domingo, 7 de agosto de 2011

A FRONTEIRA ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO (José Rosário)

Alguns dias de reclusão consentida são momentos em que se permitir conhecer melhor, e por isso, conhecer melhor o mundo, acredito sejam oportunidades oferecidas a todos e percebidas por muito poucos. Há que se ter muita coragem para encarar a lucidez que Nietzsche tanto temia, e renascer dela com uma chama que abranda a fúria louca de avançar as horas, e que nos faz chegar ao fim de um dia sem tê-lo vivido. Dessa experiência, o perceber verdadeiro do mundo só nos fará visita através de uma única entrada, a empatia.
Somente pela empatia podemos entender e conviver com tudo à nossa volta. Somente pela empatia se tem acesso ao respeito, tanto recebido quanto doado. Só há família e amizade, quando me permito completar com outros, aquilo que não há em mim. Sem empatia, não há amor na sua forma mais plena. Por ela, é possível entender, sem necessário aceitar, porque os nossos jovens se perdem cada vez mais nas fugas, que a cada dia, uma infinidade de novas drogas lhes é oferecida como válvula de escape. Se quiser ser mais científico, é também pela empatia que podemos compartilhar até de fenômenos físicos. Foi pela empatia à maçãs, que Newton nos provou que somos corpos físicos aprisionados a esse planeta, numa força que apelidou de gravidade. Ter empatia com a gravidade, um fenômeno natural, é entender porque estamos presos à queda livre. Só do entendimento se chega à plena realização e aceitação do convívio.
Vivemos entre um mundo que vemos e percebemos pelo que é real, e outro que sentimos e criamos pelo que é imaginário. Só do equilíbrio no convívio entre esses mundos é que está a chave para a verdadeira vida. Esse equilíbrio se manifesta apenas quando esses dois mundos se comunicam. Daí que a Arte, talvez seja a única comunicação possível entre os mundos reais e imaginários, dos corpos que os vivem e das mentes que os criam. Comunicação que só é plenamente estabelecida, quando me coloco esvaziadamente diante de uma obra, e deixo que a empatia, o único sentimento confiavelmente existente, me permita sentir o que o artista queria dizer naquele momento.
Historicamente vimos que todos os grandes nomes da Arte foram transgressores em seu tempo. Transgredir não significa necessariamente contestar, mas, oferecer uma nova forma de ver e sentir. Assim, Michelangelo nos mostrou que a criação do mundo e o inferno, poderiam ter óticas que as mentes comuns ainda não viam. Bosch, em plenos anos de 1500, ilustrou a terra dos sonhos, e que o mundo só soube compreende-lo na empatia com o Surrealismo. Courbet e sua realidade provocante, Monet e sua mágica visão da luz, Picasso e sua liberdade incontrolável, Pollock e sua desmaterialização da imagem, nos mostrando que até no caos, é possível encontrar ordem. Todos, todos eles contestados em seus tempos e aclamados num futuro seqüente. Alguns, injustamente só entendidos apenas centenas de anos após suas mortes, outros, que amargaram a vida no início de carreira, mas que colheram, ainda que tardiamente, belos frutos das visões que quiseram compartilhar.
Também pela empatia, e talvez apenas por ela, seja possível entender a linguagem da arte de hoje, perdida em encruzilhadas perigosas e sem possível destino. Talvez no futuro, historiadores estarão descrevendo o hoje como a época de um novo Renascimento ou como o período de maior equívoco na história da Arte. Não sabemos ao certo, a verdade sobre a realidade chega sempre quase bem tarde.
Sobre o que vemos e imaginamos, são nossas verdades aprendidas que nos parecem dizer algo mais. Mas nunca se esqueça: as verdades também mudam e há um risco constante em não se deixar guiar por uma trilha correta. Para esses momentos, empreste os olhos à empatia, veja o mundo como sugeriu Cecília Meireles: “o que é preciso é ser como se já não fôssemos”.


MICHELANGELO - O juízo final
Afresco - Capela Sistina, Vaticano

HIERONYMUS BOSCH - A nau dos insensatos
Óleo sobre carvalho - 58 x 33
Entre 1488 e 1510 - Museu do Louvre, Paris

GUSTAVE COURBET - A origem do mundo
Óleo sobre tela - 46 x 55 - 1866
Museu d'Orsay, Paris

CLAUDE MONET - Ensaio de figura ao ar livre,
mulher com sombrinha
Óleo sobre tela - 131 x 88 - 1886
Museu d'Orsay, Paris

PABLO PICASSO - Mulher sentada
Museu Picasso, Paris

JACKSON POLLOCK - Ritmo de outono - 1950

"A verdade é um batalhão móvel de metáforas,
metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma
de relações humanas que foram enfatizadas poética
e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que,
após longo uso, parecem a um povo sólidas,
canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões,
das quais se esqueceu que o são, metáforas que
se tornaram gastas e sem força sensível, moedas
que perderam sua efígie e agora só entram
em consideração como metal, não mais como moedas"
Nietzsche, 1873

10 comentários:

  1. Que texto maravilhoso Rosário!
    O li hoje à tarde e o reli agora à noite, e provavelmente o lerei novamente pela manha ao chegar ao trabalho...
    Empatia!

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  2. Leo e Márcio, depois vou socializar com vocês o motivo do texto. Obrigado pela visita. Abraço!

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  3. Por nada Rosário, eu é que agradeço por ter compartilhado esse texto, o relendo hoje pela manha, lembrei de um outro filósofo, se não me engano Kant, em uma abordagem semelhante à de Nietzsche nesse trecho que você destacou, disse que a realidade nua e crua é inacessível ao homem, uma vez que usamos nossos “pouco confiáveis” sentidos para perceber a realidade do mundo. Esses estímulos captados pelos nossos sentidos são interpretados pelo cérebro com base em nossas experiências, uma vez que as experiências são diferentes a cada homem, a percepção da realidade é experimentada de forma muito plural e hermeticamente “codificada”. Com base nisto, talvez seja possível afirmar que as relações sociais se possibilitam apenas pela empatia! Muito feliz essa sua colocação.
    Abraço

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  4. Valeu Leonardo, mais uma vez, pelos comentários. Ainda não havia visto essa consideração do Kant. Acredito que podemos chegar a muitas considerações parecidas e pessoais, afinal já disse Leonardo Boff, "todo ponto de vista é a vista de um ponto".
    Tudo é uma questão de nos fazermos todas as perguntas necessárias e buscarmos em nós mesmos, a sinceridade de muitas respostas. Filosofia é exatamente isso, não é? Se compartilhada, ainda melhor!

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  5. Talvez por isso eu sempre volte aqui. Empatia pura! Um bj carinhoso.

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  6. Facinante amei vou compartilhar no face...

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    1. Legal, às vezes esqueço de fazer isso. Grande abraço e obrigado por passar aqui!

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  7. Bom dia José...
    Infelizmente a exposição do Florencio não entrou em cartaz porque a prefeitura resolveu me demitir. Estou de volta e realizando uma curadoria especial no galpão 4, da Funarte em BH. Onde consegui 3 obras originais do Florencio e estarei prestando uma modesta homenagem a ele e a outros 2 artistas de Sete Lagoas. Serão somente 4 dias de mostra e nossa cidade estará participando com outras modalidades de arte.
    Dia 22 25 de junho, a partir das 14 horas. Funarte: Rua Januaria, 68 - BH/MG.
    Tem ingresso porque trata-se de um circuito envolvendo varias categorias de arte. Teatro, Dança, Musica, etc... Você e os leitores deste seu ótimo Blog, estão convidados, ok?
    Grande abraço!
    Dmtrius / Curadoria de Arte

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    1. Bom dia, Dmtrius.
      O Florêncio é um grande artista, um dos grandes nomes da cena realista mineira.
      Desejo muito sucesso na sua mostra. Se tiver algum release ou convite virtual da mostra, mande para meu e-mail, para ajudar a divulgar.
      Grande abraço!

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