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domingo, 4 de março de 2018

IMPRESSIONISMO NA ALEMANHA


FRANZ SKARBINA - Jardim em Karlsbad - Óleo sobre tela - 97 x 146 - Entre 1899 e 1890

MAX LIEBERMANN - Feira de papagaios
Óleo sobre tela - 88,1 x 72,5 - 1902

A história da Arte tem uma série de injustiças inaceitáveis e uma delas diz respeito ao tratamento excludente ou quase discriminatório dado ao impressionismo alemão. Isso já melhorou bastante nas últimas décadas, mas até a metade do século passado, os “impressionistas alemães” passavam quase despercebidos. Há várias razões históricas que fazem entender isso, quando se olha à luz dos bastidores do cenário artístico. E não se pode tomar partido, sem antes conhecer a verdadeira gênese dessa “injustiça”. O prolongamento do estado de inimizade entre alemães e franceses, que seguiu à Guerra Franco-Prussiana, certamente teve um peso muito grande nessa exclusão. Raros eram os artistas alemães, em solo francês, que não negavam suas origens, com receio de hostilidade local. Da mesma forma que qualquer artista alemão que se posicionasse simpático ao Impressionismo francês, em seu país, era no mínimo imprudente.

KARL HAGEMEISTER - Verão em März
Óleo sobre tela - 210 x 120 - 1895

ULRICH HÜBNER - Lübeck - Óleo sobre tela - 100 x 140 - 1912

Paris passou a substituir Roma como local de peregrinação artística desde a década de 1850. As academias e escolas de arte, bem como os competitivos salões realizados ali, consolidavam a capital francesa como a referência do que havia de melhor no mundo artístico daqueles tempos. E se havia um lugar que lançava moda, em todos os setores, ali parecia o ideal deles. Como o Impressionismo foi lançado e consolidado como sucesso em solo francês, é justo e aceitável que Paris e os artistas franceses tivessem se tornado uma referência padrão para todos os pretensos artistas impressionistas de qualquer outra nacionalidade. Assim, americanos, ingleses, italianos, russos, australianos, todos que se despontaram como ótimos artistas com características impressionistas, ainda que não tivessem aderido diretamente ao movimento, tinham os franceses como referência. As questões histórico-políticas entre alemães e franceses deixaram os primeiros como artistas marginais desse importante movimento, que viria revolucionar todo o mundo.

FRITZ VON UHDE - Viagem para Belém - Óleo sobre tela - 117 x 126 - 1890

CARLOS GRETHE - Esperando a embarcação
Óleo sobre tela -170,5 x 116 - 1900

Se no próprio país de origem, o Impressionismo teve que esperar até a década final do século XIX para ser reconhecido, imagine num país em que falar sobre algo que enaltecia e reconhecia o inimigo como precursor e inovador?! As desavenças passadas fizeram com que, inicialmente, o Impressionismo na Alemanha não tivesse o êxito que merecia. Felizmente, há colecionadores visionários, que sempre incentivaram e promoveram a arte, em toda sua história. E sempre foram pessoas que não possuíam fronteiras. Valorizavam e promoviam aquilo que era necessário e promissor.

CARL SCHUCH - Rio com uma ponte em ruínas - Óleo sobre tela - 22,9 x 32,7 - 1870

PAUL BAUM - Paisagem em Kleinem Wiesenbach - Óleo sobre tela - 36,5 x 45 - 1900

Nascido na Rússia, Carl Bernstein foi um dos primeiros e grandes incentivadores do movimento Impressionista na Alemanha. Juntamente com sua esposa, Felicie, dedicavam as noites de quarta para uma espécie de encontro cultural, onde promoviam os artistas evidentes e convidavam figuras da sociedade para falar e admirar sobre arte. Daquele tipo de milionário que soube como empregar os bens materiais na promoção cultural e evolução da cidade que escolheu viver. O primeiro contato do grande público alemão com o Impressionismo se deu em 1883, quando a Galeria Gurlitt expôs as coleções de Carl e Felicie Bernstein em Berlim. Eram 10 obras de propriedade do casal e mais 23 emprestadas pelo marchand parisiense Paul Durand-Ruel. Com a mesma hostilidade que também foram recebidos os primeiros trabalhos impressionistas na França, em Berlim também não foi diferente. Público e críticos classificaram os trabalhos como esboços mal acabados e com pouca habilidade técnica. Max Liebermann, amigo do casal Bernstein, foi o primeiro artista alemão a reconhecer a grandiosidade do novo estilo e inclusive a adquirir trabalhos de artistas franceses. Foi ele também um dos grandes alemães dentro do movimento naquele país. Mas, até mesmo entre os artistas alemães, simpatizantes com o Impressionismo francês, pulsava uma inveja contida e uma aversão natural ao que vinha de lá.

MAX LIEBERMANN - Vinck Restaurante, Leiden - Óleo sobre tela - 72 x 88 - 1905

LOVIS CORINTH - Nu reclinado - Óleo sobre tela - 75 x 120 - 1899

Quando, nos primeiros anos de 1900, Gauguin e Denis expuseram em Berlim, embora o Impressionismo ainda não estivesse muito bem estabelecido no país, já foram aceitos com mais familiaridade. Houve quem dissesse que seus trabalhos tinham semelhança com a arte moderna alemã. Bastou isso para que a velha rivalidade entre os dois países viesse à tona. Mesmo os artistas alemães, simpatizantes aos artistas franceses, não queriam que suas obras fossem comparadas às dos vizinhos. Houve um intenso esforço, por parte de artistas alemães, com o orgulho ferido, para diferir estilisticamente o “Impressionismo alemão” do francês. O próprio Liebermann deixou uma célebre frase: “Toda essa história da divisão das cores é um disparate. Constato uma vez mais que a natureza é simples e cinzenta”. Uma oposição declarada à filosofia do Impressionismo francês, que afirmava exatamente o contrário.

ADOLPH VON MENZEL - Meissonier no ateliê em Pissy
Óleo sobre painel - 22,3 x 29,9 - 1869

ADOLPH VON MENZEL - Metalúrgicos - Óleo sobre tela - 158 x 254 - 1875

É inegável a influência e contribuição de Adolph von Menzel para o que seria o Impressionismo alemão no futuro. Sua pincelada livre e virtuosa e um desdém pela minúcia de desenhador, fizeram dele o precursor de um novo movimento no país, naqueles tempos. Embora ele se julgasse um artista realista e sua paleta fosse semelhante à dos Impressionistas, a sua relação com o movimento tinha reservas que eram declaradamente públicas por ele, a ponto de alertar ao casal Bernstein, “acerca das pinturas francesas que eles penduravam em suas paredes”.

PHILIPP KLEIN - Hora do chá - Óleo sobre tela - 53,5 x 44,5 - 1906

MAX SLEVOGT - Marietta di Rigardo - Óleo sobre tela - 230 x 180 - 1904

O Realismo e uma busca simplificada pela verdade foi o que, a princípio, sustentou o Impressionismo alemão. Isso tomaria conotações diferentes quando a adesão à pintura ao ar livre ganharia força e adeptos de diferentes partes do país. Identificada como a linguagem principal do Impressionismo, essa maneira de pintar, que muito valorizava a espontaneidade e liberdade de expressão, faria escolas importantes por todo lado, e até já havia sido praticada em tempos passados, por muitos outros nomes não menos famosos da arte alemã. Blechen e Morgenstern são lembrados sempre que se fala disso, assim como Hans Thoma.

GOTTHARDT KUEHL - Orfanato de Lübecker - Óleo sobre tela - 87 x 131 - 1894

GOTTHARDT KUEHL - Paris - Óleo sobre tela - 60 x 92 - 1880

Liebermann era o mais velho artista do movimento impressionista alemão. Assim como Leibl, tinha os pés fincados no Realismo, e a pintura ao ar livre praticada por eles era alicerçada por um treino acadêmico e criterioso. Talvez um dos maiores momentos para o Impressionismo alemão tenha sido a visita de Liebermann à Holanda, em 1871. Ele voltaria várias vezes ao país e fascinou por muita coisa que via por lá: a paisagem isenta de dramatismos, a liberdade técnica de Rembrandt e Hals e a contemporaneidade e cumplicidade com as obras de Mauve e Josef Israëls. É inegável que o tratamento que daria aos trabalhos subsequentes, teria a influência das visitas holandesas com a virtuosidade de Adolph von Menzel. Isso o projetaria para além das fronteiras alemãs, sendo reconhecido inclusive em território francês.

ROBERT STERL - Trabalhador em Wittenborn - Óleo sobre tela - 45 x 57,5 - 1901

FRANZ SKARBINA - Igreja boêmia na véspera de natal
Óleo sobre tela - 130 x 99 - 1903

Fritz von Uhde foi outro pintor que gozou de sucesso internacional. Fundamentalmente autodidata, seu Realismo lírico coloca-o como um respeitável nome entre os impressionistas alemães. Sua pintura pastosa e aparentemente sem unidade, é o que mais se assemelha à definição impressionista que conhecemos na arte alemã. A sua composição, no entanto, ainda não nos remete ao descompromisso e liberdade completa dos impressionistas franceses, com um enquadramento ainda muito estudado.

LOVIS CORINTH - Ao toilete - Óleo sobre tela - 120 x 90 - 1911

HEINRICH VON ZÜGEL - Carneiros num prado - Óleo sobre tela - 24,5 x 32

O mais famoso de todos os impressionistas alemães foi Lovis Corinth. Era um artista dedicado e estudante disciplinado, elogiado inclusive por Bouguereau, com quem estudou em Paris, na Académie Julian. Até que tentou ser um artista acadêmico, inscrevendo-se no salão. Mas, como teve os quadros recusados, retornou à Alemanha desapontado. A partir de 1901, fixou moradia em Berlim. Participou, com outros vanguardistas, do movimento denominado Secessão de Berlim, que haveria de mudar a concepção da arte germânica. Do impressionismo, Corinth iria evoluir para a corrente expressionista, época em que foi professor da pintora brasileira Anita Malfatti. Para os nazistas, a arte de Corinth era qualificada como decadente.

THOMAS HERBST - Menina camponesa
Óleo sobre tela - 94 x 58 - 1895

HANS THOMA - Na rede - Óleo sobre tela - 1876

Muitos outros nomes levaram o Impressionismo alemão a um respeitado patamar atual. Impossível não citar nomes como Wilhelm Trübner, Max Slevogt, Carl Schuch, Christian Rohlfs, Gotthardt Kuehl, Lesser Ury, Ulrich Hübner, Paul Klimsch, Ernst Oppler, Franz Skarbina, Robert Sterl, Heinrich von Zügel, Karl Hagemeister, Carlos Grethe, August von Brandis, Paul Baum, Philipp Klein e tantos outros. Quer seja pela audácia em retratar com liberdade e desenvoltura num momento difícil da história centro-europeia, quer seja pela dificuldade em se fazerem conhecidos perante o cenário mundial. Max Liebermann, Lovis Corinth e Max Slevogt são considerados o triunvirato do impressionismo alemão. Orientados para o estilo de vida francês e mediterrâneo, eles deram aos seus trabalhos internacionalidade e temperamento. Agradam público e críticos, em diversos aspectos.

CHRISTIAN ROHLFS - Casas ao sol - Óleo sobre tela - 41 x 42,5 - 1894

WILHELM LEIBL - Meninas costurando próximo ao fogão
Óleo sobre tela - 59 x 42 - Entre 1892 e 1895

Pode-se dizer que há itens de diferença importante entre o Impressionismo alemão e o Impressionismo de outros países: As condições de luz e tradições de pintura dão ao Impressionismo alemão um caráter diferente, caracterizado por cores mais suaves e uma precisão gráfica mais forte. Por exemplo, em vez de um céu ensolarado, preferem um nublado. As cores são subjugadas pela adição de tons cinza e marrom, uma cor brilhantemente colorida é proibida. Ao contrário do naturalismo, mas também do impressionismo francês, surgiu no Impressionismo alemão o sentimento subjetivo do pintor: "não a própria realidade, que se reflete na imagem, mas a pessoa que fez a pintura", observa Corinth em seu livro. Mas o que mais se observa de diferente entre a escola impressionista alemã e a francesa, principalmente, refere-se à escolha dos temas. Enquanto no Impressionismo francês, o campo e os prazeres da vida dão a ordem, no Impressionismo alemão nota-se comumente o uso de temas como pinturas narrativas e históricas.

HEINRICH VON ZÜGEL - Carro de boi - Óleo sobre tela - 40 x 60 - 1910

HEINRICH VON ZÜGEL - Descanso nas margens do Althrein
Óleo sobre tela - 71 x 110,5 - 1919

O Impressionismo alemão é visto hoje mais como uma arte de transição entre o Romantismo e os movimentos do século XX. Ele abriu caminho para o Expressionismo, este sim, uma marca forte da arte daquele país. Deixa também uma lição de como o tratamento com a arte precisa e deve ser imparcial, para que essa possa ser assimilada em sua completude. Os limites fronteiriços e as desavenças histórico-políticas não casam bem com a universalidade da linguagem artística. Quando inflam os egos e a arte deixa de ser o leme principal, perdem os artistas e perdemos todos nós.

quinta-feira, 6 de março de 2014

JOHN SINGER SARGENT

JOHN SINGER SARGENT - Autorretrato
Óleo sobre tela - 30,5 x 25,4 - 1886
Aberdeen Art Gallery and Museum, Escócia

Certos artistas não deveriam ter mesmo uma pátria mãe, tal suas condições de cidadãos do mundo. Ironicamente, parece ter sido assim a trajetória de John Singer Sargent, o mais célebre retratista de sua geração e um dos maiores nomes da pintura do final do século XIX e início do século XX. Filho de pais americanos, nasceu em Florença, na Itália, em 1856, mas definitivamente nunca teria um endereço específico. Essa vida nômade, já desde os primeiros anos, trouxe para ele e suas duas irmãs uma infância nada convencional. Emocionalmente independentes, pois não criavam raízes por onde passavam, também acabaram tendo um ensino informal. Sargent, por exemplo, recebeu ensino básico de várias nacionalidades, por isso falava fluentemente italiano, francês e um pouco de alemão. Além de pianista e músico devotado, tinha um conhecimento abrangente da cultura europeia em geral. Simples, educado e muito simpático, ele tinha um convívio fácil. Contudo, era sempre muito reservado. Ficaria assim por toda sua vida.

JOHN SINGER SARGENT - Duas taças de vinho
Óleo sobre tela - 45,7 x 36,8 - 1874

JOHN SINGER SARGENT - Bordadeiras venezianas
Óleo sobre tela - 55,8 x 78,7 - 1882
Galeria Nacional da Irlanda, Dublin

O gosto pelas artes foi despertado bem cedo pela própria mãe, que era uma aquarelista de horas vagas. Era ela quem incentivava o filho nos exercícios por onde passavam, seja reproduzindo obras de alguns grandes mestres ou registrando tudo aquilo de interessante que viam. Pelo gosto do pai, ele seguiria a carreira naval, mas, logo ficou claro que a inclinação artística falaria mais alto. Em Paris, num novo endereço, coisa que para ele já era rotina, matricula-se no ateliê de ninguém menos que Carolus-Duran, renomado professor e retratista da época, que incentivava muito o estudo com modelo vivo. Esse ensino tradicional deu muita disciplina ao seu aprendizado, fazendo dele um artista consciencioso e seguro daquilo que queria. Mas, Paris se agitava com novas ideias naqueles tempos e Sargent não resistiu a elas. Nessas novas ideias, o Impressionismo lhe acenava como uma bandeira impossível de não seguir. Tornou-se assim, um grande artista simpatizante a esse movimento. Quer pintasse com óleo ou aquarela, tinha pinceladas sempre fluidas e com muita precisão, típicas dos melhores impressionistas da época. Porém, Sargent nunca levaria o Impressionismo até as suas últimas consequências. Conseguiria impor, a partir dali, uma maneira única de pintar, que aliava os ensinamentos tradicionais com a liberdade impressionista.


JOHN SINGER SARGENT - Pequena refeição na varanda
Óleo sobre tela - 51,5 x 71 - Freer Gallery of Art, Washington

JOHN SINGER SARGENT - Catadoras de ostras em Cancale
Óleo sobre tela - 1878

JOHN SINGER SARGENT - Veneziana carregando água
Óleo sobre tela - 64,4 x 70,9 - 1882
Museu de Arte de Worcester, Massachusetts

Em 1876, Sargent visita os Estados Unidos pela primeira vez, juntamente com a mãe e uma das irmãs. A cidadania americana, que lhe era de direito, parece ter exercido um grande fascínio pelo artista, pois se apega facilmente a vida e aos costumes americanos. No verão desse mesmo ano já estaria novamente de volta a Europa, onde reuniria com colegas na Bretanha, para exercícios ao ar livre. Fez vários apontamentos por lá, que originariam na mais importante obra do seu início de carreira: Catadoras de ostras em Cancale. Essa obra lhe renderia uma menção honrosa no Salão de Paris de 1878 e também já denunciava sua veia impressionista, com pinceladas bem espontâneas e com colorido típico daquele movimento.

JOHN SINGER SARGENT - Retrato de Carolous-Duran
Óleo sobre tela - 116,8 x 95,8 - 1879

JOHN SINGER SARGENT - Sra. Henry White
Óleo sobre tela - 221 x 139,7 - 1883
Corcoran Gallery of Art, Washington

Não era apenas um aprendiz do ateliê de Duran, naquela altura já o ajudava na execução de trabalhos importantes. Um retrato de seu mestre, realizado naquele ano, traria uma nova menção honrosa no Salão de Paris de 1879. Isso seria o pontapé inicial para uma nova carreira promissora, a de retratista. O retrato da Sra. Henry White, esposa do primeiro-secretário da Embaixada dos Estados Unidos só faria confirmar essa sua nova fama. Um trabalho altamente cativante, que com certeza deve ter rendido muitas outras encomendas. Foi por volta de 1880, que estreitou amizade com Monet, comprando dele quatro quadros e realizando três retratos com ele.

JOHN SINGER SARGENT - Claude Monet pintando em uma floresta
Óleo sobre tela - 54 x 64,8 - 1885 - Tate Gallery, Londres

JOHN SINGER SARGENT - Madame X, ou Madame Pierre Gautreau
Óleo sobre tela - 208,6 x 109,9 - 1884
Museu Metropolitano de Nova York

Em 1884, já instalado num elegante estúdio no Boulevard Berthier, Sargent deseja inovar em seu trabalho. Fascinado pela beleza de Madame Gautreau, uma americana que se casara com um banqueiro parisiense, consegue convence-la para posar como modelo de um quadro que pretendia experimentar. Colocou-a em uma pose ousada, que muitos julgaram arrogante. Mas, foi o decote do vestido que a modelo usava, criticado como provocante demais para os padrões de retratos da época, que trouxe sérias consequências para suas experiências. A mãe da modelo chegou a exigir que o quadro da filha fosse retirado da exposição, fato não permitido pelo artista. No entanto, aquilo arranhou um pouco o início de sua carreira como retratista em Paris, o que fez com que Sargent se radicasse em Londres em 1885, após uma série de viagens que já realizara por lá meses antes.

JOHN SINGER SARGENT - Adega veneziana
Óleo sobre tela - 53,3 x 69,8 - 1898 - Coleção particular

JOHN SINGER SARGENT - A saída dos barcos
Óleo sobre tela - 1889 - Museum of Art, Rhode Island

JOHN SINGER SARGENT - Lady Agnew de Lochnaw
Óleo sobre tela - 124,5 x 99,7 - 1892 - Galeria Nacional de Edimburgo

Londres era agora seu mais novo endereço. Já estava acostumado com essa vida itinerante e isso com certeza iria trazer novos ânimos ao trabalho. Em 1886, viaja para os Estados Unidos onde, a convite do colecionador Henry Marquand, realizaria um retrato de sua esposa. Não só foi recebido de braços abertos como obteve um enorme êxito numa exposição individual em Boston. Os convites para retratos lhe chegavam aos montes e já havia até uma sondagem sobre o projeto dos murais da Biblioteca Pública de Boston. A última década do século XIX traria muita fama e prestígio para Sargent, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra. O retrato de Lady Agnew, executado nesse período, foi saudado como uma obra-prima do artista, consolidando ainda mais sua reputação.

JOHN SINGER SARGENT - Campos do país
Óleo sobre tela - 1885 - Instituto de Artes de Detroit

JOHN SINGER SARGENT - Grupo com sombrinhas
Óleo sobre tela - 1905 - Coleção particular

JOHN SINGER SARGENT - Um córrego na montanha
Aquarela sobre papel - 34,2 x 71,7 - 1907
Museu Metropolitano de Nova York

Requisitado pela mais alta aristocracia, que fazia filas para obter um retrato com o artista, Sargent chegou a ser chamado por Rodin de o Van Dyck dos tempos modernos. Era, nesse período, um artista de situação financeira estável, mas já estava se cansando dos intermináveis retratos que tanto lhe fizeram conhecer o apogeu. Por volta de 1907 se dava ao luxo de recusar quase todas as encomendas. Queria passear mais, explorar novos motivos e novos temas. Assim fez, passando praticamente 3 ou 4 meses em viagens a cada ano, seja nos Alpes, descendo até a Itália, ou mesmo na Espanha. Também viajou ao norte da África e se sentia encantado com o exotismo das culturas diferentes que encontrara por lá. Desde a morte de sua mãe, em 1905, seu gênio se tornou ainda mais introspectivo. Nunca iria se casar, apesar dos rumores de romances com várias modelos e outras amizades.

JOHN SINGER SARGENT - Cashmere
Óleo sobre tela - 71,1 x 109,2 - 1908 - Coleção particular

JOHN SINGER SARGENT - Reconhecendo
Óleo sobre tela - 55,8 x 71,1 - 1911  Palácio Pitti, Florença

JOHN SINGER SARGENT - Envenenados
Óleo sobre painel - 230 x 610 - Museu Imperial da Guerra, Londres

A Primeira Guerra Mundial lhe traria a incumbência de se tornar artista oficial na França, onde fez apontamentos e documentou tudo que via por onde passava. Fez isso com imparcialidade, como um repórter que registra horrores nas batalhas. Descreveu como ninguém, os grupos de feridos e mortos amontoados na lama. Um grupo de soldados feridos por gás mostarda, cuja tela deu o nome de "Envenenados", é uma de suas obras mais significativas desse momento de sua produção. Desde 1890 até 1921, ficou envolvido nos murais para a Biblioteca Pública de Boston, serviço que lhe levou a exaustão, intercalando viagens para fugir da rotina. Ao término da obra, afirmou que “já poderia morrer quando quisesse”. Talvez pelo cansaço com a longa duração da execução dos painéis, o resultado não agradou ao público tanto quanto ele esperava, mas ele sentia com a sensação de dever cumprido.
Em 1925, um dia após um jantar feliz e descontraído organizado pela irmã, Sargent foi encontrado morto em sua cama, vítima de um ataque cardíaco. Tinha 69 anos. Deixou um legado inestimável nas mais de 900 obras que produziu em óleo e mais de 2000 trabalhos em aquarela, além de inúmeros desenhos e esboços. Ainda é uma das mais respeitadas referências no quesito figura humana e um dos grandes artistas que o mundo já teve.

sábado, 11 de janeiro de 2014

WASHINGTON MAGUETAS

WASHINGTON MAGUETAS - A poesia, meu jardim e o mar - Mista sobre tela - 60 x 97

WASHINGTON MAGUETAS - Figuras à beira de rio
Óleo sobre tela

Estava devendo uma matéria sobre o Maguetas, desde a visita que eu o havia feito; no final do ano passado; quando por ocasião de uma rápida passagem pelo interior de São Paulo. Bom anfitrião como poucos, ele nos recebeu (Zaniboni, Ernandes, Mateus e eu) com uma cordialidade pouco comum nos tempos atuais e já nos foi logo convidando para conversar no local que mais gosta em sua casa: o jardim que ele próprio construiu nos fundos da residência. É ali que compôs uma grande parte de suas obras e o local onde se sente realmente à vontade.

WASHINGTON MAGUETAS - No jardim
Óleo sobre tela

WASHINGTON MAGUETAS - Na praia - Mista sobre tela

WASHINGTON MAGUETAS - A família e o cãozinho
Óleo sobre tela - 12 x 30

Todos que por ali visitam, ouvem dele o prazer em ter pendurado cada orquídea e plantado cada flor e árvore ali presentes. Obrigatória é uma passagem pela ponte em estilo japonês, que já esteve em cenários de várias obras. É um local realmente agradável, que o inspira e que acabou se tornando seu mundo particular. Ali ele recebe seus clientes, amigos, crianças que vem para pesquisas escolares e é ali também que está localizado seu ateliê.

WASHINGTON MAGUETAS - Carina e os mandarins - Óleo sobre tela - 45 x 70 - 2013

WASHINGTON MAGUETAS - Gisele na ponte do meu jardim
Óleo sobre tela - 80 x 110

Entre uma prosa no jardim e a apresentação dos últimos trabalhos em andamento, Maguetas foi contando sua trajetória, narrando os passos de cada parte de sua carreira. Apresenta saudosista os catálogos de suas mostras, explica os detalhes das experiências que vem realizando atualmente e deixa parecer que revive um pouco de tudo que já construiu, nas lembranças que não fazem ausência.

WASHINGTON MAGUETAS - Na sala do pintor
Mista sobre tela

WASHINGTON MAGUETAS - Crisântemos brancos e frutas - Mista sobre tela - 75 x 190

WASHINTON MAGUETAS - Meu quarto de dormir
Mista sobre tela - 60 x 90

Washington Maguetas nasceu em Taguaritinga, estado de São Paulo, a 5 de julho de 1942, e oito anos depois já fez seus primeiros trabalhos em argila. Aos 15 anos, um jornal local já divulgava os feitos de um artista precoce, que estava apenas iniciando uma trajetória que deixaria várias boas lembranças e conquistas. Desde 1960 tornou-se professor de desenho e pintura, atividade que divide também com a produção de algumas esculturas e poesias, além de realizar aquilo que mais lhe satisfaz: pintar.

WASHINGTON MAGUETAS - A rede no jardim
Óleo sobre tela - 60 x 100

WASHINGTON MAGUETAS - Marinha com flamboyant - Mista sobre tela

É um artista que aprendeu apenas pela prática e observação e nunca mediu esforços para que esse aprendizado lhe conduzisse para os caminhos que sempre desejou. Descobriu bem cedo sua proposta: explorar o estilo impressionista, como se tivesse participado do movimento em sua época. A busca por uma paleta singular, que traduzisse um “Impressionismo Tropical”, levou a experimentar cada vez mais. Dessas experiências, consolidaram uma forte identidade que são traduzidas imediatamente pelas suas cores, pinceladas, composições e temas.

WASHINGTON MAGUETAS - Camile no bosque
Mista sobre tela - 70 x 110

WASHINGTON MAGUETAS - Ateliê ambulante
Óleo sobre tela

"Muitas vezes, quando pinto ao ar livre, me transporto para um mundo atemporal, e outras vezes acabo por realizar um trabalho de documentação histórica, pintando paisagens que hoje já não existem mais; algumas se alteraram devido as estações do ano; no entanto, outras simplesmente foram modificadas pelo avanço urbano." (Maguetas)

WASHINGTON MAGUETAS - Jacarandá e a serra
Óleo sobre tela - 65 x 90

WASHINGTON MAGUETAS
Manhã de neblina com ipê, Taguaritinga
Óleo sobre tela - 60 x 70

"Em meus quadros, retrato a magia inabalável da paz e o fascínio de tudo que é visualmente belo. Muitas vezes a pintura surge através de manchas, vou espalhando as cores na tela despreocupadamente até que alguma figura, cena cotidiana, ou paisagem apareçam com maior intensidade. Passo então a destacá-la e dar maior consistência àquela imagem. Surgem várias figuras, no entanto, prevalecem as que de uma certa maneira ficam como protagonistas de uma história. As minhas telas são resultado de variada combinação entre luz e sombra. Desses dois elementos surgem as matizes e, assim, a definição dos cenários e seus personagens. Vejo nos personagens que passeiam nos bosques, à beira dos lagos, todo o romantismo de uma época que consagrou os pintores impressionistas clássicos como Monet e Renoir, com os quais me identifico." (Maguetas)

WASHINGTON MAGUETAS - Lilian no meu jardim imaginário - 60 x 120

Um grave transtorno com a saúde; na última década; não o impediu de continuar fazendo aquilo que se tornou a sua vida. Pelo contrário, percebe-se que é exatamente a arte que lhe impulsiona a enfrentar o que para muitos seria um grande entrave. Experimentos atuais não o distanciaram de sua proposta. Apenas lhe permitem expressar sua arte com outras ferramentas.

WASHINGTON MAGUETAS - Flores vermelhas na janela - Mista sobre tela - 75 x 110

WASHINGTON MAGUETAS - Janela com rosas amarelas
Mista sobre tela - 60 x 115


Com essas intenções, Maguetas vai compondo paisagens, cenas de interiores, retratos e naturezas mortas que se tornaram a marca registrada de toda sua trajetória. Pincelada precisa, cores agradáveis e composições bucólicas. Há uma busca intencional pelo ideal inatingível, fazendo com que suas composições sejam atemporais. Pinta essa época, mas permite que outras épocas também visitem o presente. A arte tem esse dom, ser e estar quando e onde se desejar.


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