terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

VIA-SACRA: JOÃO MONLEVADE (José Rosário)

Igreja São José Operário, João Monlevade, Minas Gerais.

Cheguei em João Monlevade numa manhã fria de abril. Era o ano de 2007 e confesso que mesmo estando já nessa área que trabalho; a arte; há 18 anos, senti uma empolgação de iniciante e uma emoção boa, muito boa, dessas que embalam a alma e revigoram o corpo.
Fomos recebidos, José Ricardo e eu, por Antônio, um senhor de conversa calma e atenção sincera. Ele, uma espécie de zelador da igreja, nos mostrou o que seria para nós, a companhia nos nossos próximos nove meses.
A Igreja de São José Operário é uma bela construção em estilo neo-gótico da cidade. Foi inaugurada no ano de 1948, projetada pelo arquiteto Iaro Burian, que a concebeu com uma configuração em forma de “V”, uma provável alusão à vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Esse fato é bem provável de ser verídico, porque a construção foi financiada por uma empresa belga que operou na cidade por muitas décadas e que agora faz parte da rede de empresas do Grupo Arcelor/Mittal.
A nossa visita naquela manhã fria era a primeira apresentação aos painéis da Via-sacra, moldados por um artista holandês não identificado e que se encontravam em acelerado estado de degradação. Mais uma vez, graças a um patrocínio da Acerlor/Mittal e empenho do Pe Marcos, pároco daquela comunidade naquela época, os painéis seriam restaurados e pela primeira vez, pintados.

Da esquerda para a direita: Fernando Santos, José Ricardo e José Rosário

Ainda me lembro nitidamente das portas em madeira nobre e maciças se abrindo, e do primeiro impacto que as imagens me causaram. Ocupando quatro paredes laterais e duas ao centro, as catorze cenas da Via-sacra se impõe por sua expressividade e pela força do conjunto. Mesmo localizadas na base de grandes janelas verticais e numa parede com pé direito bem alto, elas ainda se destacam e se mostram como o cartão-postal da igreja. A configuração da igreja, vista interiormente, é outro fator, por si só, surpreendente. Ao contrário de quase todas as construções religiosas, as entradas principais se fazem pelo fundo e pelas laterais. O altar ocupa o que, visto de fora, seria a frente da igreja. Um engenho arquitetônico muito bem elaborado e agradável de se ver.
Ainda meio surpreso, percorri todo o interior da igreja na companhia dos dois, que praticamente nasceram naquele bairro e freqüentavam ali desde infância.
José Ricardo e eu avaliamos os trabalhos prováveis e fizemos uma extensa lista de materiais, que encontramos em uma loja especializada da capital.
O início do serviço no primeiro painel, uma limpeza e remoção completa da camada de verniz que se encontrava na superfície da obra, já nos deu uma prévia de que não seria uma atividade muito fácil, cumprir nossa meta do cronograma antes estabelecido. Na segunda semana de trabalho convidamos Fernando Santos, um antigo aluno de desenhos que tive em Dionísio e que prontamente se integrou ao serviço.

Abaixo: estado no qual se encontrava uma das cenas da
via-sacra, etapas de sua restauração e a
cena concluída.
JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ






Formávamos realmente uma equipe no sentido mais completo da palavra. Dividíamos todas as atividades com uma cumplicidade rara de se ver.
Como é uma construção isolada do centro da cidade, rodeada por uma densa mata atlântica nativa, tínhamos a sensação de estar numa grande concha de silêncio, só quebrado pelo passar programado do trem próximo à usina siderúrgica, que se ergue numa montanha em frente à igreja. Muitas aves cantavam em sintonia e alguns macacos-prego desciam bem próximos à procura de um alimento mais fácil. 




Devo consentir que a restauração dos painéis foi um retiro que mudou muitos conceitos e fez ver novos outros, a respeito de religião e religiosidade. Mesmo não praticante de nenhuma religião, vejo a essência do Cristianismo; aquela esquecida pela velocidade dos dias atuais; uma meta nobre a se seguir e cada vez mais distante de se alcançar.
O interior de um templo; aliás em todos que já pude estar; nos impõe um respeito natural e a sensação de que ali, somente conosco e com aquilo que cremos, algo em nós se completa e dispensa a procura insana de se encontrar, na turbulência dos dias que insistem em acelerar cada vez mais. Lá e apenas lá, no silêncio sepulcral que nos envolve e preenche, não há como fugir do espelho que vez em quando nos visita e que muitas vezes não temos coragem de encarar.

Iniciando mais uma cena.

João Vítor e suas muitas perguntas curiosas.

No primeiro plano, Fernando. Ao fundo, José Ricardo.

Os dias se passavam com uma cadência e suavidade, que me fazem perguntar às vezes, se fora realmente eu quem os vivi. Começava cedo. Fernando e eu ocupávamos um alojamento não usado há tempos, era lá que nos alimentávamos e dormíamos. Uns três meses após o início das obras, passamos a ocupar a Casa Paroquial, localizada atrás da igreja. Mais confortável, evidentemente, e com uma vista bem contrastante da cidade: a usina e suas densas colunas de fumaça, cara a cara com uma enorme reserva florestal.
José Ricardo se encarregou espontaneamente pela parte burocrática do contrato, afinal, foi com ele os primeiros contatos feitos pela concorrência do serviço. Alguns imprevistos, comuns a qualquer atividade onde estejam seres humanos, aconteceram sem muitos transtornos.
Andréia era a funcionária da igreja, que vinha todas as manhãs para a limpeza e sempre nos contava alguma curiosidade a respeito da história daquele templo e da paróquia. Ainda havia João Vítor, um garotinho de olhar curioso e perguntas complexas, que vez ou outra aparecia para uma rápida visita e matar a curiosidade.







Cada cena terminada era um encorajador alento e alimentava as expectativas para a próxima. De início, achei a idéia colocada pelos responsáveis da igreja um pouco audaciosa. Pintar cenas que nunca haviam sido pintadas, vai meio de desencontro ao princípio de que talvez não seja essa a intenção inicial de quem as compôs. Mas, como não se sabe ao certo quem as fez, a decisão logo me pareceu convidativa, pois os resultados começaram a me surpreender. E estávamos tão envolvidos com tal atividade, que se sucedia, dia após dia, uma tempestade de novas idéias e diferentes composições cromáticas. Como o fundo de cada cena não existia, tivemos total liberdade em criar aquilo que fosse mais de encontro ao que pudéssemos sentir.
Últimos retoques

Cuidando da parte burocrática.

Fernando em momento de descanso.

Ao final de nove meses, estavam todas as obras completas. Uma sensação de dever cumprido somada a algo que me permitiu uma oportunidade rara nos tempos atuais: um encontro comigo mesmo!




Abaixo, algumas cenas da via-sacra
depois de concluídas:

SIMÃO CIRENEU AJUDA A CARREGAR A CRUZ.

JESUS É DESPOJADO DE SUAS VESTES.

JESUS MORRE NA CRUZ.

JESUS É DESCIDO DA CRUZ.

7 comentários:

  1. Olá Rosário,
    Que relato incrivel! Imagino o quanto tenha sido agradavel realizar esta obra, e o trabalho ficou estupendo!
    Parabens!
    Abços

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  2. Prezado José,
    muito bom mesmo este seu blog!! Parabens por ele e por todo o seu trabalho!!
    Jose Mauricio de Vasconcelos

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  3. as obras ficaram maravilhosas, tambem nâo poderia ser diferente!que igreja linda, que paz quanta espiritualidade.!!Mariazinha Fernandes em suas mâos tudo fica divino!

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    1. Foi um período fantástico de minha vida, Mariazinha. Uma espécie de retiro e trabalho associado.
      Grande abraço e obrigado por passar aqui!

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  4. José fiquei impressionado com a beleza dos painéis, principalmente depois de pintado... Queria saber que material o artista que escupiu, moldou, não sei, usou?
    E que tintas você usou? Desde já obrigado. Abraços

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    1. Olá Yure, as peças foram moldados em gesso, na década de 50.
      Utilizamos uma tinta própria pra superfície de gesso, cuja superfície teve um isolamento anterior.
      Grande abraço e obrigado por vir!

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