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domingo, 1 de janeiro de 2012

A FIGURA HUMANA NA ARTE

CARAVAGGIO - Narciso
Óleo sobre tela - 122 x 92 - 1599
Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma

Essa obra do Caravaggio é mais que apropriada para iniciar essa matéria. Narciso é um personagem da Mitologia Grega, um rapaz com beleza sobrenatural, que apaixonava a todas as pessoas que o olhavam, por isso foi obrigado a viver isolado em uma ilha, para que ninguém corresse o risco de cair em tal tragédia. Um dia, ao se encaminhar para um canto de rio, para beber água, viu seu reflexo e não conseguiu sair mais dali, morreu apaixonado pela própria imagem. É uma narrativa interessante sobre a atração que o homem tem sobre si mesmo, imagem um tanto quanto exagerada nesse caso, é claro, mas uma pequena demonstração de como a sua própria figura o atrai.

Vênus - Pré-história

Desde quando começou a se manifestar artisticamente, representar a si próprio nas obras que produz tem sido uma prática milenar e constante. Nas cavernas, o homem já se incluía nos primeiros desenhos, e a escultura de uma “Vênus” paleolítica, é uma das mais antigas expressões artísticas retratando uma mulher. Tem as formas exageradas, o que deve ser uma alusão direta à fertilidade, e carrega uma beleza plástica com leitura quase contemporânea. Assim, “apaixonado” pela própria imagem, o homem vem se expressando nas mais diversas formas e nos mais diversos efeitos e técnicas. Chegou a patamares de perfeccionismo inimagináveis e produziu deformações que exibiram uma auto imagem nunca antes pensada. Faremos uma breve viagem pelo tempo, quando essa auto admiração começou a ganhar proporções relevantes.

Arte egípcia

Com exceção de algumas antigas civilizações e de alguns pouquíssimos povos da atualidade, todos os grupos humanos sempre produziram imagens de si mesmos. Seja apenas para ornamentar ou para narrar suas trajetórias. Os egípcios criaram uma imagem relativamente avançada para seu tempo. A arte nessa época era restringida aos palácios e templos, pois os únicos empregadores de artistas, se não eram governantes, eram sacerdotes. Conseqüência disso, é que grande parte da produção artística egípcia daquele período, consistia na representação de oferendas a deuses ou em monumentos comemorativos das façanhas de seus governantes. Convivendo em uma sociedade rica, os artistas egípcios eram, contudo, quase anônimos. Subordinados aos trabalhos a que eram designados, viam suas personalidades se desaparecerem atrás de suas obras. É praticamente impossível identificar os artistas que compunham tais obras. Um fato interessante na arte pictórica egípcia, em todas as suas fases, é a maneira racionalista como abordam sua técnica. A forma completamente singular de suas imagens é realçada pela falta de perspectiva, à inexistência de escorços e uma abordagem quase sempre primitiva. Estão sempre representadas em posição lateral, o que confirma que em todo instante, não estavam intencionados em ludibriar a informação desejada, criando efeitos naturalistas em suas produções.

Vênus de Milo
Mármore Parian - 202 cm de altura - entre 130 e 120 a.C.
Museu do Louvre, Paris

A Grécia inaugura a grande fase da arte naturalista na história da humanidade. Acompanhado do desejo de reproduzir cada vez mais fielmente a figura humana, surgiu a valorização dos artistas, numa esfera mais individual e mais parecida com a que conhecemos hoje. Prova disso é que já em 700 a.C. as obras comecem a ganhar assinaturas. Mas é no século V a.C. que o Classicismo ganhou ares de sofisticação. Não bastava apenas representar realisticamente a figura humana, os escultores se embrenhavam na procura de uma beleza que fosse o cume da proporção e da ordem. O ideal de beleza grego é valorizado até hoje em todas as principais academias de desenho. O fim da arte helênica dá início ao predomínio da Arte Romana, que inicia com uma excessiva valorização da escultura e vai acrescentando, paulatinamente, a pintura em suas representações. A figura humana conquista a era dos retratos. Já não era mais desejada apenas uma representação de escultura ou pintura quaisquer. Quem as encomendava queria agora ver a sua própria imagem.

RAFAEL - Transfiguração
Óleo sobre tela - 405 x 279,5  - 1520
Museu do Vaticano

MICHELANGELO - A criação de Adão
Afresco - 280 x 570
Capela Sistina, Vaticano - 1510

Há um certo conflito, e até diria uma desnecessária tendência, em posicionar o momento verdadeiro de surgimento do período Renascentista. Muitos o iniciam à partir do Iluminismo, mas é mais coerente acreditar que as coisas não surgiram todas no século XV, mas que começaram a sofrer sérias transformações no século XII. Porém, é no Quattrocento italiano que a arte, principalmente a pintura, assina uma linha divisória nitidamente perceptível da arte medieval, assumindo uma extraordinária liberdade na composição e ganhando graça, elegância, perdendo o peso estatuesco e se impregnando de linhas cada vez mais harmoniosas em sua forma. Enquanto a característica básica da arte gótica é a justaposição; como se a obra possuísse várias mini-obras inseridas dentro dela; no Renascimento todos os conceitos de composição são revistos. É à partir daí que nasce a idéia de conjunto, de um quadro sendo visto pelo todo, e até mesmo de uma construção abrigando vários elementos representarem um motivo coeso e interrelacionado. A figura humana é tratada com respeito, mas não é absolutamente mais importante que o ambiente que a integra. O Alto Renascimento culmina nas mãos mágicas de Rafael, Da Vinci e Michelangelo. Todos comprometidos em representar a figura humana no mais alto ideal que essa já pode receber. Serão necessárias muitas outras matérias para descrever essa importante fase da história da arte.

FRANÇOIS BOUCHER - Nu em um sofá
Óleo sobre tela - 59 x 73

No Barroco, o que havia de frio, intelectual e calculista do final da Renascença, deu lugar a uma arte sensual, emocional e facilmente assimilável. A figura aqui, ganha mais movimento e assume ar mais teatral. Também assume ares mais naturalistas, e tende cada vez mais, a agradar o gosto de uma grande massa de novos consumidores. A arte começa a deixar o ambiente palaciano e a se integrar na vida provinciana, até ser suplantada definitivamente pelo subjetivismo burguês, nascendo assim o Rococó, que traz a representação artística para uma qualidade mais delicada e mais íntima. É a era que se instaura a representação de imagens com “carnes fartas”, bem contraditórias do ideal de beleza atual.

JACQUES-LOUIS DAVID - Mulheres sabinas
Óleo sobre tela - 385 x 522 - 1799
Museu do Louvre, Paris

A Arte, assim como qualquer outro segmento, é cíclica. Comportamentos vão e voltam por motivos variados. Aos excessos de liberdade que o Rococó parecia sucumbir, surgiu uma nova corrente, alimentada pelos grandes governantes, e que visava restabelecer o ideal das artes clássicas. O Neoclassicismo perdurou por um bom tempo e deu origem ao Romantismo, que avançou influenciando até a metade do século XIX. Nesse período, a figura humana é revisitada em ideais que lembram os gregos e romanos, mas foi perdendo força, assim que o século XIX avançava.

EDOUARD MANET - Almoço na relva
Óleo sobre tela - 208 x 265,5 - 1863
Museu d'Orsay, Paris

VAN GOGH - Autorretrato com orelha enfaixada
Óleo sobre lona - 51 x 45

Considero o século XIX o divisor de água na História da Arte. É nele, que de uma forma abrupta, se fazem todas as rupturas com os estilos e tendências. Da liberdade assumindo seu significado mais completo da palavra, prenunciando todas as grandes revoluções vivenciadas no século XX. A representação da figura humana, à partir daí, é a interpretação pura e pessoal de cada artista. Começa com o Naturalismo e Realismo, liberta-se definitivamente com o Impressionismo e vai avançando os anos em visões Expressionistas, Surrealistas, Modernistas e Concretas. Já não nos mostram como somos visualmente, mas como nos comportamos a nível emocional. Chegamos ao presente e continuamos a nos procurar.

AMADEO MODIGLIANI
Retrato de Jeanne Hebuterne em um grande chapéu
Óleo sobre tela - 54 x 37,5 - 1918

ALBERTO GIACOMETTI - Homem caminhando

ANDY WARHOL - Marilyn - Técnica mista - 1967

DAMIEN HIRST - Ressurreição
Instalação

Viemos até aqui tentando entender um pouco do passado. Dizem que essa é a melhor maneira de melhorar o presente, e parece ser mesmo uma verdade imutável. Continuamos a nos representar, fascinados pela nossa própria imagem, assim como Narcisos apaixonados por si mesmos. A figura humana será sempre a mais alta busca na representação artística que produzimos. Jamais findará para o homem, a eterna busca de se encontrar.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

CATEDRAL METROPOLITANA DE CAMPINAS - ENCONTROS E DESCOBERTAS

Catedral Metropolitana de Campinas,
fachada principal.

Fizemos uma proposta no início desse ano: a de nos encontrarmos pelo menos três vezes, uma vez em cada uma de nossas cidades. Os companheiros Waiderson, Célio e eu. O termo “companheiros” ainda é herança de um passado de atividades políticas. Havia um certo idealismo que o tempo ajudou a arrefecer, mas ainda comungamos muitas idéias parecidas. O primeiro encontro desse ano foi em abril, no Rio de Janeiro, terra momentânea do companheiro Célio. O segundo em Sumaré, terra adotada pelo companheiro Wai, aconteceu nesse último final de semana. O terceiro está marcado para Dionísio, minha terra de sempre.

Da esquerda para a direita:
Waiderson, Célio e José Rosário

É também um momento de encontrar com as famílias de todos, frear um pouco a correria insana do dia a dia, e deixar que uma boa conversa alimente as chamas dessa amizade nossa. Nesse nosso encontro em Sumaré, havia também muita possibilidade de diversão por perto. O SWU acontecia em Paulínea, até passamos um pouco por lá. Deu pra sentir um pouco do clima agitado de um festival que tem muitas propostas. A gente fica até torcendo que tais propostas “peguem” um dia, mas na prática, há muito para melhorar. Holambra também acabou entrando no roteiro. O tempo ficou nublado por todo o fim de semana, mas não comprometeu em nada nossas propostas.

Da esquerda para a direita:
Waiderson, Andréia, Lucas, José Rosário, Zelma, Rafael e Pier Giorgio.

Sem fazer muitos planos, sempre visitamos algum local interessante nesses encontros. Se em abril, no Rio, tudo me era apresentado como novidade, agora tive a possibilidade de conhecer melhor um dos cartões postais de Campinas, vizinha cidade de Sumaré: visitamos quase que por acidente, a Catedral Metropolitana de Campinas.
Digo “quase que por acidente”, porque passávamos por perto e resolvemos entrar. Uma daquelas felizes coincidências que nos acontecem em raras ocasiões da vida.
Teria sido uma visita corriqueira, não fosse o encontro com Pier Giorgio Saruis, um arquiteto e restaurador italiano, responsável pela atual restauração de toda a estrutura física pela qual está passando a catedral. Uma pessoa encantadora, certamente uma das maiores autoridades mundiais em Edificações Antigas, formado pelas Academias de Florença e Veneza. Ele nos falou do prazer em conhecer os quatro cantos do mundo, tendo a possibilidade de fazer aquilo que mais gosta: restaurar e preservar a memória da humanidade. Com toda a simpatia que lhe é marca forte, gastou uma tarde inteira na nossa presença e fez questão de nos apresentar tudo, não se esquecendo de nenhum detalhe. Falou-nos do passado daquele templo e nos mostrou as mudanças que estão sendo feitas no presente, para que o futuro não esqueça esse trecho tão importante da história daquela cidade. Ficaríamos muitas tardes mais em sua companhia, ouvindo tantas curiosidades que ainda não nos foram apresentadas naquele momento.

Catedral Metropolitana de Campinas.
Construção, em uma ilustração de época

Interior, novembro de 2011.

Para situarmos melhor, a Catedral Metropolitana de Campinas, também conhecida como Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em homenagem à padroeira de Campinas, está localizada na Praça José Bonifácio, bem no centro da cidade. O local recebeu o nome de Largo da Catedral. Há que se destacar desde o início, que se trata da maior construção do mundo construída em taipa de pilão, uma técnica completamente rudimentar que dispensa o uso de tijolos, e onde as paredes são erguidas com a deposição de camadas de uma espécie de massa especial desenvolvida naquela época. Toda feita utilizando o trabalho escravo, a Catedral tem mais de 4.000 m² e é também um dos mais altos nessa técnica.

Catedral Metropolitana de Campinas.
Apresentação da parede em taipa, por Pier Giorgio.

Interessante mesmo foi visualizar isso tudo nas explicações pacientes de Pier Giorgio. Ver as camadas de taipa ainda expostas, que se encontram acima do forro do telhado e como as paredes foram erguidas e se mantém até hoje.

Catedral Metropolitana de Campinas.
Década de 1940.

A história do templo também é muito rica. Com um roteiro que encabeçaria uma ótima produção cinematográfica, a catedral ergueu aos trancos, depois de muitos esforços e até tragédias. Em 14 de julho de 1774, foi inaugurada a Paróquia da Conceição na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas de Mato Grosso de Jundiaí, com missa cantada, levantamento da pia batismal e benção da matriz provisória. A freguesia foi elevada à categoria de vila em 1797 e teve seu nome mudado para Vila de São Carlos. Em 1807, a câmara da vila determinou o início da construção de uma nova igreja, sendo os imensos alicerces, típicos da construção em taipa de pilão, construídos pelos escravos e desde já, abençoados pelo vigário. O primeiro administrador da obras foi Felipe Teixeira Néri. Durante 38 anos, as taipas foram sendo piladas, financiadas por contribuições, loterias e até um novo imposto provincial, a Lei Provincial n° 3, de 9 de março de 1854. A luta pela independência, a Revolução Liberal de 1842 e outros fatores contribuíram para a lentidão das obras, e as taipas só foram concluídas em 1845, podendo a capela-mor, a sacristia e a nave central serem cobertas naquele ano. Em 1847, devido à visita de D. Pedro II, que havia elevado a Vila de São Carlos à condição de cidade, com o nome de Campinas, em 1842, a Igreja do Rosário é tornada matriz provisória, pois a matriz nova ainda não tinha condições de uso e a Matriz Velha jazia abandona e decrépita.

Detalhe de entalhamento das colunas laterais.

Em 1848, o doutor Antônio Joaquim de Sampaio Peixoto assumiu a condução das obras. Foi Antônio Francisco Lisboa, conhecido como “Baía”, que no ano de 1853, pagou as despesas de viagem, e trouxe da então província da Bahia, um grupo de entalhadores comandados por Vitoriano dos Anjos Figueiroa e mais três oficiais, para se encarregarem da ornamentação interna da “matriz nova” de Nossa Senhora da Conceição. Já em Campinas, Vitoriano era tratado por “professor de entalhe”. Valendo-se dessa prerrogativa, formou na cidade um corpo de aprendizes, dos quais podemos citar Antônio Dias Leite, José Antunes de Assunção e Laudíssimo Augusto Melo, esse inclusiva deficiente auditivo, e tido pelos contemporâneos como muito habilidoso.


Interior da Catedral Metropolitana de Campinas.
Passo da Via sacra.

Vitoriano foi responsável pelo altar-mor, das tribunas, dos púlpitos, da varanda do coro e até mesmo pela condução das obras até 1862, quando foi dispensado pelo novo administrador, Antônio Carlos de Sampaio Peixoto. Auxiliado pelos arquitetos Job Justino de Alcântara, Antônio de Pádua Castro e o doutor Bittencourt da Silva, em 1862, Sampaio organizou um novo grupo de entalhadores, chefiados por Bernardino de Sena Reis e Almeida, que era fluminense. Concluiu-se a ornamentação da nave central em 1865, os dois altares dos cantos e os quatro laterais, bem como as capelas. Tudo entalhado em cedro, abundante nas matas ao redor da cidade. Segundo Pier Giorgio, as madeiras do telhado são todas em Araucária, retirada do próprio local onde foi erguida a catedral. Na restauração atual, peças sobressalentes dessa madeira foram trazidas do Paraná.
Os sinos começaram a ser instalados em 1870. Foram trazidos de uma empresa de Londres, cujo nome é impossível de ser identificado na atualidade.


Catedral Metropolitana de Campinas.
Interior com celebração.

Após a conclusão do interior, teve início o processo da construção da fachada, havendo cinco mudanças de projeto: o primeiro tinha características barrocas com duas torres, e nesse sentido, seria perfeitamente integrado ao estilo adotado no interior do templo. Era de autoria do Dr. Bittencourt, mas não pôde ser executado pois não havia cantaria disponível na região, sendo adaptado por José Maria Cantarino. O segundo projeto, em estilo neoclássico, de Charles Romieu, previa uma única torre assentada sobre quatro colunas de pedra, cal e tijolos, mas foi suspenso devido aos acidentes ocorridos na construção, que levaram ao soterramento de quatro funcionários e uma criança. O terceiro projeto, de autoria de José Maria Villaronga, foi escolhido como resultado de um concurso público, e previa uma fachada neogótica, mas houve desentendimentos entre os administradores e não chegou sequer a ser iniciado. Em 1876, foi contratado o engenheiro italiano Cristóvão Bonini, para mudanças na planta e conclusão da obra, mas foi exonerado pela câmara em 1879. Finalmente, o quinto projeto, implementado pelo campineiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo, recuperou o estilo neoclássico e deu o formato que é conhecido atualmente. Também foi o responsável pela conclusão de todas as obras, inclusive da instalação de dutos de gás para iluminação, uma novidade na época.


Panorama de uma das capelas laterais.

Inaugurada em 1883, a catedral recebeu novas ornamentações na fachada durante a grande reforma de 1923 (como os medalhões com as datas comemorativas da diocese, as guirlandas e as estátuas dos quatro evangelistas e dos quatro anjos do Apocalipse), quando também as telhas coloniais foram trocadas por francesas e a abóbada sobre o altar-mor foi levantada alguns metros, ficando na mesma altura do restante da igreja. Foi também nessa época que o zimbório foi trocado por uma cúpula em gomos, encimada pela imagem de Nossa Senhora. Também segundo informações de Pier Giorgio, essa imagem da santa era acabada com policromia, que será recuperada na atual restauração. A abóbada também possuía revestimento de ouro e prata, que serão devidamente recompostos na atualidade.


Altar em uma das capelas laterais.

O requintado entalhamento na madeira, localizado em seu interior, não possui douração. Pelas informações de Pier Giorgio, na segunda década do século XX, uma infestação de cupins, provenientes das matas derrubadas desenfreadamente, nos arredores de Campinas, obrigou a uma aplicação de piche em todo o interior da igreja, única solução encontrada para proteger o patrimônio naquela época.
A Catedral Metropolitana de Campinas é tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (CONDEPACC).
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Que os nossos próximos encontros tragam muitas boas surpresas como esta!

domingo, 4 de setembro de 2011

CARAVAGGIO

CARAVAGGIO - São João Batista
Óleo sobre tela - 129 x 94
Pinacoteca do Museu Capitolino, Roma

As figuras mais revolucionárias da História da Arte talvez também sejam as mais misteriosas. Se quiser acrescentar “polêmicas” a essa lista de atributos, terá sido escolhido mais um adequado adjetivo. Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio; nome de sua aldeia natal, próxima à Bérgamo, na Itália; é uma dessas figuras que consegue agrupar todos esses adjetivos citados e muitos outros. A começar pela insistência constante, em sua carreira, de ser um opositor nato ao que via no cenário artístico de sua época. Queria uma nova linguagem, mais ousada, que fosse ao mesmo tempo realista e teatral, cujo drama de suas composições nos deixasse em contato direto com a natureza e a verdade dos personagens que representava. Pela insistência dessas suas propostas, abriu caminho para o que veio a ser chamado de Arte Barroca, um afrontamento declarado ao “Maneirismo”, que nada mais era que uma “maneira” de pintar dos artistas mais velhos, e que para o próprio Caravaggio, eram limitados, acadêmicos demais e afetados por dogmas que diminuíam o vigor de suas obras.

CARAVAGGIO - O tocador de Lira
Óleo sobre tela - 100 x 126,5
Museu Metropolitano de de Arte, Nova Iorque

CARAVAGGIO - Rapaz levando um cesto de frutas
Óleo sobre tela - 70 x 67
Galeria Borghese, Roma

CARAVAGGIO - O pequeno Baco doente
Óleo sobre tela - 67 x 53
Galleria Borghese, Roma

Só por essa breve introdução já é possível fazer um apanhado do que talvez seja a trajetória de um dos artistas mais polêmicos da História da pintura. Competente em sua proposta artística, não aliviou na intensidade de sua trajetória de vida, condenado e encarcerado por crimes diversos, desde homicídio até ao que hoje é denominado pedofilia, andou de prisão em prisão, libertado delas por seus protetores poderosos ligados à Igreja e ao governo.

CARAVAGGIO - O amor triunfante
Óleo sobre tela - 156 x 113
Gemäldegalerie, Berlim

CARAVAGGIO - Cabeça de medusa
Óleo sobre tela colada sobre um disco de madeira de choupo - 60 x 55
Galleria Degli Uffizi, Florença

O menino Caravaggio nasceu a 29 de setembro de 1571. A primeira infância passou em Milão, mas a peste que fez estragos por muitos anos em toda Europa, obriga a família a retornar à cidade de Caravaggio, onde fica órfão de pai e a mãe passa por graves problemas de dinheiro.

CARAVAGGIO - Grande Baco
Óleo sobre tela - 95 x 85
Galeria Degli Uffizi - Florença

Simone Peterzano foi o artista que primeiro o acolheu em sua oficina, quando Caravaggio ainda contava com 13 anos de idade. Peterzano era pintor de fama, que havia sido instruído por Ticiano e tinha o aval de príncipes e autoridades de sua região. Foi ele próprio que abriu caminhos, na Lombardia, para o surgimento de um novo estilo de pinturas, mais naturalista e que confrontava com o “Maneirismo” reinante naquela época. É também nesse período, o final da grande época do Renascimento. Portanto, não é de se admirar onde tenha se formado e encorajado, em Caravaggio, a excelência de sua técnica e o desejo constante de confrontar, de chocar com seus temas e não poupar polêmicas. Todos os seus primeiros trabalhos são altamente profanos, com figuras de rapazes andrógenos em poses e situações nada convencionais para sua época. Trabalhos como “Rapaz mordido por um lagarto” e “Concerto dos Jovens (Os músicos)”, são dessa época.

CARAVAGGIO - Os músicos
Óleo sobre tela - 92 x 118,5
Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque

                            

Após um período de grave doença, sobrevive quase que por milagre. Mesmo ainda não estando totalmente recuperado, pinta “Baco doente”, um dos muitos prováveis autorretratos que faria em sua carreira. É também desse período a célebre obra “Cesto de frutos”, executada em Milão.

CARAVAGGIO - Cesto de frutos
Óleo sobre tela - 31 x 47
Pinacoteca Ambrosiana, Milão

Não só nessa fase, como em quase toda a sua curta trajetória de vida, viveu num instante histórico tumultuado, com o Concílio de Trento elaborando a Contra-reforma. Opondo drasticamente a Lutero e Calvino, que haviam banido o uso das imagens dos templos, os papas e jesuítas decidem exatamente confrontar: abundância de imagens, ornamentos, contrastes, coloridos e todo tipo de exageros. Decidiram assumidamente conquistar os fiéis pelo deslumbramento e provar com isso a superioridade de Roma. O Barroco parecia a linguagem ideal para tal intenção. Monteverdi acabara de inventar a ópera, e uma série de fatos e acontecimentos ferviam na cabeça de todos os artistas daquela época. Essa efervescência parece ter sido ampliada na cabeça de Caravaggio, por isso, cada obra sua era aguardada como mais um escândalo anunciado. Pouco depois de sua morte, Poussin viu algumas de suas obras em Roma e afirmou: “Ele veio para destruir a arte”.

CARAVAGGIO - A ceia em Emaús (Primeira versão)
Óleo sobre tela - 141 x 175
Pinacoteca Brera, Milão

CARAVAGGIO - A  ceia em Emaús (Segunda versão)
Óleo sobre tela - 141 x 196,2
The National Gallery, Londres

À partir de 1600, começam as encomendas que viriam a ser o ponto alto de sua carreira: “A vocação e o martírio de São Mateus”, “A crucificação de São Pedro” e “A conversão de São Paulo”. Não dá descanso e volta a escandalizar novamente. Desta vez em “A morte da virgem,” onde pinta Maria com ares de uma cortesã de época. Há quem afirme que a modelo utilizada, foi o corpo de uma prostituta afogada, retirada do Rio Tibre. Uma das marcas de Caravaggio é exatamente essa, trazer para o interior de sua obra, as pessoas simples que encontra pelas ruas e tabernas. Seus santos e santas são vestidos de humanidade, busca nos modelos camponeses mais rudes, inspiração para seus apóstolos e figuras sacras, e isso choca o meio em que vivia. Conseqüência disso, teve vários trabalhos encomendados recusados, como uma “Nossa Senhora”, pintada para a Basílica de São Pedro, mas que não foi permitida a instalação.


CARAVAGGIO - Davi com a cabeça de Golias
Óleo sobre tela - 125 x 101
Galeria Borghese, Roma
A cabeça de Golias talvez seja mais um dos muitos
autorretratos produzidos pelo artista. A imagem sofrida
aqui representada é o retrato da melancolia que o
acompanhou pelos últimos anos de vida.


Já nessa fase, possuía, apesar de ainda jovem, um domínio extraordinário no uso do espaço e no arranjo de suas composições. Caravaggio fez com que o mundo das artes imergisse em uma espécie de escuridão. Seus personagens saltavam de penumbras densas, com uma luz que delineava e realçava pontos especiais da tela. Eram as sombras que ditavam o caminho da composição de seus trabalhos, valorizando ainda mais a forte luz incidental que se tornou a característica maior de suas obras. Ainda que muitos críticos contrários a ele, alegassem que a escuridão demasiada de suas obras fosse um falta de habilidade para lidar com o detalhamento em planos diferentes, essa marca se tornou uma técnica, e o claro-escuro viria a habitar muitos trabalhos de artistas sucessores dele. La Tour, Rembrandt e Vermeer são alguns dos exemplos mais célebres desses seus seguidores.

CARAVAGGIO - O martírio de São Mateus
Óleo sobre tela - 323 x 343
Capela Contarelli da Igreja S. Luigi dei Francesi, Roma

CARAVAGGIO - A crucificação de São Pedro
Óleo sobre tela - Óleo sobre tela - 230 x 175
Capela Cerasi da Igreja Santa Maria del Popolo, Roma

Uma série de ocorrências policiais, deixa ainda mais tumultuados os seus dias. Fere um notável por causa de uma prostituta, provoca uma rebelião em um albergue e é acusado pela morte de um sargento de polícia. Assim como na vida pessoal, a recusa por uma idealização também continua na arte, opondo na temática e na maneira como conduz suas composições.

CARAVAGGIO - A conversão de São Paulo (Obra recusada)
Óleo sobre painel de cipreste - 237 x 198
Coleção do Príncipe Guido Odescalchi, Roma

CARAVAGGIO - A conversão de São Paulo (Obra aceita)
Óleo sobre tela - 230 x 175
Capela Cerasi da Igreja Santa Maria del Popolo, Roma

O temperamento impulsivo e inconseqüente de Caravaggio lhe custou um alto preço. Em 1606, mata um homem chamado Tommasoni, por causa de uma simples discussão em um jogo. Por isso, foge de Roma sob disfarces, tendo sua cabeça a prêmio, por qualquer oficial que o encontre. Mais uma vez, seus protetores o escondem, agora o Príncipe de Colonna. Indo para Nápoles, em finais de 1606, produz novamente diversas obras: “Ressurreição”, uma “Flagelação de Cristo”, “Cristo na coluna”, “Sete obras de Misericórdia” e “Virgem do Rosário”, tendo essa última provocado desavenças entre ele e os Domenicanos que a encomendaram. Vai para Malta e realiza grandes obras para a catedral de São João e dois retratos do Grão-mestre da Ordem.

CARAVAGGIO - A deposição no túmulo
Óleo sobre tela - 300 x 203
Pinacoteca Vaticana, Roma

CARAVAGGIO - As sete obras da misericórdia
Óleo sobre tela - 390 x 260
Igreja de Pio Monte della Misericordia, Nápoles

Mais uma nova prisão lhe põe em conflito com a polícia. Já não mais gozando de boa saúde, realiza alguns trabalhos já sem muita expressão. Volta a Nápoles em 1609 e continua a produção de obras desconcertantes. É vítima de um atentado e a notícia de sua morte chega até Roma, mas era falsa. Ferido, ele deixa Nápoles em uma pequena embarcação rumo ao norte. Não se sabe exatamente o motivo, mas é dado como morto em uma praia em Ercole, próxima à Roma, apesar de seu corpo nunca ter sido encontrado. Não tinha ainda quarenta anos de idade.

CARAVAGGIO - A incredulidade de Tomé
Óleo sobre tela - 107 x 146

CARAVAGGIO - Nossa Senhora dos Peregrinos
Óleo sobre tela - 260 x 150
Igreja Santo Agostinho, Roma

CARAVAGGIO - Narciso
Óleo sobre tela - 122 x 92
Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma

Toda essa tribulação em vida comprometeu seriamente a reputação de suas obras. A beleza e a força de sua obra não resistiram e o artista foi esquecido. Passaram-se mais de três séculos para que a justiça fosse feita. Somente à partir de 1920, com os trabalhos do crítico Roberto Longhi, que o público descobriu sua obra e toda sua grandiosidade. Segundo outro crítico; o americano Bernard Berenson; depois de Michelangelo nenhum artista italiano foi tão influente quanto Caravaggio. Influenciou nomes de peso que atravessaram vários séculos depois do seu, e é bem provável que os artistas citados a seguir não teriam alcançado a intensidade de seus rabalhos se não tivessem conhecido os trabalhos de Caravaggio: Ribera, Vermeer, La Tour, Rembrandt, Delacroix, Géricault, Courbet e Manet. Uma frase de André Berne-Joffroy resume bem a importância de sua obra: “No dia seguinte da Renascença, o que começa com Caravaggio, é simplesmente a pintura moderna”.

CARAVAGGIO - O repouso durante a fuga para o Egito
Óleo sobre tela - 135,5 x 136,5
Galleria Doria Pamphili, Roma

CARAVAGGIO - O sacrifício de Isaac
Óleo sobre tela - 104 x 135
Galleria Degli Uffizi, Florença

CARAVAGGIO - São Jerônimo escritor
Óleo sobre tela - 112 x 157
Galleria Borghese, Roma

Não foi fácil ressuscitar toda sua obra, uma vez que deixou um grande número delas produzidas, mas apenas uma delas assinada. Mas o sucesso chegou, ainda que tardiamente, na metade do século XX. O mestre das trevas, assim conhecido pelo uso marcante do claro-escuro, estará para sempre como um dos capítulos mais importantes da História da Arte.

Retrato de Caravaggio, por OTTAVIO LEONI
Giz branco e vermelho sobre papel azul - 23,4 x 16,3
Biblioteca Marucelliana, Florença