domingo, 25 de março de 2018

EDUARD HILDEBRANDT


EDUARD HILDEBRANDT - Igreja de Santa Luzia, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 24,3 x 34,3 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Largo com chafariz - Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,4

Na última visita a São Paulo, em uma passagem mais demorada pela Pinacoteca, chamaram a atenção dois trabalhos: Paisagem com índios e Paisagem com negros, do artista Eduard Hildebrandt. Impossível ficar indiferente a essas obras. Mesmo em pequenas dimensões, elas nos aprisionam para um tempo maior diante delas. Pertencentes ao acervo da Coleção Brasiliana, da Fundação Rank-Packard e Fundação Estudar, faziam parte de uma exposição temporária que acontecia naquela instituição. Já conhecia os trabalhos em aquarela do artista, que aliás são o carro-forte de sua produção, mas ao ver aqueles pequenos óleos pude confirmar a grandiosidade de sua obra.

EDUARD HILDEBRANDT - A Glória, Rio de Janeiro - Aquarela sobre papel - 33,9 x 49,8

EDUARD HILDEBRANDT - A Glória, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,5 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - A Glória, Rio de Janeiro
Óleo sobre tela - 65,7 x 96,8 - Cerca de 1846

Eduard Hildebrandt chegou ao Brasil em 1844, ficando aqui entre os meses de março e outubro, percorrendo nesse curto período de tempo locais como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pernambuco. Em tão rápida estadia, produziu uma das mais belas e valiosas coleções de vistas do Brasil colonial. Se não têm a fama do Debret e Rugendas, não perdem em nada com relação à qualidade técnica e principalmente poética de suas narrativas. Hildebrandt superou a todos os outros artistas viajantes que passaram por aqui, pois sua descrição do que via era precisa e magistralmente executada.

EDUARD HILDEBRANDT - Engenho Velho - Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,4 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rio de Janeiro - Aquarela sobre papel - 25,7 x 36,3 - 1844

Sempre financiado por Frederico Guilherme, rei da Prússia, Hildebrandt empreendeu inúmeras viagens por várias partes do mundo. O financiamento se deu graças à Medalha de Ouro no Salão de Paris, concedida a ele em 1843. Foi por intermédio do naturalista Alexander von Humboldt, que o financiamento do governo prussiano possibilitou a primeira das muitas viagens que faria em sua vida. E essa primeira expedição veio exatamente para as Américas, iniciando pelo Brasil e passando também pelos Estados Unidos. Levou um material de tão grande excelência, provavelmente as aquarelas mais felizes de toda sua vida, que logo foi eleito membro da Academia de Berlim e incumbido para várias viagens em sequencia.

EDUARD HILDEBRANDT - Paisagem com índios
Óleo sobre tela - 39,5 x 57 - Entre 1844 e 1845

EDUARD HILDEBRANDT - Paisagem com negros
Óleo sobre tela - 36,9 x 58,2 - 1845 - Pinacoteca do Estado de São Paulo

A quase totalidade da valiosa coleção de estudos produzidos no Brasil pertence ao Gabinete de Gravuras da Nationalgalerie, em Berlim. São 170 obras no total, entre aquarelas e desenhos, coletados in loco, no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pernambuco. Das aquarelas do Rio de Janeiro, nove são especiais, no que dizem respeito ao rigor quase fotográfico. São um verdadeiro hino à glória luminosa de um Rio que encantou a todos que passaram por aqui, seja pelas paisagens naturais exuberantes, como pela arquitetura colonial, ricamente concebida para aquela época.

EDUARD HILDEBRANDT - Bahia - Carvão sobre papel - 21,8 x 29,6 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rua da Misericórdia, Rio de Janeiro
Guache e carvão sobre papel - 30 x 23,3 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Morro do Castello, Rio de Janeiro
Carvão sobre papel - 21,8 x 29,7 - 1844

Eduard Hildebrandt nasceu a 9 de setembro de 1818, em Dantzig, na Alemanha. Segundo filho, entre sete irmãos, teve uma infância difícil, sustentada pelo pai, um pobre pintor de paredes. O mar sempre o inspirou desde cedo, e dizia que um dia ainda iria entrar para a Marinha. Com a morte do pai, quando tinha apenas 13 anos, resolveu seguia as aspirações de sua mãe e entrou para aulas de desenho. Não por coincidência, fez os primeiros estudos com o marinhista Wilhelm Krause, em Berlim. Chegou a ir até a Inglaterra e Escócia para se aperfeiçoar nos estudos e terminou sua especialização com Eugène Isabey, em Paris. Mal sabia que o sonho de criança e os desejos de sua mãe finalmente iriam se casar. Iria percorrer o mundo como ele queria e fazer aquilo que sempre foi a vontade dela.

EDUARD HILDEBRANDT - Igreja da Piedade, Salvador
Aquarela sobre papel - 24,5 x 34,8 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Ilha da Boa Viagem, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 17,8 x 25,4 - 1845

EDUARD HILDEBRANDT - Mazaro, arredofres de Recife
Aquarela e óleo sobre papel - 24,3 x 34,3 - 1844

Uma coisa é profundamente marcante em toda a produção de Hildebrandt: o estilo. Principalmente nos trabalhos à óleo, isso é perceptivelmente marcante. Não importa muito se a paisagem é das Américas, da Europa, do norte da África, do Oriente, suas pinturas sempre se orientam a partir de algumas regras básicas de composição, a se destacar a incisão de focos de luz dirigidos, iluminando os pontos que concentram a narrativa principal do quadro e áreas de profunda sombra, no restante da composição. Há também o predomínio de cores quentes, um fato típico em todas as suas obras, principalmente pinturas. Assim, todas ganham o ar de aparente similaridade de locais, porém, com uma grandiloquência, quase épica. Ele transformou cenas simples e pitorescas em obras monumentais e rigorosamente construídas.

EDUARD HILDEBRANDT - Quitite - Aquarela e óleo sobre papel - 24,3 x 34,3 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 36 x 25,8

EDUARD HILDEBRANDT - Uma fazenda, com grupo de escravos no primeiro plano
Óleo sobre tela - 68 x 101 - 1844

Diferentemente dos óleos, as aquarelas e os estudos a lápis, feitos todos in loco, revelam uma observação acurada e bem seletiva do artista. Não têm o arranjo idealizado, percebido nos óleos, mas trazem uma composição bem alicerçada na realidade. Aliado a isso tudo, soma-se o gosto pelo exótico e a afinidade com a pintura orientalista e romântica francesa. Ele soube filtrar tudo isso muito bem e criar um estilo único e inconfundível.

EDUARD HILDEBRANDT - Igrejinha de Nossa Senhora da Saúde
Aquarela sobre pape - 17,9 x 25,7

EDUARD HILDEBRANDT - Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 26,3 x 20,3

EDUARD HILDEBRANDT - São Paulo - Aquarela e óleo sobre papel -  24,2 x 34,3 - 1844

Mal havia descansado da viagem às Américas, Hildebransdt já era incumbido para uma nova viagem, dessa vez para a Escócia, Canárias, Espanha e Portugal. Mais adiante, vai à Itália, Egito e Grécia e até o Ártico. Mas, sua grande aventura viria entre os anos de 1862 e 1863, onde realiza uma famosa viagem ao redor do mundo, mais uma vez às custas de seu generoso patrono. Passou por Trieste, Alexandria, Suez, Índia, China, Japão, Estados Unidos, Antilhas e finalmente a Inglaterra. Dessa expedição, mais 300 aquarelas foram produzidas. Dessas, 280 se encontram em Berlim.

EDUARD HILDEBRANDT - Chafariz da Rua do Conde, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 17,6 x 25,7 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Lagoa Rodrigo de Freitas
Aquarela sobre papel - 17,6 x 25,6 - 1844

EDUARD HILDEBRANDT - Rio Comprido, Rio de Janeiro
Aquarela sobre papel - 18,7 x 25,8 - 1844

Eduard Hildebrandt faleceu em Berlim, a 25 de outubro de 1868. Uma importante observação sobre o artista, encerra a narrativa de Gilberto Ferrez, no livro O BRASIL DE EDUARD HILDEBRANDT: “Dos pintores aquarelistas que nos visitaram no século passado, foi sem favor Eduard Hildebrandt o mestre do tropicalismo realístico, jamais superado por outro artista no Brasil, não só pela arte de captar as cores e contrastes de luz, sem olvidar o detalhe arquitetônico, como por ter escolhido ângulos não aproveitados pelos demais” (1998).


LOUIS AUGUSTE MOREAU - Retrato de Eduard Hildebrandt
Aquarela sobre papel - 27,5 x 22 - 1844

2 comentários:

  1. Belas obras! Já tive a oportunidade de ver a "paisagem com negros" na pinacoteca, mas não tinha ideia da extensão do trabalho deste artista. Vou procurar o livro citado por você.
    Obrigado mais uma vez pelo excelente artigo.

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    1. Que bom, Thiago. Não vai se arrepender de adquirir o livro. Cada imagem melhor que outra e texto muito bem elaborado.
      Obrigado pela visita!

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