domingo, 4 de março de 2018

IMPRESSIONISMO NA ALEMANHA


FRANZ SKARBINA - Jardim em Karlsbad - Óleo sobre tela - 97 x 146 - Entre 1899 e 1890

MAX LIEBERMANN - Feira de papagaios
Óleo sobre tela - 88,1 x 72,5 - 1902

A história da Arte tem uma série de injustiças inaceitáveis e uma delas diz respeito ao tratamento excludente ou quase discriminatório dado ao impressionismo alemão. Isso já melhorou bastante nas últimas décadas, mas até a metade do século passado, os “impressionistas alemães” passavam quase despercebidos. Há várias razões históricas que fazem entender isso, quando se olha à luz dos bastidores do cenário artístico. E não se pode tomar partido, sem antes conhecer a verdadeira gênese dessa “injustiça”. O prolongamento do estado de inimizade entre alemães e franceses, que seguiu à Guerra Franco-Prussiana, certamente teve um peso muito grande nessa exclusão. Raros eram os artistas alemães, em solo francês, que não negavam suas origens, com receio de hostilidade local. Da mesma forma que qualquer artista alemão que se posicionasse simpático ao Impressionismo francês, em seu país, era no mínimo imprudente.

KARL HAGEMEISTER - Verão em März
Óleo sobre tela - 210 x 120 - 1895

ULRICH HÜBNER - Lübeck - Óleo sobre tela - 100 x 140 - 1912

Paris passou a substituir Roma como local de peregrinação artística desde a década de 1850. As academias e escolas de arte, bem como os competitivos salões realizados ali, consolidavam a capital francesa como a referência do que havia de melhor no mundo artístico daqueles tempos. E se havia um lugar que lançava moda, em todos os setores, ali parecia o ideal deles. Como o Impressionismo foi lançado e consolidado como sucesso em solo francês, é justo e aceitável que Paris e os artistas franceses tivessem se tornado uma referência padrão para todos os pretensos artistas impressionistas de qualquer outra nacionalidade. Assim, americanos, ingleses, italianos, russos, australianos, todos que se despontaram como ótimos artistas com características impressionistas, ainda que não tivessem aderido diretamente ao movimento, tinham os franceses como referência. As questões histórico-políticas entre alemães e franceses deixaram os primeiros como artistas marginais desse importante movimento, que viria revolucionar todo o mundo.

FRITZ VON UHDE - Viagem para Belém - Óleo sobre tela - 117 x 126 - 1890

CARLOS GRETHE - Esperando a embarcação
Óleo sobre tela -170,5 x 116 - 1900

Se no próprio país de origem, o Impressionismo teve que esperar até a década final do século XIX para ser reconhecido, imagine num país em que falar sobre algo que enaltecia e reconhecia o inimigo como precursor e inovador?! As desavenças passadas fizeram com que, inicialmente, o Impressionismo na Alemanha não tivesse o êxito que merecia. Felizmente, há colecionadores visionários, que sempre incentivaram e promoveram a arte, em toda sua história. E sempre foram pessoas que não possuíam fronteiras. Valorizavam e promoviam aquilo que era necessário e promissor.

CARL SCHUCH - Rio com uma ponte em ruínas - Óleo sobre tela - 22,9 x 32,7 - 1870

PAUL BAUM - Paisagem em Kleinem Wiesenbach - Óleo sobre tela - 36,5 x 45 - 1900

Nascido na Rússia, Carl Bernstein foi um dos primeiros e grandes incentivadores do movimento Impressionista na Alemanha. Juntamente com sua esposa, Felicie, dedicavam as noites de quarta para uma espécie de encontro cultural, onde promoviam os artistas evidentes e convidavam figuras da sociedade para falar e admirar sobre arte. Daquele tipo de milionário que soube como empregar os bens materiais na promoção cultural e evolução da cidade que escolheu viver. O primeiro contato do grande público alemão com o Impressionismo se deu em 1883, quando a Galeria Gurlitt expôs as coleções de Carl e Felicie Bernstein em Berlim. Eram 10 obras de propriedade do casal e mais 23 emprestadas pelo marchand parisiense Paul Durand-Ruel. Com a mesma hostilidade que também foram recebidos os primeiros trabalhos impressionistas na França, em Berlim também não foi diferente. Público e críticos classificaram os trabalhos como esboços mal acabados e com pouca habilidade técnica. Max Liebermann, amigo do casal Bernstein, foi o primeiro artista alemão a reconhecer a grandiosidade do novo estilo e inclusive a adquirir trabalhos de artistas franceses. Foi ele também um dos grandes alemães dentro do movimento naquele país. Mas, até mesmo entre os artistas alemães, simpatizantes com o Impressionismo francês, pulsava uma inveja contida e uma aversão natural ao que vinha de lá.

MAX LIEBERMANN - Vinck Restaurante, Leiden - Óleo sobre tela - 72 x 88 - 1905

LOVIS CORINTH - Nu reclinado - Óleo sobre tela - 75 x 120 - 1899

Quando, nos primeiros anos de 1900, Gauguin e Denis expuseram em Berlim, embora o Impressionismo ainda não estivesse muito bem estabelecido no país, já foram aceitos com mais familiaridade. Houve quem dissesse que seus trabalhos tinham semelhança com a arte moderna alemã. Bastou isso para que a velha rivalidade entre os dois países viesse à tona. Mesmo os artistas alemães, simpatizantes aos artistas franceses, não queriam que suas obras fossem comparadas às dos vizinhos. Houve um intenso esforço, por parte de artistas alemães, com o orgulho ferido, para diferir estilisticamente o “Impressionismo alemão” do francês. O próprio Liebermann deixou uma célebre frase: “Toda essa história da divisão das cores é um disparate. Constato uma vez mais que a natureza é simples e cinzenta”. Uma oposição declarada à filosofia do Impressionismo francês, que afirmava exatamente o contrário.

ADOLPH VON MENZEL - Meissonier no ateliê em Pissy
Óleo sobre painel - 22,3 x 29,9 - 1869

ADOLPH VON MENZEL - Metalúrgicos - Óleo sobre tela - 158 x 254 - 1875

É inegável a influência e contribuição de Adolph von Menzel para o que seria o Impressionismo alemão no futuro. Sua pincelada livre e virtuosa e um desdém pela minúcia de desenhador, fizeram dele o precursor de um novo movimento no país, naqueles tempos. Embora ele se julgasse um artista realista e sua paleta fosse semelhante à dos Impressionistas, a sua relação com o movimento tinha reservas que eram declaradamente públicas por ele, a ponto de alertar ao casal Bernstein, “acerca das pinturas francesas que eles penduravam em suas paredes”.

PHILIPP KLEIN - Hora do chá - Óleo sobre tela - 53,5 x 44,5 - 1906

MAX SLEVOGT - Marietta di Rigardo - Óleo sobre tela - 230 x 180 - 1904

O Realismo e uma busca simplificada pela verdade foi o que, a princípio, sustentou o Impressionismo alemão. Isso tomaria conotações diferentes quando a adesão à pintura ao ar livre ganharia força e adeptos de diferentes partes do país. Identificada como a linguagem principal do Impressionismo, essa maneira de pintar, que muito valorizava a espontaneidade e liberdade de expressão, faria escolas importantes por todo lado, e até já havia sido praticada em tempos passados, por muitos outros nomes não menos famosos da arte alemã. Blechen e Morgenstern são lembrados sempre que se fala disso, assim como Hans Thoma.

GOTTHARDT KUEHL - Orfanato de Lübecker - Óleo sobre tela - 87 x 131 - 1894

GOTTHARDT KUEHL - Paris - Óleo sobre tela - 60 x 92 - 1880

Liebermann era o mais velho artista do movimento impressionista alemão. Assim como Leibl, tinha os pés fincados no Realismo, e a pintura ao ar livre praticada por eles era alicerçada por um treino acadêmico e criterioso. Talvez um dos maiores momentos para o Impressionismo alemão tenha sido a visita de Liebermann à Holanda, em 1871. Ele voltaria várias vezes ao país e fascinou por muita coisa que via por lá: a paisagem isenta de dramatismos, a liberdade técnica de Rembrandt e Hals e a contemporaneidade e cumplicidade com as obras de Mauve e Josef Israëls. É inegável que o tratamento que daria aos trabalhos subsequentes, teria a influência das visitas holandesas com a virtuosidade de Adolph von Menzel. Isso o projetaria para além das fronteiras alemãs, sendo reconhecido inclusive em território francês.

ROBERT STERL - Trabalhador em Wittenborn - Óleo sobre tela - 45 x 57,5 - 1901

FRANZ SKARBINA - Igreja boêmia na véspera de natal
Óleo sobre tela - 130 x 99 - 1903

Fritz von Uhde foi outro pintor que gozou de sucesso internacional. Fundamentalmente autodidata, seu Realismo lírico coloca-o como um respeitável nome entre os impressionistas alemães. Sua pintura pastosa e aparentemente sem unidade, é o que mais se assemelha à definição impressionista que conhecemos na arte alemã. A sua composição, no entanto, ainda não nos remete ao descompromisso e liberdade completa dos impressionistas franceses, com um enquadramento ainda muito estudado.

LOVIS CORINTH - Ao toilete - Óleo sobre tela - 120 x 90 - 1911

HEINRICH VON ZÜGEL - Carneiros num prado - Óleo sobre tela - 24,5 x 32

O mais famoso de todos os impressionistas alemães foi Lovis Corinth. Era um artista dedicado e estudante disciplinado, elogiado inclusive por Bouguereau, com quem estudou em Paris, na Académie Julian. Até que tentou ser um artista acadêmico, inscrevendo-se no salão. Mas, como teve os quadros recusados, retornou à Alemanha desapontado. A partir de 1901, fixou moradia em Berlim. Participou, com outros vanguardistas, do movimento denominado Secessão de Berlim, que haveria de mudar a concepção da arte germânica. Do impressionismo, Corinth iria evoluir para a corrente expressionista, época em que foi professor da pintora brasileira Anita Malfatti. Para os nazistas, a arte de Corinth era qualificada como decadente.

THOMAS HERBST - Menina camponesa
Óleo sobre tela - 94 x 58 - 1895

HANS THOMA - Na rede - Óleo sobre tela - 1876

Muitos outros nomes levaram o Impressionismo alemão a um respeitado patamar atual. Impossível não citar nomes como Wilhelm Trübner, Max Slevogt, Carl Schuch, Christian Rohlfs, Gotthardt Kuehl, Lesser Ury, Ulrich Hübner, Paul Klimsch, Ernst Oppler, Franz Skarbina, Robert Sterl, Heinrich von Zügel, Karl Hagemeister, Carlos Grethe, August von Brandis, Paul Baum, Philipp Klein e tantos outros. Quer seja pela audácia em retratar com liberdade e desenvoltura num momento difícil da história centro-europeia, quer seja pela dificuldade em se fazerem conhecidos perante o cenário mundial. Max Liebermann, Lovis Corinth e Max Slevogt são considerados o triunvirato do impressionismo alemão. Orientados para o estilo de vida francês e mediterrâneo, eles deram aos seus trabalhos internacionalidade e temperamento. Agradam público e críticos, em diversos aspectos.

CHRISTIAN ROHLFS - Casas ao sol - Óleo sobre tela - 41 x 42,5 - 1894

WILHELM LEIBL - Meninas costurando próximo ao fogão
Óleo sobre tela - 59 x 42 - Entre 1892 e 1895

Pode-se dizer que há itens de diferença importante entre o Impressionismo alemão e o Impressionismo de outros países: As condições de luz e tradições de pintura dão ao Impressionismo alemão um caráter diferente, caracterizado por cores mais suaves e uma precisão gráfica mais forte. Por exemplo, em vez de um céu ensolarado, preferem um nublado. As cores são subjugadas pela adição de tons cinza e marrom, uma cor brilhantemente colorida é proibida. Ao contrário do naturalismo, mas também do impressionismo francês, surgiu no Impressionismo alemão o sentimento subjetivo do pintor: "não a própria realidade, que se reflete na imagem, mas a pessoa que fez a pintura", observa Corinth em seu livro. Mas o que mais se observa de diferente entre a escola impressionista alemã e a francesa, principalmente, refere-se à escolha dos temas. Enquanto no Impressionismo francês, o campo e os prazeres da vida dão a ordem, no Impressionismo alemão nota-se comumente o uso de temas como pinturas narrativas e históricas.

HEINRICH VON ZÜGEL - Carro de boi - Óleo sobre tela - 40 x 60 - 1910

HEINRICH VON ZÜGEL - Descanso nas margens do Althrein
Óleo sobre tela - 71 x 110,5 - 1919

O Impressionismo alemão é visto hoje mais como uma arte de transição entre o Romantismo e os movimentos do século XX. Ele abriu caminho para o Expressionismo, este sim, uma marca forte da arte daquele país. Deixa também uma lição de como o tratamento com a arte precisa e deve ser imparcial, para que essa possa ser assimilada em sua completude. Os limites fronteiriços e as desavenças histórico-políticas não casam bem com a universalidade da linguagem artística. Quando inflam os egos e a arte deixa de ser o leme principal, perdem os artistas e perdemos todos nós.

4 comentários:

  1. Impressionismo surgiu na pintura do século XIX e até hoje encanta... teve muitos precursores em todos os cantos do mundo !!!!
    Abração meu amigo... tá difícil comentar hein rsssss!!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Às vezes é assim mesmo.
      Obrigado mais uma vez, meu amigo.
      Grande abraço!

      Excluir
  2. Mais um tópico imprescindível.
    Obrigado José.
    Abraços.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O Impressionismo é super fascinante, em qualquer país onde tenha atingido.
      Voltaremos ao tema mais adiante.
      Grande abraço e obrigado por vir, Macário!

      Excluir