segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

JOÃO BATISTA DA COSTA (José Rosário)

JOÃO BATISTA DA COSTA - Rio Piabanha, Petrópolis, 
Óleo sobre tela, 55 x 66

JOÃO BATISTA DA COSTA - Manhã de sol, Petrópolis
Óleo sobre tela, 35 x 46

JOÃO BATISTA DA COSTA - Paisagem em Petrópolis
Óleo sobre tela

Já se passaram quase 85 anos desde a morte de João Batista da Costa, referência no meio acadêmico e uma das figuras mais influentes na história da pintura propriamente dita “brasileira”. O que ficou de história e mito, o passar dos anos só faz aumentar, e é assim mesmo que surgem e se formam as grandes figuras.
Parece até uma tradição na História da Arte Universal, transformar grandes artistas em grandes mitos. Em parte por parecer que uma história romanceada com dramas e tragédias, venha qualificar ainda mais o trabalho de quem a fez, embutindo maiores valores financeiros às obras produzidas em tão deturpada vida. Também, não só pelos grandes profissionais que foram, mas principalmente pelos afetos e desafetos do destino, e muito mais pela garra e convicção com que abraçaram aquilo que era o motivo maior de suas vidas. Negando a si próprios em busca de uma perfeição inatingível, trilharam por aí grandes nomes. É com certeza uma injustiça não citar todos, mas, injustiça maior é não citar pelos menos o holandês Van Gogh, e aqui bem perto de nós, o Aleijadinho, ambos com sérias limitações e dedicação completa à Arte.

JOÃO BATISTA DA COSTA - Poesia da tarde-1895
Óleo sobre tela, 73 x 126,3

JOÃO BATISTA DA COSTA - Paisagem em Petrópolis
Óleo sobre tela, 102 x 150

JOÃO BATISTA DA COSTA - A casa do Barão do Rio Branco em Petrópolis
Óleo sobre tela, 89,5 x 115,5

Com ingredientes em toda a sua vida que o colocam na categoria de um dos nossos maiores mitos, João Batista da Costa é discreto até nesse detalhe, como foi para tudo em toda sua vida.
Quando aos oito anos de idade, ele perdeu o pai e a mãe, e foi morar com alguns familiares, já sentiu que não teria nada fácil dali em diante. Mesmo ainda tão criança, não conseguiu se entrosar com os parentes, fugindo para o Rio de Janeiro, vindo bater exatamente às portas do Asilo de Menores Desamparados, que ainda funciona como Instituto João Alfredo, num velho casarão no bairro de Vila Isabel.
Uns dirão destino, outros dirão “dedo de Deus”, certo é que, como uma teia que abraça a todos e vai atando os nós certos nos lugares certos, não havia lugar melhor para que o garoto João Batista pudesse se aportar. Muito concentrado e dedicado desde sempre, logo se sobressai nas aulas de música, vindo rapidamente fazer parte da banda do asilo. Nas aulas de Desenho e Encadernação obteve ainda maiores sucessos, tendo o privilégio de ter sido orientado pelo artista Antônio Araújo de Souza Lobo. Não demorou muito, e esse artista, convicto do garoto prodígio que tinha em mãos, consegue com o apoio do Barão de Mamoré (Ambrósio Leitão da Cunha), uma vaga para ele na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em 1885.

JOÃO BATISTA DA COSTA - Casa e Capela de Antonio Raposo Tavares
Óleo sobre tela, 74 x 92

JOÃO BATISTA DA COSTA - Paisagem com dois meninos
Óleo sobre tela, 34 x 46

JOÃO BATISTA DA COSTA - Fazenda do Brejinho
Óleo sobre tela, 42 x 52

Não podia ter chegado lá em momento mais propício. Estuda pintura com Zeferino da Costa, faz Pintura Histórica com Rodolfo Amoedo e Desenho com o próprio Souza Lobo, quem lhe arranjara a vaga. Também recebe orientações em Desenho com José Maria de Medeiros.
Nunca é demais recordar, que as últimas décadas do século XIX foram decisivas para o rumo artístico inovador e revolucionário que avançaria pelo século XX. Até mesmo no Brasil, isolado geograficamente dos grandes centros artísticos do Velho Continente, e onde as mudanças chegavam sempre a passos lentos, novos ares se tornaram bem perceptíveis nos últimos quinze anos do século XIX. A grandiloqüência neoclássica, financiada pelos impérios e monarquias, que sempre precisavam de imagens para se impor, foi cedendo espaço para uma orientação mais realista e natural, até porque, é nesse mesmo período que a República substitui a Monarquia, não só por aqui, mas em várias regiões do mundo. E nessa época, de grandes mudanças organizacionais na estrutura política, a Academia Imperial de Belas Artes se torna Escola Nacional de Belas Artes.

JOÃO BATISTA DA COSTA - O passeio
Óleo sobre tela, 32 x 42

JOÃO BATISTA DA COSTA - Trecho de paisagem com rio
Óleo sobre tela, 50 x 70

JOÃO BATISTA DA COSTA - Estudo de paisagem
Óleo sobre painel

Já em 1886, João Batista reúne um grupo de colegas para praticarem pintura ao ar livre, uma atividade que o mundo aprendeu com pioneiros da Escola de Barbizon, na França. A notícia se espalhava, e lá estavam todos a colocar cavaletes às costas e sair à caça de temas ideais. São colegas seus nesse período: Eliseu Visconti, Antônio Parreiras, Belmiro de Almeida, Pedro Alexandrino, Oscar Pereira da Silva e outros grandes nomes que se tornariam caça preciosa nos mercados de arte de nosso tempo.
Conclui então o curso de Belas Artes na Academia Imperial em 1889, recebendo inclusive Medalha de Ouro por brilhante carreira naquela escola. Seus trabalhos dessa época, já se inclinavam bastante para uma veia paisagística. Importante ressaltar que não teve nenhum mestre paisagista em sua formação. Estréia na Exposição Geral de Belas Artes no Rio de Janeiro em 1890, evento que se faria presente em toda sua vida.

JOÃO BATISTA DA COSTA - Praias de Ipanema e Leblon, 1918
Óleo sobre tela, 50 x 73

JOÃO BATISTA DA COSTA - Marinha
Óleo sobre painel

JOÃO BATISTA DA COSTA - Gruta Azul
Óleo sobre tela

Casa-se em 1893 com Margarida Reboli Berna, irmã dos colegas de escola Benevenuto Berna e Heitor. As coisas caminhavam muito bem nesse período. Passa a lecionar Desenho no abrigo de menores onde foi acolhido, e em 1894, com a obra Em Repouso, ganha o Prêmio Viagem ao Exterior na Primeira Exposição Geral de Belas Artes. Esse prêmio, antes concedido na época do Império, havia sido suspenso por vários anos. Essa era a primeira edição do mesmo durante a República, e ele, João Batista, o primeiro a ser premiado. Nessa tela premiada, a figuração é colocada em segundo plano, vindo confirmar o interesse cada vez mais crescente do jovem artista pela paisagem. Com o prêmio, viaja para Paris em 1896, onde faz estudos na Académie Julien, destino quase certo de muitos estudantes de arte que chegavam à cidade. Foram períodos de muita paz. Sempre na companhia da esposa, esteve também na Alemanha e Itália, fixando estadia em Capri, onde faz novos experimentos e conhece novos artistas. Mas, é também em Capri a maior de suas desilusões. Perde a esposa e o filho prematuro, em complicações no momento de parto. Desolado e ainda mais retraído que de costume, regressa ao Brasil mesmo antes de concluir o período de sua bolsa. Nunca mais viajaria para fora do país.

JOÃO BATISTA DA COSTA - Paisagem
Óleo sobre tela, 36 x 46

JOÃO BATISTA DA COSTA - Ponta do calabouço
Óleo sobre painel, 12,3 x 31


JOÃO BATISTA DA COSTA - Parque da Aclimação, São Paulo
Óleo sobre tela, 50 x 60

A natureza já introspectiva do artista, ganha ainda mais força naqueles primeiros anos sem a esposa. Reservado e tristonho, não abandona porém o trabalho, expondo toda sua produção européia na Casa Postal da Rua do Ouvidor em 1899. Nesse período dedica-se exaustivamente à produção de retratos e firma-se ainda mais como um respeitado paisagista. Focado em sua produção mais do que nunca, expõe assiduamente nas Exposições Nacionais de Belas Artes, vindo a conquistar todos os prêmios possíveis conferidos por este Salão. Com a vida já de volta aos trilhos, casa-se pela segunda vez com Noemi Gonçalves Cruz, irmã do sanitarista Osvaldo Cruz. Com ela teve quatro filhos.

JOÃO BATISTA DA COSTA - Paisagem com casa e figura,
Óleo sobre tela, 40 x 31

JOÃO BATISTA DA COSTA - Paisagem fluvial, 1922
Óleo sobre painel, 38,3 x 56,2

JOÃO BATISTA DA COSTA - Nu de menino
Óleo sobre tela, 65 x 44

Uma série de acontecimentos na carreira profissional o consolida como um dos maiores nomes na pintura brasileira, não só ocupando várias cadeiras de ensino, mas chegando ao cargo máximo de Diretor da Escola Nacional de Belas Artes em 1915, cargo que ocuparia até 1926.
É dessa época, uma série de desavenças orquestradas por Antônio Parreiras, declarado rival. Mas, não cede a nenhuma delas, impondo seu jeito sereno e meditativo para conduzir as coisas. 

JOÃO BATISTA DA COSTA - Quaresmas, Petrópolis, 1914
Óleo sobre tela, 97 x 130

JOÃO BATISTA DA COSTA - Trecho de paisagem com rio
Óleo sobre tela,  96 x 128

JOÃO BATISTA DA COSTA - Marabá
Óleo sobre tela, 200 x 150

Muitas foram as iniciativas quando esteve à direção da Escola Nacional. Contrata um restaurador estrangeiro para formar as primeiras turmas de restauradores nacionais e recuperar um grande número de obras da pinacoteca da Escola. Faz melhorias significativas no prédio daquela instituição, como a construção de novas e amplas galerias, criação de novas turmas para aulas de escultura e modelagem, e organização de todo o patrimônio ali instalado.
Quando esteve à frente da Escola, foi formada uma legião de novos paisagistas no país, todos com forte influência do Realismo Romântico das escolas paisagísticas italianas e dos mestres de Barbizon. Em 1922, é um dos integrantes da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário da Independência no Rio de Janeiro. É nesse período que manda executar diversas esculturas em bronze para a Escola Nacional e organiza uma grande exposição de arte, retrospectiva e contemporânea. É também por iniciativa sua, o lançamento do primeiro catálogo biográfico de todos os artistas da época. Conservador como sempre foi, recusa-se a aceitar a Arte Moderna, o que denomina como “uma anarquia a serviço dos artistas falhados”. Mas, convive e respeita movimentos como os de Portinari e Orlando Teruz.

JOÃO BATISTA DA COSTA - Trecho de paisagem com ponte, Petrópolis
Óleo sobre madeira, 24 x 36

JOÃO BATISTA DA COSTA - Descanso
Óleo sobre madeira, 30 x 40

JOÃO BATISTA DA COSTA - Nu masculino de costas
Óleo sobre tela, 1889

Quando ainda diretor da Escola Nacional, agradecendo a uma homenagem, João Batista da Costa resume sua vida em um breve depoimento:

“Devo minha carreira artística a um ato de independente rebeldia: fugindo à noitinha da casa de meus parentes na roça, quando órfão de pai e mãe; dormindo em plena mata; apresentando-me, depois de diversas fases de minha vida, entre os oito e os doze anos, ao diretor do Asilo de Meninos Desamparados, em pessoa, pedindo minha admissão nesta casa, onde me eduquei; matriculando-me na Academia Imperial de Belas-Artes, por ordem do Barão de Mamoré quando Ministro do Império; encaminhando-me na vida sem conselhos de ninguém, mas com coragem e altivez; trazia para o desempenho do cargo, para suprir todas as lacunas que pudessem existir, a minha capacidade de trabalho, meu bom-senso que nunca me abandonou, o amor à minha profissão e, sobretudo, a idéia fixa de fazer alguma coisa pela arte do nosso Brasil.”

João Batista da Costa morreu repentinamente no ano de 1926.

*****

JOÃO BATISTA DA COSTA - Auto-retrato
Óleo sobre tela, 1922

Nascimento: Itaguaí, Rio de Janeiro, a 24/11/1865
Falecimento: Rio de Janeiro, a 20/04/1926

8 comentários:

  1. Eu fico muito contente em poder descobrir mais sobre esses artistas aqui em seu Blog, e mais contente ainda em descobrir o seu trabalho que é particularmente maravilhoso. Parabens!!! E obrigado!

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  2. Ernandes, obrigado pelo apoio, principalmente pela visita. Abraço!

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  3. sou artista plastico e muitas vezes incompreendido, sinto-me muito bem quando visito o seu blog.
    vidal

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  4. Olá Raimundo, acho que todos nós somos incompreendidos e incompreensíveis em uma época da vida. O bom é que dessas dúvidas nascem as evoluções. Obrigado pela visita!

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  5. oi meu nome e rubia eu estou a procura do quadro meninas jardim de petropolis brincando com bonecas eu acho que e isso mesmo por favor me ajude preciso dessa imagem meu imal e rubia.germano@bol.com.br por favor se tiver me manda brigado....

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    1. Rubias as meninas são as filhas dele Ruth e Amalia , no livro publicado semana passada :
      Album João Batsita da Costa 120 pinturas selecionadas de Roberto hugo da Costa Lins, pag 101

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    2. Ellen, obrigado pela valiosa dica e espero que ela já encaminhe algum encontro para para a Rúbia.
      Grande abraço a todas vocês!

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  6. Olá Rúbia, não a tenho, mas caso encontre te comunico. Abraço!

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