sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A ARTE DOS SENTIDOS

SIR LAWRENCE ALMA TADEMA - Rivais inconscientes
Óleo sobre tela - 45,1 x 62,8 - Coleção privada
Sinta quantas possibilidades sensoriais despertadas
nessa obra de Tadema: a pele das modelos,
a rigidez da escultura, o perfume das flores,
o ambiente fresco em contraste com o clima quente de fora.

São os sentidos que nos permitem perceber o mundo tal qual o percebemos. É inconcebível que façamos a percepção de qualquer coisa, senão pela visão, audição, olfato, paladar e tato. Seríamos um ser completamente inerte se não existissem tais sentidos. Todos os dados registrados em nosso sistema encefálico são alimentados por esses sentidos e compõe todos os nossos parâmetros acerca daquilo que nos rodeia.
Para as Artes, de uma maneira geral, são os sentidos que definem tudo. E se a Arte é sempre uma busca constante pela afirmação do belo, não é grosseiro constatar que tal afirmação se faça mais pelos sentimentos e sentidos, do que pela lógica e pela razão. Há até uma célebre frase que não nos deixa esquecer: “A Arte é para sentir e não para pensar”. Daí se conclui, inclusive, que um leigo sensível saiba entender e fruir uma obra de arte com muito mais intensidade, que um crítico racionalista e insensível.
Mesmo analisando assim, a arte ainda não deve ser somente fruída pela emoção. Há certos perigos de se deixar levar somente por eles. Como quaisquer outros dados, os sentidos também geram arquivos em nossa memória. A maciez de uma pele, por exemplo, confirmada em alguma experiência passada pelo tato, nos faz deduzir que tudo que seja semelhante visualmente a uma pele macia, também possa nos dar tal sensação. Mas os nossos sentidos são enganados por alguns truques. Tocar uma estátua que esteja perfeitamente entalhada, e que reproduza visualmente uma grande semelhança com a pele, pode nos trazer certas decepções. Nada há de macio numa estátua de mármore, que nos lembre ou remeta à naturalidade de uma pele. A pele que a mente já “decorou” é quente, cheia de sensualidade; completamente aversa à superfície fria e rígida da estátua, que lembra algo inanimado e morto. Este exemplo é apenas para ilustrar que não basta uma experiência sensorial arquivada, a razão e o pensamento também ajudam e influenciam na fruição de uma obra de arte. Não é de se estranhar que muitas obras de arte não possam ser tocadas em uma exposição, pois quebrariam o encantamento visual, realçado pela memória sensorial.
Mais um exemplo: Imagine-se em uma festa de casamento, diante de uma bela mesa composta com um bolo muito bem elaborado. Os olhos logo lhe dirão que se trata de algo delicioso, imediatamente o paladar já parece confirmar o prazer de saborear aquela bela visão. Ao tocar o bolo, porém, você está diante de uma réplica em plástico, dessas muito bem elaboradas. Há então uma grande decepção, a confirmação de que os sentidos o traíram. A emoção foi suplantada pela razão, que confirma um erro antes não percebido.

Georg Friedrich Haendel, numa escultura de
Helmut Schaar, na cidade de Halle.
Um dos mestres do barroco europeu, Haendel
produziu mais de 600 obras. Soube como ninguém
captar a poesia das notas musicais e transmiti-las.

Há uma certa hierarquia para os sentidos. A visão e a audição saem com muita vantagem em relação aos outros, por serem mais diretos, e por nos darem uma noção mais simples e objetiva para o pensamento e a razão. Uma torta muito saborosa pode ser negligenciada se sua aparência não nos atrair satisfatoriamente. O contrário também pode ocorrer, uma bela fruta pode ser recusada, se ao a aproximarmos da boca, percebermos algum cheiro estranho e duvidoso. Talvez por isso, ver e ouvir sejam os caminhos mais fáceis e rápidos para admirar uma obra, assim como para perceber qualquer coisa. Não é à toa que as Artes Plásticas e a Música sejam lembradas mais rapidamente quando pensamos em Arte.
Quando um artista produz uma obra, está colocando ali uma síntese das sensações captadas por todos os seus sentidos. Ele, como um filtro, está nada mais que produzindo algo, que poderá provocar ou não, a curiosidade de outros sentidos. Todos aqueles que se dispõe a observar uma obra de arte, estão na tentativa da sintonia com todos os sentidos que a fizeram tomar forma. Se isso não acontecer, a obra não será assimilada na sua verdadeira completude.
Muitas tentativas foram feitas, durante o século XX, para se incorporar outros sentidos na percepção da obra de arte. Mesmo com a inclusão da tecnologia, cada vez mais presente em nossas vidas, ainda assim, pouco se avançou no sucesso de novos sentidos. Ver e ouvir ainda continuam a ser os caminhos mais sinceros e rápidos para perceber uma obra, ainda que não sejam os mais confiáveis.


Cegos em uma exposição especial para percepção tátil.

4 comentários:

  1. Muito bom. Parabéns. Gostei da obra e também do texto. Ainda não havia lido naquela direção. abraços, Emílio.

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  2. Olá Josino, obrigado por passar aqui.
    Grande abraço!

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  3. gostei , gostei muito e de uma forma ajudou , rs .

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