segunda-feira, 12 de maio de 2014

ATELIÊ: UM REFÚGIO SAGRADO

JOSEF EUGEN HÖRWATER - Interior de ateliê - Óleo sobre tela - 55 x 36

Para o artista que lida com o desenho e a pintura, em especial, o ateliê ou estúdio é uma extensão de seu próprio corpo. Mais que um espaço de trabalho, o ateliê é um refúgio para a criação, um local quase sagrado onde a sensibilidade se inspira em cada canto. Nos objetos em desordem, nas tintas impacientes por saírem dos tubos, nos pincéis exaustos de tanta rotina... O mundo de fora desaparece quando se está dentro do ateliê. Provavelmente seja um dos poucos lugares onde trabalho, prazer e agonia tenham o mesmo significado.

EDUARD CLARLEMONT - O estúdio do artista
Óleo sobre painel - 91 x 72

PASCAL-ADOLPHE-JEAN DAGNAN-BOUVERET
Gustave Courtois em seu estúdio
Óleo sobre tela - 48,3 x 63,5 - 1880

EDOUARD DAMMOUSE - Marie Braquemond ao cavalete
Pastel sobre papel - 54 x 45

O termo francês atelier acabou sendo o sinônimo mais conhecido desse espaço nobre para todo artista. Derivado do latim studium, que veio de studere, ou seja estudar. No inglês acabou ficando mesmo como studio. Podemos dizer, de modo geral, que estúdio é o espaço de trabalho para todos os artistas, de todos os ramos: pintura, arquitetura, cerâmica, escultura, madeira, fotografia, cinema, animação, produção de televisão, música, sala de dança... Como francês, atende ainda aos escritórios de moda, além de significar a casa de um alquimista ou feiticeiro.

AUGUSTE RAYNAUD - Momento com um novo modelo - Óleo sobre tela - 46,22 x 55,88

                           
Esquerda: AURÉLIO DE FIGUEIREDO - Interior
Óleo sobre tela - 127 x 68 - Coleção Agnaldo de Oliveira
Direita: PEDRO WINGÄRTNER - No atelier
Óleo sobre madeira - 54 x 38,3

Desde o século XV, quando o fazer artístico ganhou uma função mais pomposa, financiada pelos mecenas do Renascimento, o artista se viu quase que obrigado a criar um espaço especial para a sua produção. Afinal, os espaços comuns da casa já não serviam mais para ser o templo reservado da criação e inspiração. Assim nasceram os primeiros estúdios de pintura ou ateliês, local onde merecia estar aquele ser que parecia sublime. O artista começava a impor uma aura de respeito, quase um gênio, possuidor de uma loucura divina, que trazia o mundo do imaginário e da criação para o contato com os seres comuns. Fico imaginando o ateliê de ninguém menos que Leonardo da Vinci, que extrapolou todo o significado decifrável de artista, incorporando o pesquisador cientista, que dissecava cadáveres e projetava artefatos e construções, como ninguém em sua época e provavelmente como ninguém até hoje.

GIOVANNI BATTISTA QUADRONE - Hoje é um bom dia - Óleo sobre tela

             
Esquerda: JEAN-LOUIS-ERNST MEISSONIER - Connoisseur no estúdio do artista
Óleo sobre painel - 24,13 x 19,05 - 1859
Direita: CARLOS CAMBELLAND - Interior de ateliê
Óleo sobre tela - 102 x 65,2 - 1909 - Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Com o passar dos séculos, o estúdio de um artista de sucesso acabou abrangendo também todos os seus assistentes. Deste modo, ficaram famosas as “oficinas de arte”, que abrigavam o artista principal e toda sua leva de discípulos e seguidores. Exemplo mais que respeitável é o do alemão Paul Rubens, que além de ensinar aos iniciantes de sua época, mantinha com ele os mais habilidosos, que eram aqueles que faziam, por assim dizer, o trabalho pesado de suas encomendas. Muitos trabalhos de Rubens foram quase que totalmente executados por esses “ajudantes”.

POMPEO MASSANI - Admiração mútua
Óleo sobre tela

ARTURO RICCI - Divertindo no estúdio do artista
Óleo sobre tela - 106 x 79 - 1884

Os séculos XVIII e XIX trouxeram os artistas itinerantes, principalmente os europeus, que tomaram por hábito sair em viagens registrando novos motivos e conhecendo novos povos. Dessas viagens, traziam uma grande quantidade de novos adereços e objetos, de culturas completamente diferentes de seus cotidianos. Nascia naquele momento, aquele conceito de um ateliê de decoração carregada, exibindo os mais exóticos objetos particulares ao gosto de seu dono. Tornava-se praticamente impossível ver um único espaço de parede vazio em seu interior. Os ateliês inseriam uma espécie de minimuseus, abarrotados de porcelanas, pratarias, tapetes, estátuas e obviamente, trabalhos de artistas amigos ou que atraíam a atenção desses artistas colecionadores. Muitos artistas acadêmicos adotaram esse hábito e foram responsáveis por divulgar e preservar culturas nunca vistas no mundo ocidental, além de conservar artefatos históricos de sua própria cultura.

JOHANNES VERMEER - Alegoria da pintura - Óleo sobre tela - 120 x 100 - Cerca de 1666

ALMEIDA JÚNIOR - O descanso do Modelo
Óleo sobre tela - 98 x 131 - 1882 - Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

ALMEIDA JÚNIOR - O importuno
Óleo sobre tela - 145 x 97 - 1898
Pinacoteca do Estado de São Paulo

Com o passar dos anos tornou-se mais que natural representar em pinturas esses espaços sagrados. Principalmente no final do século XIX e início do século XX, quase todos os artistas deixaram uma representação de seu próprio espaço. Mesmo anterior a esse período, muitos foram os artistas que se eternizaram em obras que representaram os seus ateliês ou de artistas amigos. Johannes Vermeer, por exemplo, se autorretratou pintando Alegoria da Arte, num de seus trabalhos mais famosos e respeitados. Na pintura brasileira, impossível não citar os trabalhos mais notáveis com essa temática, executados por Almeida Júnior: Descanso do Modelo e O Importuno. O primeiro nos mostra um momento de intimidade entre um artista que repousa e uma jovem que o distrai. No segundo, uma jovem se esconde, evitando os olhares curiosos de alguém que interrompeu uma seção de pintura. São obras atemporais, todos nos identificamos com elas em alguma esfera.

JESSER VALZACCHI - Olhar Curioso - Óleo sobre tela - 120 x 130 - 2012

DAVID LEFFEL - 45th Street Studio - Óleo sobre tela - 1968

JEAN-LÉON GÉRÔME - Atelier de Tanagra - Óleo sobre tela - 64,4 x 91,1

Ficou no imaginário popular o conceito de que o ateliê de um artista seja um espaço o mais desorganizado possível, com tintas espalhadas pelas paredes e pelo chão, trabalhos inacabados se amontoando e com um clima soturno e quase gótico. Essa ideia meio romântica e ao mesmo tempo degradante tem cedido espaço a outros conceitos, principalmente quando se começou a perceber que o ambiente de um ateliê não é um ambiente de todo saudável. Solventes bastante voláteis e uma infinidade de produtos químicos já fizeram com que muitos artistas tivessem suas carreiras interrompidas e suas vidas dizimadas. Todos os materiais artísticos escondem substâncias altamente perigosas e manipulá-las em local inadequado deixa seu risco ainda maior. Por isso, já se pensa hoje em dia num ateliê como um espaço mais arejado, com menos entulhos e mais propenso a uma carreira artística saudável. Diversos artistas tem aderido a essa nova proposta e esse é certamente o caminho mais inteligente.

Ateliê Maurício Takiguthi, durante aula de anatomia.

Vinícius Silva, José Rosário e Juliana Limeira, no ateliê em Dionísio/MG.


Os ateliês continuam a encantar. Ainda é o templo da criação e onde o artista se sente completamente à vontade. Mesmo que saia para seções ao ar livre; uma prática altamente recomendável; ele retorna para a sua “toca” e deixa o mundo externo em descanso por alguns momentos. Ali, entre criações e experiências, vai se dando ao prazer dos acertos e à agonia dos objetivos que nunca alcança. Ainda assim, o ateliê continuará sendo a principal porta para que a arte chegue ao mundo.



10 comentários:

  1. Bom dia José.

    Mais um magnífico artigo. Assim fica mais fácil conhecer a boa pintura.

    Obrigado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom poder te tocar assim com a matéria.
      Obrigado por vir mais uma vez e grande abraço!

      Excluir
  2. Ainda ontem pensei em uma matéria com esse tema... fico muito agradecido!
    Tantas obras maravilhosas foram feitas com esta abordagem.
    O descanso do Modelo é uma obra belíssima...
    valeu meu Amigo!
    Abração, sucessos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É um tema que sempre pensei em escrever, também o acho um dos mais belos da história da arte. E vejo que muitos se identificam com isso também.
      Grande abraço, Vidal!

      Excluir
  3. Bela matéria e belas pinturas! Estes trabalhos que "abrem" o interior de ambientes inacessíveis para a maioria são motivos dos mais interessantes na pintura. Obrigado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também são a minha temática preferida, Thiago.
      Grande abraço!

      Excluir
  4. Oi boa tarde o senhor
    da curso de pintura

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, bom dia.
      Sim, dou aulas. Estou parado no momento, para o término de um grande trabalho.
      Estaremos voltando no segundo semestre.
      Grande abraço!

      Excluir
  5. Excelente como sempre, JR!. Aproveito para deixar aqui um tema para os próximos textos: a paleta dos artistas. A paleta é como a identidade do artista. Minto, uma paleta não diz apenas como pinta o artista, suas cores preferidas e tal, mas também diz muito sobre seu jeito de ser - organizado, caótico - entre outras coisas. Já aguardando o mesmo. Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É um ótimo tema, Beto.
      A pesquisa vai ser grande...
      Grande abraço!

      Excluir