalhou pelo início do século XX, Minas foi positivamente favorecida por tal iniciativa. Alguns nomes, já pouco lembrados e quase esquecidos, representaram o estado nesse período: Genesco Murta, Benedito Luizi e Osvaldo Teixeira. Vários outros artistas, de diferentes estados, também representaram Minas em suas composições. Todos já apresentavam uma pincelada solta, deliberadamente desligada da arte acadêmica rigorosa, que já perdia força. Norfini e Túlio Mugnaini abriram caminhos para esses “estrangeiros”. Mas foi com José Wasth Rodrigues, que a temática mineira ganhou visão nacional. As suas muitas aquarelas e bicos de pena, que depois se transformaram em óleos, o deixaram conhecido como o mais nacionalista dos pintores. Pela primeira vez, alguém fazia e expunha Minas com tanto empenho. Lugares nunca antes visitados por nenhum outro artista, tornaram tema corrente de sua obra: Caeté, Campanha, Barbacena, Catas Altas, Congonhas do Campo, além das já badaladas cidades do circuito histórico mineiro, com ênfase para Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey e Tiradentes.

JOSÉ WASTH RODRIGUES - Paisagem de Minas
Óleo sobre madeira - 44 x 59 - 1932

Um fato curioso, e importante de relatar, é que no século XX muitos estilos se desenvolveram em paralelo, não só aqui, mas em diversas partes do mundo. Após os adventos da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, vários modernistas mineiros entraram em cena. Influenciados pelos experimentos pós-impressionistas, expressionistas e modernistas europeus, algumas figuras se destacaram e merecem o nosso maior respeito. Inimá de Paula se identificou com um fauvismo tropical, que em nada deve às suas inspirações francesas. Guignard, que mesmo não sendo mineiro de nascença, incorporou a mineirice e fez dela o estandarte maior de seu trabalho. Ouro Preto foi o seu palco principal e produziu um vasto repertório com temas do estado e ainda formou vários alunos e discípulos, a destacar Amílcar de Castro, Farnese de Andrade, Yara Tupinambá e Lygia Clark. Outros artistas que desenvolveram o tema mineiro no pós-guerra, também deixaram grandes contribuições: Carlos Scliar, Brecheret, Ceschiatti, até nomes mais atuais como Bracher e Sérgio Telles. Todos com os olhos atentos aos movimentos mundiais, mas com a temática sempre buscando representar Minas e o que viveram.

EDGAR WALTER - Lavadeiras
Óleo sobre tela

                                      
EDGAR WALTER - Amanhecer em Ouro Preto e
Estrada com carro de boi
Óleo sobre tela

A pintura paisagística acadêmica, no entanto, só veio a conhecer um representante influente, nas hábeis mãos de Edgar Walter. Envolvido com amigos como Alberto Braga, Benedito Luizi e Sebastão Fonseca, foi produzindo discípulos e disseminando um estilo mineiro de fazer paisagens. Não é exagero dizer que talvez seja um dos movimentos de maior identidade com o estado, ainda que seus artistas tenham recebido perceptível influência da pintura naturalista e realista da França e da Itália do século XIX. Mas o movimento ganhou identidade própria. Encantado e declaradamente admirador da paisagem mineira, Edgar arrebatou um grande número de seguidores, e até hoje a influência de sua obra é um ponto marcante no paisagismo mineiro.

JÉSUS RAMOS - Paisagem com bambu e beira de rio
Óleo sobre tela

TÚLIO DIAS - Paisagem com animais
Óleo sobre tela - 90 x 150 - 2011

JOSÉ ROSÁRIO - Vista de Diamantina
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2004

Mesmo que a paisagem em Edgar Walter tenha ainda uma tendência acadêmica, a luz já exerce um fator predominante em sua composição, fato que vem estimular em seus seguidores, caminhos mais contemporâneos, com linguagens mais ousadas que muito lembram o Impressionismo. Temos vários representantes nesse sentido: Luiz Pinto, João Ornelas, João Bosco Campos, Mauro Ferreira, Jésus Ramos, Túlio Dias, Milton Passos, Hilton Costa, Elias Lyon. Cláudio Vinícius ainda mantém uma linguagem mais acadêmica, mas com um frescor que se renova ano após ano, praticando uma pintura isenta de rótulos e estigmas. Wilson Vicente, Helvécio Morais e Rubens Vargas também seguem essa tendência. Todos os nomes da atual cena vêem neles referências muito seguras, e em seus encalços vem artistas como José Ricardo, Anderson Conde e um grande representante da mais nova geração, Vinícius Silva. São todos minhas orgulhosas referências e atualmente alguns deles se tornando grandes amigos.

HELVÉCIO MORAIS - Luz da manhã
Óleo sobre tela

WILSON VICENTE - Cargueiros
Acrílica sobre tela - 60 x 80 - 2011

VINÍCIUS SILVA - Ipê na serra
Óleo sobre tela - 40 x 50

O cenário mineiro continuará encantando aos que são daqui e aos que por aqui se aventuram um dia. Seja no mistério de cada curva de estrada, no sereno frio de cada cachoeira, ou na ladeira de cada casario. Passam os anos, mas sobre os palcos daqui, a vida continua.

domingo, 19 de junho de 2011

HILTON COSTA

HILTON COSTA - Beira do Ribeirão Mumbaça, Dionísio
Óleo sobre tela - 33 x 41 - 2007
Coleção José Rosário

Numa parede próxima à entrada de meu quarto, está uma tela com uma cena de beira do Ribeirão Mumbaça, um riacho que corta minha cidade. Foi a primeira, da coleção que faço com cenas de Dionísio, pintadas por artistas amigos meus. Uma encomenda feita a Hilton Costa, após uma visita que fiz a ele, em 2007, em Sabará.

HILTON COSTA - Arredores de Sabará
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Lavadeira e crianças
Óleo sobre tela

Hilton José Costa nasceu em Sabará em 1931, e por lá ainda continua fiel às suas raízes. Apenas em 1974 começou a pintar, incentivado pelo amigo Alfredo Machado.
A apuração da técnica que utiliza foi adquirida por esforços próprios. Tem uma característica bem marcante e seus trabalhos nos remetem a impressionistas como Pisarro e Sisley, artistas daquele movimento, mas que caminharam um pouco à parte do “burburinho” revolucionário que se instaurou na Paris daquela época. Assim também se posiciona o trabalho de Hilton Costa, mineiro na essência de sua temática, mas com um trabalho que diverge um pouco, quanto à execução, de artistas contemporâneos seus.

HILTON COSTA - Maria fumaça
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Um canto de Minas
Óleo sobre tela

Dizer que Edgar Walter é uma referência é até uma redundância, isto porque, grande parte da pintura de paisagem mineira segue sua trilha. Também inspirado em seus caminhos, que são referência segura para qualquer artista, Hilton acabou desenvolvendo uma linha própria.

HILTON COSTA - Sabará
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Ouro Preto
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Igreja em Sabará
Óleo sobre tela

Mesmo que o convívio com um grupo de artistas entre 1989 e 1995, liderados por João Bosco Campos, tenha trazido a possibilidade de descobrir novas técnicas e a discussão de novos métodos, ainda assim, seu trabalho tem particularidades bem acentuadas se comparadas a diversos artistas mineiros de paisagens. É um ponto a favor para um artista que praticamente desenvolveu todo o seu trabalho, um pouco solitário. Possui um colorido vivo, traços fortes e composição equilibrada.

HILTON COSTA - Paisagem com lavadeiras
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Vista da Pedra de Itapuca, em Icarái, RJ
Óleo sobre tela

Com seu ateliê como referência em Sabará desde 1995, é também de lá, que vem grande parte dos temas de sua obra. Paisagens, casarios, ruas tortuosas, o sacramento das procissões e festejos religiosos, cenas do dia-a-dia... Tudo isso forma o vasto leque da temática sabarense que escolheu para pintar. Muito ocasionalmente pinta trechos e paisagens que não sejam de seu convívio.

HILTON COSTA - Vida mansa
Óleo sobre tela - 2002
Coleção Kelsey A. Ribeiro

HILTON COSTA - Rua em Sabará
Óleo sobre tela

Ele é membro fundador da Associação Sabarense de Artistas Plásticos – ASAP, que possui atualmente, cerca de 50 associados. O cenário artístico mundial está em vias de adaptação a diversos comportamentos. Há a comunicação que integra e divulga quase que sem intermediários, e também a possibilidade de discutir e socializar os seus trabalhos, com os trabalhos daqueles que possuem mesma identidade aos seus. Certas resistências ainda rondam os artistas mineiros mais tradicionais. Não que sejam defeitos, mas, grande parte desses artistas, e entre eles o Hilton Costa, prefere o silêncio das horas dialogadas com suas telas e suas inspirações. É nesses momentos, de reclusa escolha, que canalizam todos os seus poderes criativos para direcionarem seus trabalhos.

HILTON COSTA - Chafariz
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Lavadeiras
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Lavadeira
Óleo sobre tela

Vez ou outra, falamo-nos por telefone. E é pela sua fala mansa e segura, ouvida em longas conversas, que percebo o quanto é enriquecedora a opinião sobre a arte mineira de outros tempos. Não é apenas o narrar de linhas lidas em livros de outras épocas, mas a experiência comungada ali, esclarecida no surgir de uma simples curiosidade ou no explanar de grandes dúvidas.

HILTON COSTA - Chafariz em Sabará
Óleo sobre tela

HILTON COSTA - Rua em Sabará
Óleo sobre tela

Espero que a divulgação deste, e de tantos outros artistas, não só de Minas, como de todo Brasil, possa acalentar nos sonhos de tantos outros que surgirão, o mesmo que tem despertado em mim, uma admiração cada vez maior pela arte de nossa gente.

Da esquerda para a direita - Hilton Costa, José Ricardo e Sebastião Fonseca,
no ateliê de João Bosco Campos - 2007


CONTATOS:
hiltonjosecosta@yahoo.com.br
(31) 3671-1155