terça-feira, 24 de maio de 2011

ORIENTALISMO

LORD EDWIN WEEKS - A barcaça do Marajá de Benares
Óleo sobre tela - 52 x 76

Sempre houve uma certa “barreira” natural entre o ocidente e o oriente. Povos que nem são tão distantes assim uns dos outros, praticam culturas completamente diferentes e originais. Foi assim nos tempos primordiais, ainda é e acredito que sempre será, mesmo que a globalização alargue fronteiras e compartilhe novos costumes e tradições. Houve um tempo, porém, em que as duas culturas, tão antagônicas, conviveram numa espécie de troca de conhecimento.

HOLGER H. JERICHAU
Rua da Índia com vendedores de melancia
Óleo sobre tela - 42 x 68

WILLIAM J. WEBB - Uma rua em Jerusalém
Óleo sobre tela - 89 x 166 - Mathaf Gallery, Londres

Para os intercâmbios artísticos referidos nessa matéria, entende-se por Oriente, não apenas o extremo oriente propriamente dito, mas também o Oriente Médio, norte da África e Turquia. A relação com todas essas culturas era estritamente comercial, ou somente através de incursões militares. Mesmo o comércio, era feito por grupos restritos e não abrangiam grandes áreas.


GIOVANNI BATTISTA TIEPOLO - O encontro de Moisés
Óleo sobre tela - 202 x 342 - 1730
Galeria Nacional da Escócia, Edimburgo


MUITAS CENAS RELIGIOSAS, FINANCIADAS PELA IGREJA
CATÓLICA, JÁ PERMITIAM UMA LEVE ABERTURA
PARA TEMAS ORIENTAIS. TIEPOLO E VERONESE
FORAM GRANDES EXPLORADORES DE UMA TEMÁTICA
COM VESTUÁRIO COLORIDO E EXÓTICO. DELACROIX
SE CONCENTROU EM TEMAS MAIS LIGADOS À
GUERRAS E CONFLITOS, COM APELO BEM DRAMÁTICO,
MAS JÁ COM INFLUÊNCIAS BEM PERCEPTÍVEIS DA
CULTURA ORIENTALISTA.

EUGENE DELACROIX - O massacre de Quios
Óleo sobre tela - 417 x 354 - 1824
Museu do Louvre, Paris

Na Arte, os primeiros toques orientalistas já se notaram presentes em obras renascentistas e na imponência do rococó. Bellini, Veronese, Tiepolo e Rembrandt abriram as portas para o que seria uma rica troca de experiências. Os monarcas franceses também já ostentavam exageros na decoração e no vestir, inspirados das opulências que vinham de lá.

GUSTAVE BAURFEIND - Mercado de Jaffa
Óleo sobre tela

A data mais marcante desse começo de encontro e descobertas entre os dois mundos se deu em 1798, mais precisamente com a derrota dos turcos, no Egito, no que ficou denominada Batalha das Pirâmides. Napoleão, vencedor da batalha, não ficou por lá muito tempo, pois logo foi expulso pelos ingleses. Mas a breve estadia no país foi o suficiente para mudar e muito tudo que se sabia sobre o “oriente”.

ALOYSIUS O'KELLY - Um cafe narguilê, Cairo
 Aquarela - 57 x 46,5 - Mathaf Gallery

VICTOR HUGUET - Árabes fora do mosteiro
Óleo sobre tela - 137 x 112 - Coleção particular

O “cartão de visitas” lançado por Napoleão fez ocorrer, numa escala gigantesca, uma corrente cada vez mais crescente de ocidentais, ávidos pelas novidades das terras “proibidas”, ou pelo menos temidas. Tanta sede de novidades pelo oriente deu origem, já em 1809, à publicação francesa da primeira parcela de 24 volumes do que se designou “Descrições do Egito”. Até então eram os estudos mais elaborados que forneciam dados sobre topografia, arquitetura, monumentos, costumes, vida natural e dados diversos sobre as populações da região. Tamanha era a importância de tais documentos, que a arquitetura francesa sofreu uma influência radical depois disso. Basta apenas citar a inclusão de obeliscos nos monumentos públicos, idéia trazida das terras egípcias.

FABIO FABBI - Garotas do harém
Óleo sobre tela

Escritores também relatavam suas aventuras nas terras desconhecidas e os artistas desenhavam e pintavam tudo aquilo que viam. Estiveram no norte da África, Turquia, todo o Oriente Médio e alcançaram por fim, a Índia e outras regiões ainda mais orientais. Todo esse reboliço e alvoroço, somadas às enxurradas de informações que chegavam à Europa, deram origem ao que ficou caracterizado como Arte Orientalista ou Orientalismo, um movimento que engloba todos os assuntos relacionados ao descobrimento e divulgação da cultura oriental naquele período.

GIULIO ROSATI - Dança do harém
Óleo sobre tela

ALFRED HENRI DARJOU - Dançarina 
Óleo sobre tela

Esse movimento se espalhou por quase um século e envolveu os mais diversos artistas das mais diversas áreas. Muitos deles, inclusive, nomes já consagrados no cenário artístico de seus países de origem. Muitas pinturas produzidas nesse período possuem detalhes tão minuciosos que beiram ao realismo fotográfico.

RUDOLF HELLGREWE - Caravana
Óleo sobre tela - 100 x 80

GUSTAVO SIMONI - Fora do palácio
Óleo sobre tela - 119 x 80 - 1903
Mathaf Gallery, Londres

Financiados pelos monarcas de seus países de origem, os primeiros artistas que por lá passaram, deram ênfase em cenas de guerra, caçadas de animais e toda espécie de representação que fazia parecer que o oriente era uma terra temível. Mas, o século XIX ainda guardava muitas surpresas. Com os movimentos libertários da arte por todas as regiões da Europa; com ênfase para o Naturalismo e Realismo, até o surgimento do Impressionismo; as temáticas do oriente pareciam cair como uma oportunidade de fuga da temática defendida pelos grandes salões. Um novo tema era tudo que a Arte precisava naquele momento para se reciclar. A prática da pintura ao ar livre, lançada pelos pioneiros de Barbizon também teve adeptos pelos artistas orientalistas.

MICHAEL GORSTKIN WYWIORSKI - Mercadores
Óleo sobre tela - 65 x 80

ERICH KIPS - Shangai
Guache - 34,7 x 49,7

A idéia de se aventurar por terras estranhas custou caro para muitos desses artistas. Suportaram as mais diversas dificuldades e correram riscos incríveis, na busca cada vez mais descontrolada de divulgar as novidades que buscavam. Aliadas a isso, ainda havia sérias doenças encontradas pelo caminho, até então desconhecidas pelos artistas ocidentais. Confrontos com saqueadores, bandidos dos desertos e racionamento até do que comer e beber. Ao mesmo tempo que eram recebidos com a maior hostilidade, também lhes eram servidas honrarias e as mais calorosas simpatias. Desse contato surgiram amizades duradouras entre vários povos. Foi nesse período que muitas nações européias estreitaram seus laços de amizade com muitas outras nações daquela região.

FILIPPO BARTOLINI
Comerciantes de rua no Cairo
Aquarela - 76 x 57 - Mathaf Gallery

HERMANN DAVID SALOMON CORRODI
Ruela egípcia
Óleo sobre tela - 103 x 66 Christie's Images, Londres

Todos os países mais influentes no cenário artístico daquela época enviaram seus artistas: Alemanha, Bélgica, França, Inglaterra, Itália, Rússia, Espanha, Estados Unidos e Austrália. Eram especialistas nas mais diversas modalidades, que iam desde a pintura de paisagem, temas de Arqueologia ou mesmo relacionamento social. Alguns buscavam os locais de manifestação dos fatos bíblicos e religiosos, ou se concentravam nas estratégias militares. Também foram expedições científicas que registravam a flora e a fauna por onde passavam.

ROBERTO RAIMONDI - O mercador
Aquarela - 50 x 72,5 - Mathaf Gallery, Londres

GIUSEPPE SIGNORINI - Cena do mercado em Cairo
Óleo sobre tela - 58,4 x 86,4 - Mathaf Gallery, Londres


Aos poucos, o conceito errôneo de que o oriente era a rota para o perigo foi se desfazendo. A narrativa quase poética que emanava das obras de todos os artistas que passaram por lá, foi acrescentando, mesmo que lentamente, a idéia de que o oriente também era uma terra onde seria possível viver em harmonia. Um lugar onde as tradições se mantinham firmes e os dias, já naquela época, tinham uma velocidade mais lenta no correr.


FERENCZ EISENHUT - Guerreiros
Óleo sobre tela - 71 x 54 - Coleção particular

ANTONIO MARIA FABRÉS Y COSTA
 Acendedor de lâmpadas
Óleo sobre painel - 78 x 63,5
Mathaf Gallery - Londres

Uma coisa é certa, a experiência por que passaram todos esses artistas, mudou radicalmente suas vidas. Muitos por lá morreram e os que sobreviveram ainda carregavam, com uma clareza cristalina, as imagens de tudo aquilo que havia ocorrido. Como repórteres de um tempo distante, sabemos hoje muitos costumes, tradições e dados físicos e comportamentais de uma civilização que mudou drasticamente. 


JOSE VILLEGAS Y CORDERO - Cena árabe
Óleo sobre tela

FRANZ ROUBAUD - Corredores orientais
Óleo sobre tela - 61 x 82

Como a Arte tem o poder de mudar a vida das pessoas que a criam, também tem o poder de mudar a vida de todos aqueles que comungam de suas criações. O que chegou até nossos tempos, é um legado que tempo nenhum apagará.

OLIVER DENNET GROVER - Cena de harém
 Óleo sobre tela - 195,6 x 167,6
Sheldon Swop Art Museum

4 comentários:

  1. José, estes seus artigos são inestimáveis para quem se interessa por pintura.
    Obrigado por estas informações que aumentam em muito nosso interesse pelas Belas Artes.
    Abraços.

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  2. Fico feliz que tenha acrescentado algo ao seu vasto repertório. Legal que tenha vindo pra uma visita. Abraço!

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  3. rosario, mais um belo post! como me disse há pouco o nosso edmundo,"você é terrível prá achar estas pérolas". faço minhas as palavras dele. e acrescento que se você fosse garimpeiro, estaria rico...

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  4. Nem sei como explicar, Paulo, parece que as coisas se convergem para os caminhos de boas intenções. Recebi alguns e-mails de amigos meus com ótimas indicações para matérias. Legal que tenha gostado. Abraço, amigo!

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