sábado, 9 de julho de 2016

A DANÇA DAS ESFERAS

JOSÉ ROSÁRIO - A dança das esferas - Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2008 - Coleção particular

Sigo o curso das estrelas?
Eu me proponho a ordem dos mundos ou abraço ao caos?

Por um instante, saio da minha restrita pequenez e me permito passear pelo universo. De início, a lucidez do infinito me assusta. Aqui e ali, galáxias se expandem e seguem seus cursos. Serenas! Diante dos meus olhos, um turbilhão de energia que se organiza constantemente. Não há rebeldia, nenhum corpo celeste vai em direção contrária aos seus propósitos. Gravidade atrai e repele, com a precisão cirúrgica que miseravelmente não sabemos conceber. Dentro de cada estrela, uma pequena fração da misteriosa energia que gera a vida.
Mas, o universo é superlativo demais. Em uma proporção infinitamente menor, volto ao meu planeta. A mesma ordem se revela aos meus olhos. Minerais se organizam e edificam todas as estruturas, numa sinfonia que até então me era estranha. No compasso das estações, tudo se recolhe ou desabrocha. A água tem o seu ciclo e está novamente em tudo que é vivo, como a misteriosa energia das estrelas. Um reino servindo ao outro, numa cadeia de sobrevivência sob o respeito de uma batuta invisível. Novamente, a ordem natural das coisas se estabelece sob meus olhos. E me encontro em mim.
Em meu corpo, o infinito se manifesta na mesma ordem. Minerais se agrupam em células e moléculas, e lá estão todos os fluidos, órgãos e membros. Não há rebeldia! Cada célula desempenhando o seu papel, nascendo e morrendo dentro de mim. No infinito maior ou no infinito menor, percebo, nem que por um instante, a maravilhosa dança das esferas. A isso, chamamos de imanência. A força maior no mundo e em mim. Silencio! A paz me estende as mãos e eu me permito bailar com ela.

JACQUES-LOUIS DAVID - A morte de Sócrates
Óleo sobre tela - 129,5 x 196,2 - 1787 - Museu Metropolitano de Nova York
Ao ter sua morte decretada como punição por influenciar aos seus
seguidores, Sócrates percebeu que era a verdadeira vida que estava sendo
oferecida. Morria seu corpo. Nascia ali, mais do que nunca, as suas ideias.

A ignorância gosta de lançar suas âncoras no mar da comodidade. É no canteiro da dúvida que brota viçosa toda sabedoria. Despertar é romper a casca da inconsciência! Nunca ter medo das perguntas, nem tão pouco das respostas. E a pergunta maior se fez: o que está por trás de toda ordem cósmica, a mesma que rege as galáxias e até a minha menor partícula? Quer você queira ou não, essa ordem cósmica existe, desde o sempre até o eterno, bagunçando a cabeça de físicos ou simplesmente curiosos. Dentro de sua crença, ou à luz de suas especulações, chame-a do que quiser: Deus, Lei Mística, força cósmica, energia universal... Simplesmente a aceite e jogue fora todos os conflitos que carrega. Você vai ver que seguir mais leve tem suas vantagens. Para o caminho ascendente, tudo que é supérfluo impede o caminhar.
Aceitar é um movimento de acolhida. A exemplo das galáxias ou mesmo da minha menor partícula, preciso apenas seguir meu curso. E seguir conforme ele, pede apenas que eu não vá no sentido contrário de sua ordem. Nós humanos somos os únicos seres que rebelam contra a ordem. Não a acolhemos como ela espera que o façamos. Todos os sofrimentos nascem daí. Fico imaginando que apenas esse planeta já seja mais que suficiente para nos suportar. Mesmo confinados aqui, ainda não percebemos os limites da nossa pequenez. A ganância nos faz destruir matas e extinguir rios, dizimar espécies e ferir ao próximo. Não aprendemos a ver no outro e em todas as coisas que nos cercam, os companheiros de viagem na breve existência da forma que ocupo hoje. Porque a vida é cíclica, todo o eu físico que sou hoje continuará por aí, agrupando em outras formas, seguindo o curso da ordem que não para, com ou sem a minha permissão. A eterna música da vida está no ar e o maestro invisível a oferece a todos nós. É nesse momento que nós, humanos, podemos fazer a diferença. Por uma série de atos, a minha caminhada pode ser maior do que apenas ser. Pensar no bem de tudo e de todos e dividir com os que virão o que melhor experimentei um dia. A isso chamamos de transcendência. Transcendência é a fração do desejo da ordem maior que habita em mim. Um sopro de Deus para os que creem ou a chama da ética para os que preferem assim. Muitos já se esforçaram para nos passar suas experiências: Jesus, Buda, Maomé, Confúcio... Até chegamos a ouvir suas falas, mas ainda não as colocamos em prática, no rigor de suas simplicidades. Continuamos como lamentáveis criaturas rebeldes, que fogem da ordem dos mundos e criam seus próprios conflitos.

Rompida a casca que antes me cegava, e desperto para uma consciência mais sincera, refaço as mesmas perguntas: Sigo o curso das estrelas? Eu me proponho a ordem dos mundos ou abraço ao caos?

JOSÉ ROSÁRIO - A dança das esferas 2 - Óleo sobre tela - 60 x 100 - 2008 - Acervo particular
Em 2008, fiz uma série de 8 telas, intitulada A Dança das Esferas.
Era a possibilidade de explorar uma arte metafísica, que durou cerca de 9 meses.

4 comentários:

  1. Dr. Não é por acaso que sou seu fã. Excelente!!!

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    1. Meu amigo, muito obrigado por vir.
      Um grande abraço!

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  2. Não há rebeldia, nenhum corpo celeste vai em direção contrária aos seus propósitos...
    Show de expressão!
    Parabéns! abração!

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    1. Olá, Vidal.
      Bom revê-lo, meu amigo. Um grande abraço!

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