domingo, 10 de outubro de 2010

BELEZA E ARTE (José Rosário)

JOSÉ ROSÁRIO - Floydiana
Mista sobre tela - 70 x 100 - 2009
Acervo particular de Edmilson Lage
  

Imagine um homem pré-histórico em seu cotidiano. Caça, protege-se, defende seu espaço contra os concorrentes do próprio grupo, come, dorme, sobrevive... Um certo dia, esse mesmo homem, em um momento de rara descontração, resolve fazer uma cabeça de animal no cabo de seu machado. É uma imagem rude, própria da condição daquele primitivo homem. No entanto, a partir daí, aquele machado parece conter algo diferente. A cabeça daquele animal entalhada ali, não deixa o corte do machado melhor, não torna a ferramenta mais eficiente, e, mesmo assim, aquele homem sente por aquela ferramenta, algo que não sente pelas ferramentas comuns. Nasce aí, o primeiro conceito de arte.
Lá na pré-história até bem muito tempo depois, enfeites só serviam de adornos a objetivos que tivessem utilidade, como facas, machados, potes de cerâmica, baús... Até que um dia o homem separou o objeto de utilidade do enfeite, e o que era só um adorno tornou-se o motivo principal. Um objeto de arte é isso, algo que não precisa ter utilidade prática, mas, que deixa a nossa vida melhor. Um objeto de arte se faz por ele mesmo.
Arte é difícil de descrever em sinônimos. É algo como um contentamento estético. Um quadro na parede não altera em nada a estrutura física da parede. Não a deixa mais resistente, não a protege contra danos... O que há nele então? Por que colocamos quadros nas paredes? Alguns dirão que é pela beleza. Mas, beleza é um conceito muito pessoal. O que é belo para mim pode ser um desastre para você. Fazemos isso porque apenas sentimos bem interiormente. Não é necessário motivo melhor do que este. Viver bem é poder proporcionar algo sempre melhor. Quando ouvimos uma música, quando lemos um belo poema, quando ficamos a contemplar por um longo tempo um quadro na parede, estamos dando beleza a algo interior que temos. É uma parte nossa que se modifica com algo que vem de fora.
A História nos ensinou que ao separarmos o objeto utilitário do enfeite, também podemos criar problemas. Quando a arte começou a virar “negócio”, o homem abandonou um pouco o sentido estético do objeto. Pessoas não querem pendurar um Picasso na parede porque ele apenas faz bem. Todos desejam um Picasso pelo valor financeiro embutido nele. Picassos nem ficam em paredes, são guardados em cofres de bancos. Sem querer, o homem devolveu ao objeto de arte uma utilidade além da simples fruição de tê-lo. Estamos deixando de ser melhores, para podermos ter mais. Hoje, leilões são realizados, onde pessoas compram a obra sem nunca tê-la visto. “Comprei um Portinari!”, dizem com o maior orgulho. Sequer sabem sobre a tela, a história que envolveu aquele tema, ou, a beleza que é observá-la sem saber o seu valor financeiro. Um Portinari sem a fruição de que nos proporciona é o mesmo que um machado sem a cabeça de um animal. É apenas uma ferramenta de utilidade.
Com certeza o homem sobreviveria sem a Nona Sinfonia de Bethoven, sem as Ninféias de Monet, sem as peças de Shakespeare. Mas, pode ter certeza, com todas essas coisas, viver é bem melhor.

7 comentários:

  1. Espero poder ler muitos outros textos assim, pois é um trabalho que nos eleva, nos da uma grande motivação para continuar o dia a dia.

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  2. Parabens, vc é uma pessoa muito especial e inteligentíssima, que vc possa realizar todos os seus sonhos...

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  3. Olá amigo... muito boa a iniciatica depois dá uma olhada no meu www.uelitonsantana.blogspot.com

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  4. É sempre muito bom poder vir aqui e ler as cousas que escreve assim como poder deliciar com as fotos das obras publicadas aqui. continue sempre nos proporcionando esse momento.

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  5. Maravilha de telas todas muito lindas!

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